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Gonzáles.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Aspectos Epistemológicos da Noção de Complexidade.

Desculpe-me por tamanha ausência!!! Decidi voltar a explanar o que analiso em meio aos meus ideários subjetivos.
















A Concepção de Complexidade é apresentada, a partir da noção de "estado central flutuante", unificando Mente/Cérebro como uma"máquina hipercomplexa".

Visto que o verdadeiro problema é este: como é que essa parte da realida­de que começa pela consciência pode ajustar-se àquela outra par­te que é descrita pela física e pela química?

Esta é uma das concepções essenciais para o conceito de complexi­dade. Os demais critérios seriam:
_A interação entre as partes do espíri­to que é provocada pela diferença
_O processo mental que exige energia colateral
_O processo mental que exige cadeias de determinação circu­lares (ou mais complexas)

Nos tais processos, os efeitos da dife­rença devem ser considerados como transformações (isto é, como
versões codificadas) que os precede; a descrição e a classificação destes processos de transformação revelam uma hie­rarquia de tipos lógicos imanentes aos fenômenos.

Sendo assim, vamos ao que interessa...

Todo o organismo vivo, desde o nascimento até a morte, está em estado de não-equilíbrio; a reação de um organismo a um es­tímulo é dependente de e modulada por um estado central definido como a condição reativa total, num da­do momento, de um neurônio, de um conjunto funcio­nal de células, de um elemento subcelular no interior do sistema nervoso, ou deste último considerado como um todo.
Assim, ocorrem mudanças com a hora do dia, com o dia do ano, com os anos que fazem envelhecer e com os milhares de acontecimentos da vida cotidiana. O organismo vivo é, ao mesmo tempo, o todo e a parte dos conjuntos e subconjuntos que o constituem. As mudanças em fun­ção de: materiais e gases transportados pelo sangue, hor­mônios, íons, acidez, temperatura, anticorpos, micró­bios e toxinas, estado de nutrição de células, órgãos e tecidos, informações que chegam ao cérebro, posição do corpo no espaço, recordações, passar do tempo e por aí vai.


O estado central - representação do mundo - é uma projeção em que se fundem três dimensões:
1ª. corporal: definida pelos dados físico-químicos do meio interno (meio interior e meio cerebral), aos quais se sobrepõe o estado das peças, músculos, tecidos e órgãos que constituem o organismo;
2ª. extracorporal: representação que o indivíduo tem do mundo, tanto do espaço sensorial recebido pelos ór­gãos dos sentidos, como do espaço do movimento perce­bido por receptores especializados que indicam a posição dos diferentes segmentos do corpo, estado de tensão dos músculos, ângulo das articulações etc.;
3ª. temporal: ocupada pelos vestígios acumulados durante o desenvolvimento do indivíduo, desde o nasci­mento até a morte. Provém do determinismo genético que põe em ação os programas centrais, ordena a matu­ração e o envelhecimento e também da contingência his­tórica que integra os acontecimentos da existência.
Para materializar esse estado central, temos de con­ceber um cérebro flou - somatório dos humores, hor­mônios e mediadores em ação no sistema nervoso. "O estado central é, ao mesmo tempo, a árvore e a flores­ta" (VICENT, 1988). Essa concepção está de acordo com a questão posta por Vaz ao discutir que devem ser leva­dos em conta dois níveis de descrição do sistema nervo­so:
1º. pertencente ao domínio estrutural, em que se demarcam os componentes do sistema nervoso e suas in­ter-relações recíprocas - ou seja, uma unidade decompo­nível em seus elementos;
2º. referente ao domínio das interações, em que tais interações se constituem num todo (como uma unidade singular), a ponto de condicio­nar a conduta do organismo portador de tal sistema ner­voso (VAZ, 1991).
É, ainda, importante assinalar a corres­pondência da noção de cérebro flou com a idéia do chi da medicina oriental. Segundo Capra, esse conceito des­creve padrões de fluxo e flutuação do organismo e suas interações com o meio. Implica numa descrição qualitati­va de um padrão dinâmico resultante de processos e inte­rações (CAPRA, 1990).
Uma ampla e consistente abordagem da complexida­de em relação à Relação Cérebro/Mente, ou Corpo/Mente foi desenvolvi­da por Morin. A partir do paradoxo-chave: "o que é um espírito (este é o termo empregado, em vez de "men­te") que pode conceber o cérebro que o produz e que é um cérebro que pode produzir um espírito que o conce­be?"
Morin assinala que não se pode isolar um do ou­tro e nenhum dos dois da Cultura. Ao comentar os aspec­tos biológicos da disjunção, cita Piaget: "A uma certa profundidade, a organização vital e a organização men­tal constituem uma única e mesma coisa" (MORIN, 1987) .
Isso decorre do fato de o corpo possuir dezenas de milhares de milhões de células, que realizam interpoli­computações que resultam na produção dessa realidade corporal. Além disso, o aparelho neurocerebral é consti­tuído por grande quantidade de neurônios (trinta a cem mil milhões) e de sinapses que viabilizam computações voltadas para o domínio cognitivo.
Dessa forma, a ativi­dade cognitiva do cérebro animal pode ser vista como uma "megacomputação" de computações. No caso hu­mano, há uma complexidade organizacional de tal ordem que viabiliza a transformação de computações em "cogi­tações", mediante a linguagem e a lógica. Simultanea­mente, o computo se torna cogito quando atinge a refle­xividade do sujeito que pensa seu pensamento, pensan­do-se a si próprio, quando tem consciência da sua cons­ciência.
O espírito emerge com a linguagem, o pensa­mento e a consciência. Para Morin, o espírito seria "um complexo de propriedades e qualidades que, provindo de um fenômeno organizador, participa dessa organiza­ção e retroage sobre as condições que o produzem" (MO­RIN, 1987). Isso só pode ser concebido a partir de:
(a) um todo organizador maior que os seus elementos constituti­vos;
(b) o desenvolvimento de qualidades emergentes com a capacidade de retroação sobre o que a produz;
(c) uma atividade recorrente cujo produto se torna produtor da organização que a produz (MORIN, 1987).
Quanto à noção de psiquismo, estaria referida ao aspecto individual-subjetivo da atividade do espírito. Es­taria vinculada à idéia de "ego", à identidade pessoal - incluindo os aspectos afetivos, oníricos, fantasmáti­cos da atividade espiritual.
Para conceber o cérebro como uma "máquina hiper­complexa", Morin descreve algumas características neu­rofisiológicas importantes:


1ª. Os dois hemisférios cerebrais - Conforme os es­tudos de Sperry, o hemisfério direito se relaciona com emoção, intuição, aspectos concretos (entoação da voz, cores), apreensão das formas globais, orientação espa­cial, aptidão musical. Já o esquerdo está referido à aná­lise, abstração, lógica, tempo seqüencial. O esquerdo se­ria dominante nos homens, o direito, nas mulheres. Mas a dominância varia também conforme os indivíduos e num mesmo indivíduo, conforme as contingências. Des­sa maneira, haveria um constante diálogo de complemen­taridade/antagonismo dos dois hemisférios - importan­te aspecto em termos de complexidade (MORIN, 1987).


2ª. O cérebro triúnico - McLean elaborou uma teo­ria de regionalização cerebral, de acordo com elementos filogenéticos. Assim, haveria:
* o paleocéfalo (herança reptiliana), constituído pelo hipotálamo - sede da agres­sividade, do cio, das pulsões primárias;
* o mesocéfalo (herança dos mamíferos antigos), com o siste­ma límbico - aspectos da afetividade e da memória de longo prazo;
* o córtex, com os hemisférios cerebrais que se hipertrofiam no homem (o neocórtex) - lugar das aptidões associativas, lógicas e estratégicas. Assim, haveria uma unidade triunitária, que permite encarar o cérebro como complexo.
Não ocorreria uma hierarquia entre as instâncias, mas sim uma atividade instável, com complementarida­de, antagonismos.


3ª. A concepção modular - O cérebro estaria cons­tituído por mosaicos de módulos polineuronais (também chamados de grafos). Cada módulo teria uma autonomia relativa e possuiria competências e especializações próprias. Estariam intimamente conectados com outros módulos, de modo a permitir a ocorrência de inter-retro­computações que viabilizariam a emergência dos fenôme­nos perceptivos e inteligentes.


4ª. Os "hormônios" cerebrais - Há dois feixes hor­monais: o MFB (Medial Forebrain Bundle) - sistema catecolaminérgico (dopamina e noradrenalina), de estimu­lação à ação; feixe de recompensa e reforço que atuaria no hipocampo; e o PVS (Periventricular System) - siste­ma colinérgico, de incitação à fuga ou à defesa que atua­ria na amígdala. Assim, haveria uma inter-relação dos dois feixes no processo de formação das idéias, das per­cepções que teriam correspondências psicoafetivas, que, por sua vez, poderiam ser desencadeadas, também, por estímulos externos.
O cérebro seria, então, um complexo de sistemas complexos com uma multiplicidade de instâncias que se encadeiam e se combinam através da: * unidualidade bi­hemisférica, * unidualidade triúnica, * poliunidade inter­modular, * unidualidade dos feixes hormonais.
Para entender o funcionamento complexo, Morin elaborou três princípios, todos interligados: O dialógi­co; O recorrente; O hologramático.
(1) O princípio dialógico refere-se à idéia de intera­ção, isto é, à associação complexa de instâncias, conjun­tamente necessárias à ocorrência, funcionamento e desen­volvimento de um fenômeno organizado. No caso cere­bral, percebe-se esta propriedade nos diversos níveis cita­dos anteriormente. Além disso, haveria uma dialógica análise/síntese ligada à dialógica digital/analógica, im­prescindíveis aos processos perceptivos.
(2) O princípio recorrente diz respeito à noção ciber­nética de retroação, isto é, operações circulares, em que os "efeitos" rebatem sobre as suas "causas". Mas, a noção de anel recorrente é mais ampla: tratar-se-ia de uma retroação reguladora. Seria o processo no qual, os produtos são simultaneamente produtores dentro do mes­mo processo, de modo que os estados finais são necessá­rios à origem dos estados iniciais, desde que haja energia disponível (o segundo critério de Bateson para o surgi­mento do fenômeno mental).
(3) O princípio hologramático (que inclui as modali­dades holoscópica e holonômica) baseia-se na técnica de produção do holograma - imagem física projetada no espaço, a três dimensões, provocando a sensação de espessura. Cada ponto do holograma reproduz pratica­mente todo o objeto, em dimensão menor. Assim, o prin­cípio hologramático seria enunciado da seguinte manei­ra: o todo está inscrito na parte que está inscrita no to­do. Dessa forma, a complexidade da organização total precisa da complexidade organizacional de seus elemen­tos singulares, que por sua vez precisam, recorrentemen­te, da complexidade organizacional do todo. Essas idéias foram desenvolvidas por Jacob e por Koestler ao conce­berem, respectivamente, os conceitos de "integron" e de "holon" (JACOB, 1985; KOESTLER, 1978).
Morin considera, ainda, três modalidades desse prin­cípio:
* hologramática, propriamente dita - o todo, de certo modo, está inscrito nas partes inscritas no todo;
* holonômica - o todo governa as partes que o governam;
* holoscópica - operadora da representação total de um fenômeno (a memória, por exemplo, está registrada hologramaticamente, de modo que as representações se­riam estabelecidas a partir de computações armazenadas).
Desse modo, o princípio hologramático incorporaria os dois outros princípios (dialógica e recorrência) - o todo constituído desde partes interatuantes e retroagin­do sobre essas partes para controlar suas interações (MO­RIN, 1987).
Em suma, o funcionamento da máquina hiper­complexa cerebral consistiria de dialógicas, recorrências, interações, como se houvesse a implicação de cada ele­mento ou etapa do conjunto em todo processo, de mo­do que a resultante fosse construída a partir das interfe­rências entre todos os elementos e etapas desse processo.

Complexidade: Aspectos Epistemológicos

Stengers, na obra "Quem tem medo da Ciência?", reunindo os seminários proferidos durante sua vinda ao Brasil, em 1989, apresentou uma série de idéias sobre a "complexidade". Afirma que a noção de complexidade é "perigosa", do "ponto de vista da política dos sabe­res" (STENGERS, 1990). Essa autora aventa a possibilida­de de tratar-se de um modismo que pode encerrar uma "armadilha": estabelecer uma nova visão do mundo que, se, por um lado, ultrapassaria as visões tradicionais da Ciência, por outro, sustentaria a visão de mundo de que as ciências podem trazer a verdade para a história (por exemplo, a idéia de progresso linear seria substituída por conceitos como "caos", "instabilidade", "desconti­nuidade" etc.), de modo que, assim, a Ciência permane­ceria mantendo seus interesses diante de sua capacidade "desveladora" das realidades, encaradas em sua comple­xidade "real" (STENGERS, 1990).A partir do par "operador-conceito", Stengers dis­cute o par "simples-complicado". Para ela, o "concei­to, na medida em que explica porque o operador tem êxito, define igualmente um mundo onde, de direito, as categorias às quais o operador recorreu são pertinentes" (STENGERS, 1990). Dessa forma, a complexidade põe em relevo os riscos que o conceito corre em relação ao ope­rador. Para Stengers, um operador, ao mesmo tempo e indissociavelmen­te, define uma prática de medida e um objeto, uma prática de me­dida que define seu objeto e um objeto que legitima uma prática de medida.
Diz ela: "Será que é a mesma coisa só que mais complicada ou devemos pensar em termos de complexi­dade?" Os encaminhamentos para tentar responder con­duzem a dois usos da noção de complexidade:
(1) de problematizar "a relação entre a operação prá­tica (de definir) e o conceito que parecia autorizar tal operação (a definição do sistema enquanto permite dedu­zir seus diferentes regimes de atividades possíveis)." Este uso está baseado nas ciências experimentais. Tem como resultado por em questão "o risco da experimentação" e o problema da pertinência dos conceitos que ela deter­mina (STENGERS, 1990);
(2) de discutir a posição de quem estabelece as questões nas ciências. Ou seja, "todo o método afirma a diferença entre aquele que coloca as questões e aquilo sobre o que eles a colocam" (STEN­GERS, 1990). Isso conduz ao problema de indivíduos hu­manos colocarem questões a seu próprio respeito. Assim, respostas a tais questões passam a ser políticas, uma vez que haveria uma resposta "objetiva", "que deve supos­tamente definir o que é o indivíduo, e à qual o indivíduo deve supostamente ser submetido, enquanto que ele colo­ca o mesmo problema" (STENGERS, 1990).
Para Stengers, a complexidade não constitui nem "nova visão do mundo", nem "novo tipo de teoria". Mas, sim, refere-se a uma questão "prática": ela surge quando há um encontro "empírico" que demanda um questionamento do poder atribuído aos conceitos. Mais ainda: constitui o modo de problematização do "novo", sob a forma de chamar a atenção para o problema da pertinência dos novos problemas e para as definições de nossas posições quanto àquilo que interrogamos. Ou seja, tanto a problemática do "novo", como a problemá­tica das relações entre ciências e poder (STENGERS, 1990).
Mas, no que se refere ao problema "mente/corpo" - objeto de nosso artigo é importante mencionar uma indagação da própria Stengers, em obra anterior, ao co­mentar o fato de que a "psicossomática faz parte dessas zonas obscuras da ciência em que se tenta conhecer sa­bendo ao mesmo tempo que isso provoca uma mutilação causada por modelos errados, os quais, como provém de outras ciências, não são adequados a esse gênero de disciplina.
Assim, como conseguir manter uma interrogação rigorosa e ao mesmo tempo moldá-Ia segun­do as exigências do que temos de compreender?" (STEN­GERS, 1987). Nessa mesma obra, originária de um coló­quio chamado "As Vias do Conhecimento", organiza­do em 1984 pela Universidade de Tsukuba, no Japão, Stengers indaga-se (e aos japoneses) acerca da pertinên­cia do conceito oriental do chi.
 Em suma, para o estu­do do problema "mente-corpo", a complexidade se cons­titui num valioso instrumento heurístico. De acordo, por­tanto, com a proposição stengeriana anterior do redimen­sionamento dos conceitos em função de sua eficácia. E, também, diga-se de passagem, redimensionamento dos modelos explicativos disponíveis. No caso em foco, am­bos se fazem absolutamente necessários para viabilizar uma abordagem mais satisfatória (do que as disponíveis) dos fenômenos psicossomáticos, nos quais o problema "mente-corpo" inevitavelmente desemboca.

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