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Gonzáles.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

“O analfabeto emocional”




O Sentimento


 Como fator da máxima contradição humana;  tendo a função de afastamento de uma decepção, ao mesmo tempo em que gera uma carência abissal nas necessidades afetivas do sujeito. Infelizmente nenhum método de educação ensina alguém sobre a dificuldade num relacionamento.

A paixão e sedução contidas na questão do amor encerram quase sempre elementos de poder, disputa e controle sobre o parceiro. O sentir-se “embriagado” pela paixão diz muito mais da necessidade de fuga das pessoas para a grande infelicidade vivida no dia a dia, assim sendo, tal fenômeno age como uma espécie de droga ou narcotizante da falta de sentido em relação a outro drama moderno, a rotina. A sedução atua quase sempre no predomínio estético ou sexual sobre determinada pessoa. É o uso intencional de um instrumento condicionado e valorizado pela sociedade, objetivando a adulação das características narcisistas do sujeito. Em tese também podemos definir que tanto a paixão quanto a sedução são uma espécie de rebelião ou protesto inconsciente contra a inevitável morte ou insatisfação no relacionamento. Tentam passar um ápice de uma durabilidade do gozo ou êxtase absolutamente questionável.
A sedução é a mais tenra ilusão de que o outro detém a chave perfeita para a satisfação completa de nossos desejos, e sempre nos esquecemos que preço o mesmo irá cobrar por tal tarefa; já a paixão é o sonho máximo de que seremos correspondidos constantemente, de que jamais poderá haver uma desaceleração da vontade e prazer.

A sensibilidade abre outro terreno árduo para sua compreensão plena. Freqüentemente é cobrada por um ou ambos os parceiros, embora mais tarde se queixem de seus efeitos colaterais. Outro grande erro é achar que a mesma só se manifestaria no pólo positivo, quando a grande verdade é que funciona como uma esponja que absorve todo tipo de amargura ou mazela emocional. Não basta apenas perceber o problema da contradição, dialética ou a oposição nos diferentes tipos de vivências e sentimentos, mas, sobretudo, enxergar como foram construídos no decorrer de nossa história de vida. O amor existe e sem nenhuma dúvida é uma necessidade vital, o grande problema é sincronizar sua dose, pois ambos os pólos descompensados podem ser fatais; tanto a falta que gera a mais pura carência, ou o que alguns acham que seja seu superlativo, o ciúme, também totalmente destrutivo em quase todas as relações. O importante não é e nunca foi à definição do que seja o amor, mas apenas a raridade do fenômeno nas diferentes culturas e épocas. O romantismo, a poesia e outros adornos apenas deram pistas ou serviram de muletas na construção de tão complexo sentimento humano. A tese central deste texto é exatamente a ligação do desejo ou necessidade com outras tarefas que são colocadas concomitantemente para a pessoa; mas como somos na maioria das vezes extremamente alienados, achamos que resolveremos um problema de cada vez.
O que precisa ser pesquisado é justamente como e quando alguém consegue obter a experiência do amor. Alguns advogam que o mesmo aparece após a vivência dolorosa de experiências desagradáveis, se mantendo intacta a esperança e fé do sujeito no seu potencial afetivo, diria que é algo bem raro em nossa atualidade, dominada por um rancor borbulhante em relação ao passado de frustração e mágoa. Estes dois últimos sentimentos produzem uma impermeabilização completa em relação a qualquer nova tentativa de entrega. Nossa era está repleta dessa absurda neurose, sendo que se procura a mais absoluta perfeição ou garantia para após começar a suposta troca. Tal prática nefasta revela não apenas o medo exposto anteriormente de uma nova frustração, mas que a pessoa que se deixou abalar não tem condição alguma para a experiência do amor, justamente por essa fragilidade e incapacidade de lidar com a perda. É uma criança completa no plano emocional, tentando forçar uma adequação às suas expectativas estéticas ou econômicas. Obviamente tal indivíduo não almeja em hipótese alguma a contemplação do amor, mas exclusivamente a veneração de seu conteúdo ambicioso e egoísta, com a desculpa de que é alguém especial e que precisa valorizar a si próprio, quando na verdade está o tempo todo participando de uma espécie de leilão de suas emoções.
Na verdade todas as barreiras citadas que impedem a verdadeira troca dizem de um ser que não deseja expor sua fragilidade, justamente por se considerar inferiorizado no plano emocional, e concomitante medo de ficar envolvido, pois para tal tipo de pessoa tal fenômeno é uma derrota, pois vê todo o relacionamento sobre a ótica do poder ou quem domina em tal esfera; então para fugir do conflito busca exigências irreais. Boa parte da procura da estética se encerra neste quadro, se escondendo uma grande deficiência afetiva embaixo de uma perfeição corporal sancionada pelo sistema de consumo.

Alguns filósofos e psicólogos tentaram definir o amor como uma experiência em que há maior empenho na satisfação do outro do que com suas próprias necessidades. Embora tal conceito seja louvável do ponto de vista humanista, diria que além desta capacidade inata para perceber o outro, muito mais importante é ter a certeza do potencial afetivo da pessoa que se ama, tendo a confiança de que a mesma reagirá com gratidão quando devotarmos para ela os mais nobres investimentos de nossa alma; ao contrário da inveja e incômodo que muitas pessoas demonstram ao serem ajudadas ou amparadas; enfim o desafio de todos é aferir se o outro também é capaz não apenas de trocar, mas se valoriza aquilo que o parceiro julga ser suas qualidades mais profundas. A baixa estima é um câncer para o processo afetivo. Nenhuma chama permanece acessa sem o incremento de determinado combustível. A derrocada amorosa se dá quando um dos dois apenas almeja retirar sem repor, ou o outro também não faz a mínima questão de crescer ou vivenciar algo novo. O problema de alguém se tornar insensível não diz apenas de uma fuga perante o medo do sofrimento, pois todos querendo ou não passarão por tal infortúnio; o que ninguém admite é vivenciar algo único, sendo assim a chamada opção por não ser sensível (do ponto de vista positivo como expliquei acima), é se afastar da sensação de solidão que um sentimento intenso produz. Quase ninguém almeja ser pioneiro no terreno emocional, a liderança e poder se focam no plano material. A prova maior disso tudo é que sempre um dos parceiros se queixa de que o outro doa muito menos na relação, como se estivesse se preparando para uma retirada ou abandono.

Outro fenômeno moderno no terreno afetivo é a questão do tédio precoce nos relacionamentos. Este fator está associado diretamente ao transporte do consumismo social para a esfera privada do indivíduo. É um tanto óbvio tal ocorrido. Como conseguiremos algo um pouco duradouro se nossa mente é corrompida diariamente pelo descartável produzido pelo desejo de consumo? Boa parte do fracasso nos relacionamentos é produzida pela falta de inteligência e percepção deste acontecimento diário. Que as pessoas gostam de nadar na ilusão até nem discuto, mas se cegar perante uma contaminação incisiva é no mínimo trabalhar para sua infelicidade própria. Em parte a própria psicologia explica o fascínio da pessoa pela dor e queixa constante, forçando o ambiente a consolar tal indivíduo tão desprotegido.

Pensemos na questão do ciúme. O mesmo foi eternizado como uma insegurança ou fraqueza emocional do sujeito. Isto é uma análise superficial, pois em verdade o ciúme é o mais profundo sinal ou indício de uma futura ruptura ou perda. A pessoa presa de tal sentimento não visualiza que seu excesso nada mais é do que uma antevisão da ruína de seu projeto afetivo. O ciumento amplifica suas emoções negativas e traz também as do parceiro para seu caldeirão íntimo de sofrimento. Outra essência do ciúme é o mais puro complexo de inferioridade, pois a pessoa já intuiu que será derrotada neste campo, ou que poderá haver repetição de vivências dolorosas que já experimentou. Tal processo pode acompanhar o sujeito à vida toda, caso o mesmo não procure ajuda psicológica para desfazer tal trava emocional. E sobre a carência, como se desenvolve?A pessoa que cresceu sob a ótica de tal condição acaba desenvolvendo um mecanismo curioso de compensação. Ao mesmo tempo em que se sente negligenciada em seu direito afetivo histórico, têm a convicção interna de que algo muito especial ainda estaria por vir; o problema é dimensionar o tempo que irá suportar tal espera, sendo que o tédio ou desânimo não tardarão a assolar tal indivíduo. A carência é a exploração máxima da paciência e expectativa perante um retorno afetivo do outro, que pode nunca ser efetivado. É a interrupção plena da liberdade para escolher novas pessoas que possam satisfazer a necessidade de amor do indivíduo, sendo que o mesmo irá insistir na sua dor pessoal de rejeição e conseqüente reparação.

O sofrimento afetivo mais cedo ou tarde cobrará uma definição. Ou irá ocorrer uma busca desenfreada por algum tipo de reparação como foi dito, ou a energia será direcionada a algo novo. O apego é o pilar máximo da sustentação do processo da carência. É fato que boa parte do esforço infrutífero gasto por determinada pessoa diz de algo que jamais poderá ser reativado, ou mesmo que o fosse talvez não teria a mínima importância. Há duas formas de se lidar com a perda e todos já as notaram: nos tornarmos mais fortes e reagirmos com toda a tristeza oriunda do evento traumático, gerando um dever de melhorar em conflito com a dor; a segunda é a depressão propriamente dita, sendo a recusa da reação por não enxergar um sentido além do apego ao evento mórbido.

A trajetória emocional se assemelha à órbita elíptica de um meteoro que acaba sempre retornando infinitamente. É curioso que quando uma terapia retira em parte a angústia da pessoa, se volta exatamente ao ponto onde tudo começou, segundo inúmeros relatos de pacientes. Este é um dos segredos mais impressionantes da mente humana, devendo ser estudado a fundo. O conflito não segue uma órbita hipérbole, passando apenas uma vez perante determinado ponto, mas têm exatamente essa função de repetição de um espaço já percorrido. Foi exatamente esta questão que FREUD interpretou como a compulsão para repetir determinado evento traumático. O fato é que tal retorno se dá pelo lado afetivo recalcado, sendo que para FREUD a libido ou energia sexual seria o ponto de concentração energética mais forte do ser humano. O desejo se alimenta então justamente de seu oposto, a frustração, e se a mesma assolou o indivíduo de uma forma intensa, irá gerar um tipo de volição ou expectativa quase que eterna perante a realização de um fato almejado. Novamente se torna desnecessário dizer que o apego perante algo tão remoto bloqueará totalmente a capacidade atual da pessoa pela busca de seu prazer pessoal.tá-se dizendo aqui que o lado emocional caminha em círculo, caso não seja quebrada sua estrutura neurótica. Sem dúvida alguma este é um trabalho que poucos se deram conta de sua necessidade de efetivação. É justamente neste ponto que entra o problema do amor, pois o mesmo deve ser algo totalmente novo e original com outro ser humano, no qual se confiará a experiência do desejo e prazer; caso não ocorra tal situação a relação se torna mera arena para se reviver todo o drama familiar passado e o mais legítimo complexo de inferioridade. A experiência real e profunda do amor implica em não se sentir tão afetado, humilhado ou destruído pelo passado.

Quando realmente podemos dizer que conhecemos nosso parceiro amoroso? Com toda a certeza quando conseguimos visualizar todo o seu potencial construtivo e destrutivo. Este último é freqüentemente confundido com a agressividade. Claro que não estamos falando aqui da violência física, mas tentando desmistificar o problema do que realmente seja a agressão. Uma das coisas mais cruéis nas relações é justamente a sedução perante uma pessoa e conseqüente retirada do relacionamento. Isto infelizmente já virou uma espécie de jogo sádico moderno. Ao invés de nos iludirmos constantemente com a beleza ou fascínio sexual por alguém, seria interessante avaliarmos a capacidade dessa pessoa para a reciprocidade. O mais perfeito retrato da sala de espera do inferno se dá quando um dos parceiros sente que o outro é o mais puro e ideal objeto de amor para o mesmo, porém, não ocorre à mínima seqüência ou correspondência. A análise do problema do amor não correspondido passa por vários tópicos, mas o principal é a escolha de uma espécie de ícone incapacitado para a troca. A busca pela beleza ou sensualidade que pode acarretar a não correspondência diz muito mais de uma pessoa imbuída de um profundo complexo de inferioridade, que busca na outra uma compensação de sua problemática, tornando-a um troféu que possa encobrir seu drama pessoal não resolvido. É a princípio um acordo mútuo entre duas pessoas extremamente ambiciosas, uma por ser venerada por seus dotes físicos, e a outra para provar aos outros sua glória por ter conseguido algo tão valioso apesar de sua limitação na autoestima; não precisamos lembrar que tal contrato possui uma curta duração.

Confesso que a coisa mais estranha ou sombria que ouvi na vida foi determinado relato de uma pessoa que disse ter encontrado o parceiro ideal, mas estava morrendo de medo do amor propriamente dito. É chocante tal relato justamente pelo sujeito intencionalmente abrir mão de uma experiência de quase puro êxtase. A primeira explicação já foi dada acima; a pessoa encara o amor como uma submissão ou inferioridade, buscando um parceiro que se doe muito mais do que ela. Mas como se manifesta o medo do amor nos homens e mulheres? Nos primeiros historicamente pelo desleixo, indolência e a infidelidade conjugal, dando uma mensagem explícita de que jamais criará raízes profundas em qualquer tipo de relação. Este problema está associado também à questão da timidez, pois tal distúrbio tem a característica de afastamento de todo tipo de envolvimento emocional profundo. O tímido apenas ensaia gostar e amar, sendo que sua meta principal é cavar apenas uma trincheira de isolamento e proteção perante o contato social. Seu medo central é passar por uma situação de prova, e o amor é o teste supremo da intimidade de um ser humano, assim sendo, irá renegar todo tipo de entrega, embora tal problema pertença a ambos os sexos.

Na mulher o medo do amor principalmente em nossa atualidade se dá pela agressividade ou qualquer tipo de cobrança irreal perante o parceiro. A própria condição hormonal da mulher é a mais pura prova disso. A tensão pré-menstrual exacerbada diz psicologicamente de uma mulher que reprimiu ou não sabe lidar com seu potencial agressivo, e a alteração hormonal é a válvula de escape para todos os seus instintos negados, tomando por completo a pessoa. É como um estado de embriaguez em que se expõe toda sua agressividade; esta no lado masculino visa à competição, embora as mulheres também adotem tal conduta. Mas para as mesmas a agressividade é o bloqueio central que interrompe a entrega. A análise psicológica profunda de tal conduta irá revelar que tal pessoa está revivendo longínquas experiências paternas com seu atual parceiro, onde o núcleo é definir emocionalmente a figura masculina como sendo raivosa, embora isto também não deixe de ser uma projeção de seu emocional. A catástrofe afetiva é a intersecção mórbida entre pai e amante, não um complexo de Édipo como a psicanálise enxerga, mas a convicção feminina de que o parceiro sempre a usou para desafogar seus mais sádicos instintos. A seguir começa a surgir o ódio e desejo de retaliação. Na verdade a culpa do homem por tal situação é encarar a afetividade como uma espécie de esquema bancário, achando que sua companheira tem o dever inato de suprir todas as suas necessidades pessoais, com o mínimo de troca possível, esta sim é a essência do chamado machismo, não desejar enxergar, ajudar ou colaborar com sua parceira. Para a mulher, restou o pânico atávico de se sentir usada o tempo todo.

O problema da mulher no campo afetivo e sexual é exatamente se sentir instável perante o poder que detém sobre o gozo e satisfação masculina. Outra contradição é se irá se aliar psicologicamente a uma mãe traída e denegrida pelo pai, ou se simplesmente realiza seu potencial amoroso. Como poderá se libertar da servidão voluntária e involuntária perante uma genitora queixosa e que usa freqüentemente sua infelicidade para manipular o ambiente? A questão central é se tanto homens e mulheres realmente conseguem investir no relacionamento, ou se tornam apóstatas perante o amor, apenas ruminando seu passado familiar infeliz. Todo o ideal do romantismo e religiosidade caem por terra, pois o ser humano jamais esteve preparado para a experiência do amor, lhe faltando à educação adequada para a execução de tal meta. O “analfabeto emocional” está encarcerado de todo tipo de sentimento destrutivo que aborta um relacionamento. Um projeto sério de alfabetização afetiva deve levar em conta todas as etapas do desenvolvimento humano. Nas crianças e adolescentes redobrada atenção em relação aos malefícios do mimo e narcisismo, pois ambos colocam a pessoa num patamar onde jamais conseguirão enxergar o outro. Os pais devem escolher se seus filhos serão especiais por competirem e humilharem seus rivais, ou então se estarão atentos e receptivos para uma troca onde todos tenham seu espaço e importância na relação.

Nos adultos o projeto eficiente de alfabetização emocional é desenvolver formas maduras de lidar com todos os tipos de sentimentos negados ou negativos: ódio, raiva, rancor, inveja, mágoa, tristeza, vingança, frustração, apego, saudade mórbida, dentre outros. Há também a necessidade de se perceber o custo na esfera afetiva no decorrer da vida, seja o preço a ser pago pela solidão, ou a carga que recebe da pessoa desejada, assim como o impacto de sua conduta emocional perante as pessoas mais próximas. A experiência do amor seria muito mais fácil para alguém que já a tenha saboreado plenamente no âmbito familiar. Embora tal conceito possa parecer um tanto antiquado, ainda é totalmente válido na dinâmica dos relacionamentos. Quando não se teve uma experiência de tão ampla magnitude e importância, a tendência é buscar fora do ambiente privado e familiar tal necessidade básica, com todo o atraso possível; o problema é que quando alguém procura algo imbuído de carência e privação afetiva, despertará ao mesmo tempo todo o sentimento negativo descrito anteriormente, pois o amor obedece também a condutas em conformidade com o desenvolvimento e crescimento da pessoa, muitos não percebem que clamam pelo mesmo de uma maneira totalmente inadequada ou infantilizada. A cura não passa apenas pelo encontro, até porque ninguém jamais terá certeza do amor em nossa era perante o parceiro, mas principalmente por se revelar e exigir que o outro tome atitude semelhante; desnudando seu ser.

Outro ponto indiscutível é que tendo ou não um relacionamento, quase todos estão tristes, descontentes ou insatisfeitos. Todos os elementos descritos neste texto dizem do correlato do amor, que é o ódio. Sentimento totalmente negado pela cultura e moralidade, mas que assola totalmente os relacionamentos. O primeiro passo para o incremento do ódio é não ter a consciência de que as pessoas mais íntimas é que colaboram para o crescimento de dito sentimento. O início sempre é algum tipo de contrariedade ou injustiça, passando para uma experiência de ligação diária e constante em relação ao objeto ou pessoa que causou a dor tão insuportável. Mas o ódio maior é quando se tem a certeza subjetiva de que o outro poderia completar totalmente a pessoa, mas se recusou em seu esforço ou competência para tal finalidade, conforme apontei acima. O ódio começa a surgir quando percebemos nossa miserabilidade afetiva, e o quanto está se mendigando afeto e atenção. O ódio é uma espécie de ritual ou neurose obsessiva, algo como um totem para que a própria pessoa o cultivando constantemente se lembre da experiência da dor e tente não repeti-la. O problema é que tal processo se torna quase que infinito; é como os orientais faziam uma alegoria de uma serpente comendo a própria cauda, o que representaria um ciclo interminável.

A devoção a um evento tão doloroso certamente nunca foi o melhor instrutor ou anteparo para não repetirmos determinada tragédia. A lembrança diária de um evento traumático em hipótese alguma forma uma blindagem para que tudo não possa se repetir, muito pelo contrário, o efeito é uma contaminação profunda do potencial emocional da pessoa. O preço do ódio passa pela amargura, e jamais alguém poderia acertar sua dose, pois a potência do mesmo é devastadora. Como seria possível usar um sentimento que já nasce com um déficit temporal? Se a reação é instantânea, advém a fúria com conseqüências gravíssimas, afora a culpa e arrependimento. Se optarmos pela espera da reação, o fato doloroso perde o sentido, e apenas resta o desejo de vingança. A grande descoberta é perceber primeiramente que talvez nossas escolhas não foram tão acertadas, pois acabamos atraindo indivíduos incapazes de compartilhar sonhos e desejos.

O ódio é essencialmente um cunho básico de projeção. É vermos a centelha mais íntima de nosso ser no outro com o aviso inexorável de quão difícil seria conseguirmos mudar, então partimos para o ataque e ruminação emocional dolorosa. A privação histórica de laços de ternura e demonstração de afeto é o combustível máximo de tal fenômeno. Retomando a questão da família, o ódio vai se solidificando à medida que seus membros vão fazendo um balanço completo de toda a agonia e miséria afetiva que experimentaram. Neste ponto começa um processo confuso e altamente neurótico, sendo a confusão de papéis fator reinante. A pretensa justiça pessoal se torna mesquinhez; a impulsividade totalmente efêmera; a vingança denota apenas uma prova de apego inútil e imaturo, aliado ao medo da incapacidade para criar ou recomeçar. Qual seria então o equilíbrio entre não vivenciar o caráter rancoroso corrosivo do ódio e também não insuflar o espírito pessoal com uma sensação eterna de injustiça e indignação que fazem mal do mesmo jeito? Para responder, temos de retomar a questão da culpa, pois a mesma foi e é um dos principais fatores da socialização e permanência da civilização, caso contrário, teríamos uma eterna luta pela supremacia ou complexo de superioridade.

De certa forma, é o que vemos no meio social, assim sendo, a culpa passa a ser o bônus incompleto que a biologia, genética ou antropologia deixou de legado para que o ser humano pudesse avançar para um outro plano de relacionamento. A civilização ao contrário do que FREUD descreveu, não é a sublimação da sexualidade para fins culturais, mas meramente o controle do ódio entre seus membros; sendo a manipulação plena do instinto para a sobrevivência do ego pessoal e que tal ato também traga um benefício coletivo. Crescer sozinho é apenas competição ou isolamento, sendo que a verdadeira evolução ou revolução é o transporte de características adquiridas e autoconhecimento para um patamar em que várias pessoas compartilhem uma experiência de êxtase perante a descoberta do sentido da existência pessoal e formas de manejar a sobrevivência sem aniquilar seus semelhantes. O objetivo final não é desanimar ninguém, mas que todos percebam a dialética da busca do prazer; sem a alfabetização emocional mencionada, a suposta satisfação se torna privação, o gozo, recalque, a convivência, palco constante de luta e conflito, e o desejo se tornará um instrumento de desenvolvimento de doenças psíquicas e físicas.

Mais importante do que procurar a gênese do ódio é descobrir a necessidade de agregação do mesmo em determinada pessoa ou evento. O chamado “foco do ódio” é a máxima liberdade para a consecução do êxtase do espírito destrutivo, aniquilando por completo a rivalidade ou a frustração que alguém pode causar. A ciência da psicologia até o presente analisou o fenômeno como sendo a necessidade do sujeito de se tornar vítima; embora tal visão esteja mais do que correta, é fundamental se acrescentar um fato: o impulso ou imperiosidade de se arquivar uma reserva mental destrutiva. Mas em que circunstância seria utilizada? O ódio pode ser uma defesa prévia contra qualquer tipo de ataque ou rejeição, assim como assinala a dificuldade de determinada pessoa em preservar seus relacionamentos. Ambos traços de caráter assinalados vivem constantemente a tragédia, mas o ódio também é uma fronteira hermética contra o desespero, que é a prova final do esforço infrutífero na capacidade pessoal de despertar interesse para alguém. Nossa cultura estabeleceu uma associação religiosa quando se fala em ódio, trazendo sempre em paralelo a questão do perdão. O mesmo se tornou um mero instrumento propagandístico para todas as religiões, pois muito mais importante do que falar em perdão é verificar se a pessoa tem estrutura e condição psicológica para efetuar tal tarefa. Esquecer o evento traumático é superar a sensação de miserabilidade na mais íntima esfera pessoal, desenvolvendo recursos que sempre assinalem para o indivíduo que ele pode novamente recomeçar. O perdão só é viável quando seu pilar mais forte, o apego é atacado frontalmente; o grande problema é que o esquema social acarreta uma imensa sensação de déficit na área do prazer e realização pessoal.
A coisa mais comentada pela psicologia e conseqüentemente receitada em um século de sua existência foi o preceito de que a pessoa deve lidar melhor com sua ansiedade, angústia ou com tudo o que a chocou, mas como isto é possível, com tantos processos paralelos e sabotadores da paz de espírito? Esta sem dúvida alguma é a pergunta suprema e inacabada para a cura ou profilaxia de todo conflito ou neurose. A psicanálise advogou a necessidade de remoer as antigas experiências infantis no sentido da pessoa perceber que sua energia está retida em determinada etapa do desenvolvimento humano, ou como FREUD dizia, manteve “tropas em excesso” em determina área que clama a todo o momento por uma satisfação ou descarga. A psicologia comportamental enfatizou que o sujeito deveria mudar sua conduta diária, no sentido de perceber que suas atitudes estão completamente viciadas para a obtenção do crescimento e satisfação pessoal. Não se trata de desenvolver a força de vontade propriamente dita, mas que a pessoa perceba a importância e impacto de como age perante seu meio; como suas ações se transformaram num ritual de prejuízo pessoal. Passado e presente não deixam de ser a dicotomia ou luta de opostos para a obtenção de uma melhora psicológica. Tanto a pessoa que não consegue repor sua origem familiar de carência, quanto àquela que não consegue alterar um comportamento inadequado, sofre em demasia e isto é um fato absoluto. Mas neste ponto quero estabelecer um outro conceito da neurose.

Quando falamos em distúrbio neurótico, não podemos apenas pensar em sintomas ou conflitos. Temos de entender que a neurose atinge o ápice quando em todas as áreas que a pessoa atua (profissional, afetiva e sexual), o resultado é o mais puro “stress” para si mesma ou o meio circundante. A parceria de ambos os fenômenos nos dá uma dimensão segura de que a pessoa não consegue manter o equilíbrio ou controle sobre sua conduta e regularidade da satisfação. O que poderíamos chamar de suposta “felicidade”, é constantemente inundada por todo o tipo de vivências ou lembranças de carência ou privação. A neurose em última instância é a compulsão inconsciente para sabotar o ritmo biológico e mental, desprezando a autoestima e anulando o autoconhecimento. Convencionou-se o preconceito que ir ao psicólogo é sinônimo de distúrbio ou loucura; a cada dia penso exatamente o oposto, há um fosso intransponível entre ambas, pois a terapia é um espaço primordialmente para uma reflexão lúcida acerca dos sentimentos e condutas que afetam o indivíduo e as pessoas ao seu redor. A terapia serve para os que não fizeram seu dever de casa nas seguintes áreas: amor próprio, afetividade, sexualidade e poder pessoal. Serve ainda aos que se conscientizaram de que seu mais profundo desejo se transformou num quebra-cabeça pela dificuldade de realização, mas que a energia que o mantém permaneceu intacta no transcorrer da vida da pessoa (isto é a esperança no mais profundo grau). A loucura propriamente dita necessita ser tratada num espaço onde se possa manobrar a imperiosidade da socialização da pessoa humana, isto não significa a internação, mas apoio grupal para o resgate das potencialidades da pessoa.

O amor é o mais tenro e frágil sentimento que a qualquer instante é soterrado por todos os seus acompanhantes negativos descritos neste estudo. Se afastar da visão ingênua do romantismo é perceber o quanto o amor é quebradiço e necessita de um cuidado constante, ao contrário do que estamos acostumados a vivenciar, como uma espécie de paixão que podemos nos regozijar a vontade, sem nunca cessar seu fluxo. Já o ódio reflete a dicotomia entre o complexo de superioridade e inferioridade como dizia o psicólogo ALFRED ADLER; Ambos os fenômenos mantém uma estreita relação de interdependência. Se alguém se julga inferior, pode complementar tal falta com um desejo de superioridade econômica, estética ou sexual; o contrário também é válido, a pessoa que se sente num patamar superior pode desenvolver todo tipo de culpa e arrependimento que a coloque novamente num patamar inferiorizado. O ódio retém uma longínqua defasagem na questão da autoestima. As primeiras fases narcisistas do desenvolvimento da criança são a pista segura para tal tese. O ódio se desenvolve justamente quando se sente que a figura julgadora e que poderia reforçar tal narcisismo infantil foi omissa. Advém então a cólera, forçando o ambiente a proporcionar o que lhe é devido. A antiga necessidade de exclusividade e liderança agora desponta num déspota em seu círculo emocional.

Repetir e viver intensamente a dor agora é o motivo pleno da vida do sujeito. Foi literalmente excluído de seu direito ao prazer ou uma vida regular de satisfação. É neste exato ponto que a intervenção terapêutica deve ser radical, combatendo não apenas o vício de sua visão pessimista e sombria, mas mostrando à pessoa que constantemente sabota aquilo que mais procurou. Desenvolveu a intolerância perante o fluir das emoções, abdicando do gozo pessoal pela competição e disputa de poder, se tornando o mostruário exato dos processos econômicos e sociais perpetrados diariamente em nosso meio.

O ódio se alinha totalmente a um desejo de liberdade frustrado. A saída seria concentrar a energia no potencial próprio visando novas etapas de criatividade e desenvolvimento; porém não é o que ocorre, sendo que a reação de rancor e o investimento no confronto são o que prevalecem na maioria das vezes. Lembro-me de um sonho de um paciente que ilustra categoricamente tal afirmação: “sonhei que vários indivíduos construíam foguetes particulares para irem a lua e outros planetas como marte, por exemplo; boa parte morria na jornada por a nave não ter estrutura e oxigênio suficiente; apenas alguns retornaram; sendo que na exploração descobriram perigos inimagináveis para a raça humana; eram totalmente negligenciados na volta e não obtiveram nenhum apoio governamental”. Sem dúvida a mais profunda coragem é o rompimento; mais ainda se pensarmos no desafio perante a única controladora do processo espacial no mundo; este é um sonho em que o desejo de liberdade atinge seu ápice. A essência da neurose como descrevi no texto é esta: a luta interminável para desenvolver uma meta nova em vários campos versus o conflito por reaver o que se sente retirado e negado. Coragem então é o avanço, e a neurose é não somente a pedra neste trajeto, mas o total desânimo e desconsolo para o recomeço.









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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Luto: A Dor da Perda





















A dificuldade em encarar o fim da vida, como parte da existência é o que faz do luto uma experiência tão assustadora. Desde a infância, o ser humano é treinado para não perder e, ao invés de se trabalharem também as perdas, porque fazem parte da vida (continuamente perdemos e ganhamos), incentivamos as crianças a ganhar e acumular ganhos. Os pais protegem os filhos de frustrações e, perder é essencial para entender que nada na vida é permanente. Na infância perdemos jogos, objectos e até pessoas (normalmente os avós). Assim, a preparação para encarar a morte de forma menos traumática é possível e começa na infância. As crianças podem ir aos funerais e devemos dar respostas honestas (sempre adequadas à idade), acerca da morte, em vez de respostas fantasiosas, como a de que a pessoa foi para o céu, viajou ou tornou-se estrela. No dia a dia é preciso falar das perdas como parte da vida. Ensinar as crianças sobre a finitude ajuda a objectivar a existência, reduzindo a angústia existencial.


Os sintomas do luto são divididos em fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Nesse processo, a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, angustia e revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos, vão depender do histórico de perdas da pessoa, e também do grau de relação com quem morreu (a perda mais dura é a de um filho, pois quebra um ciclo ilusoriamente lógico) e ainda do tipo de morte. Nas mortes traumáticas, acidente, suicídio, assassinato, pode haver uma fase de negação mais prolongada e a culpa e a revolta podem aparecer com mais intensidade.

Para superar o luto é importante não sublimar a dor, ou seja canalizar a energia para algo que distraia da dor. A pessoa tem que mergulhar na dor, chorar e manifestar o seu sofrimento. Faz bem à família reunir-se e falar sobre a perda, ver fotografias, recordar situações. Os rituais também ajudam, porque a recuperação é centrada na aceitação da perda.

O velar o corpo e o funeral são um ritual que permite elaborar a perda, despedir-se da pessoa. Quando não existe corpo para fazer o funeral a perda é muito mais difícil de elaborar, conduzindo a sofrimentos muito prolongados que exigem a intervenção de profissionais. O período de luto corresponde à fase em que a falta da pessoa é sentida em casa dura algum tempo. A pessoa não aparece e a dor piora. É vista e sentida em lugares que era hábito estarem. Há hora que chegava e, metia a chave na porta, continua a existir a sensação que uma chave entrou na fechadura. Essas sensações vão desaparecendo à medida que a pessoa vai aceitando a perda. É nesta fase que pode existir uma tentativa de resgatar a vida anterior à perda. Mantém-se a roupa no armário, guardam-se todos os objectos da pessoa e em certas famílias impõe-se o tabu. Outros desfazem-se de todos os pertences do falecido, na tentativa de se livrarem da dor com mais rapidez. Para alguns, passa a ser proibido tocar no assunto. Muita gente muda de casa, de profissão e adopta causas viradas para a relação de ajuda como forma de sublimar a dor.

O facto de a pessoa mudar de casa ou de profissão não faz com que a perda e o sofrimento desapareçam. Estas atitudes, funcionam como curas geográficas, mudam de sítio e o sofrimento é recalcado, impedindo a pessoa de reviver/recordar, processo fundamental à elaboração da perda e aceitação da morte.

De uma forma geral leva-se um a dois anos a “elaborar a perda”, depende da capacidade de resiliência da pessoa, ou seja a forma como cada um lida com os problemas e o sofrimento. Durante esse período, vão acontecer as datas importantes (natal, aniversários, etc). Se os sintomas de luto persistem passado algum tempo para alem do razoável (cinco, seis e mais anos), é provável que a pessoa não esteja vivendo as etapas do luto necessárias para ultrapassar a perda. O processo considerado “anormal” tem duas reacções opostas: ou a pessoa não sai do luto (a mãe que arruma o quarto do filho, põe a mesa para ele,) continuando a preservar o morto, numa atitude de mumificação, e negação como é óbvio, não saindo daquela fase inicial. Ou então a pessoa nem sequer entra no luto (fica indiferente, não chora, age como se nada tivesse acontecido). Nesse luto adiado, a dor fica guardada em algum lugar e um dia vem à superfície emergindo sob outra forma, normalmente de depressão. Quando se avalia a história de vida da pessoa (pode até ter passado dez, vinte ou mais anos) encontra-se um luto por elaborar, confundido com a depressão muitas das vezes e, com uma vida cheia de antidepressivos que apenas servem de rolha (impedem o sofrimento de fluir) nestes casos. É aqui, que a ajuda de um psicólogo é fundamental, para ajudar a pessoa a elaborar a perda.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Visão Psicanálitica dos Contos de Fada

Era uma vez... E ainda é!


Contos de fada – possível resolução para os conflitos infantis







 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ao entrar em uma sala de aula com crianças de cinco anos, carregando um livro de contos de fadas, um professor carrega mais que um livro. Mais que um simples conto. Quando o professor é um bom contador de histórias, o olhar daquelas crianças fica fixo, mas a mente voa.
Como esses contos tornaram-se clássicos, se a narrativa acontece em palácios ou florestas e isso é tão distante da maioria das crianças, visto que não é comum encontrar palácios na cidade de São Paulo? E, apesar de existirem poucas florestas na nossa cidade, os jovens dão um jeito de se embrenhar em matas desconhecidas apesar do aviso de perigo dos pais.


Os contos trazem conflitos pertinentes à vivência humana que permeiam diversas gerações. Eles trabalham com o conteúdo humano, com aquilo que muitas vezes fica escondido como a rivalidade fraterna, sensações edípicas, desejar a “morte” do pai do mesmo sexo... Desta forma, o conto de fada irá mostrar às crianças, de uma maneira subjetiva e em alguns pontos objetivamente, que a vida trará algumas dificuldades. A luta e a descoberta não acontecem da noite para o dia. O herói ou a heroína passam por diversas provas e essas devem ser realizadas por eles mesmos: “A única forma de nos tornamos nós mesmos é através de nossas próprias realizações”. (Bettelheim, 1980:173).

A sociedade atual, globalizada, está cada vez mais tornando-se individualista e em busca de uma beleza externa perfeita, enquanto o mágico se esvai prematuramente.





















Todos os dias há notícias de violência na televisão, seja filho matando os pais ou pais descontrolados espancando seus filhos.

Há também muitos programas que expõem a criança a uma sexualidade precoce. Seja programa infantil, novela ou “reality shows”. Uma reportagem da revista Educação, mostra-nos que os partos cresceram em 31% entre meninas de 10 a 14 anos – idade que a menina não tem maturidade psicológica, principalmente para criar um filho. As dúvidas e as angústias por que passam, crianças e jovens, são hoje respondidas de forma erotizada pelos meios de comunicação, especialmente a televisão. Sem contar o fácil acesso a sites da internet.






 
 
 
 
 
 
 
 
 
O resgate da magia da leitura dos contos de fadas não será a solução dos problemas mundiais, no entanto, como eles atuam também no inconsciente, podem ajudar muito a criança a eliminar/entender o(s) conflito(s) pelo qual está passando no momento que entra em contato com a leitura e/ou a escuta deles.


Existem diversas interpretações e análises para os contos de fada. É importante ressaltar que este artigo tem como respaldo a linha psicanalítica, levando em conta as teorias de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Além disso, a escolha dos contos de fadas para a leitura foi cuidadosa, no sentido de procurar as traduções mais próximas das edições originais.

“Não é surpreendente descobrir que a psicanálise confirma nosso reconhecimento do lugar importante que os contos de fadas populares alcançaram na vida mental de nossos filhos. Em algumas pessoas, a rememoração de seus contos de fadas favoritos ocupa o lugar das lembranças de sua própria infância; elas transformaram esses contos em lembranças encobridoras”. (Freud, 1913:355).

Os contos surgem a partir dos mitos e tradições orais, alguns datados do século II d.C.. Eles sofreram e sofrem modificações em sua estrutura, não apenas por razões externas, mas também por razões internas ao do próprio contador. Nas versões escritas por Perrault, por exemplo, ele acrescenta preceitos morais, já que esses contos eram usados para a diversão na corte de Versalhes.

Nos dias atuais, essas alterações também ocorrem acarretando muitas vezes uma modificação no enredo da história para parecer menos “chocante” aos olhos da sociedade. Os autores dessas mudanças acreditam que a perversidade existente nos contos podem influenciar as crianças de forma a estas tornarem-se “violentas”, no entanto, parece não querer ver que os conflitos existentes nos contos são os conflitos internos pelos quais as crianças passam.





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
As histórias dos contos de fadas, independente do local de origem, passam-se em lugar e épocas inexistentes (“país muito longe”, “numa floresta encantada”, “há muitos e muitos anos”...). Esta é uma das razões da fácil migração e entendimento em várias culturas e por várias idades, já que os contos tratam de conflitos que permeiam toda a base humana universal. Ou seja, os contos são atemporais, assim como o Id.
Os principais autores e adaptadores de contos de fada são Charles Perrault (França), Hans Christian Andersen (Dinamarca) e Jakob e Wilhelm Grimm (Alemanha) – estes últimos mais conhecidos como “Os irmãos Grimm”.

Mas, afinal, qual a relação entre contos de fadas e a subjetividade infantil? Quais os conteúdos presentes em um conto que possibilitam a uma criança elaborar seus conflitos? É impossível detalhar cada trecho e cada passagem de todos os contos, não apenas pelo número volumoso de contos, mas principalmente porque cada conto tem uma importância diferente para cada criança em períodos diferentes de sua vida.

Como se constitui um sujeito? Quais os conflitos que vive? Lacan, apropriando-se de Freud, nos oferece referenciais partindo do Estádio do Espelho. Este Estádio, descrito por Lacan, começa aproximadamente aos seis meses de idade. É através dele que a criança começa a conquistar sua imagem corporal, através do discurso e do desejo do outro (mãe).

De que forma os contos de fadas expressam esse momento e seus conflitos? Como ilustração podemos citar o conto: O patinho feio. Nesta história de Andersen, uma pata choca seus ovos e quando estes se quebram um sai diferente de todos os outros. Feio. Apesar de nadar muito bem, o patinho é desprezado pelos seus irmãos, pela comunidade dos patos e por sua mãe que diz: “Eu queria ver você bem longe daqui!” (Andersen, 1995:110).
O patinho começa a achar que ele é realmente muito feio, então foge. Durante sua viagem passa por dificuldades e seus infortúnios são responsabilizados pela sua feiúra. Até que em um momento, ele vê os cisnes e vai ao encontro desses, mesmo correndo o risco de levar bicadas. Chegando lá:

“(...) O pobrezinho abaixou a cabeça, olhando para a água, e esperou. Mas que foi que ele viu na água límpida? Por baixo de si, viu sua própria imagem; só que sua imagem não era mais de um desajeitado pássaro cinza-escuro, feio e repelente. Ele era um cisne!” (Andersen, 1995:118).

O patinho, na verdade um cisne, já havia nadado antes em outros lagos. Porém, olhava-se através do olhar do outro, assujeitado ao desejo e olhar do outro – principalmente daquela que exerce a função materna. Saindo para o mundo, crescendo, quando volta a olhar sua imagem ele já vê um lindo cisne branco e não apenas um pato cinza feio – saída dessa assujeitação. É nesse Estádio que a criança começa aos poucos perceber que seu corpo, até então sentido como fragmentado, é algo único. É através dessa experiência, com a mediação do outro-mãe (mãe, enquanto função materna), que a criança começa estruturar seu eu e a conquistar a sua imagem corporal.

Essas identificações que as crianças fazem com os contos são facilitadas pela não especificidade de tempo e local. A identificação com os personagens é facilitada pela ausência de nome próprio. Normalmente o nome é relacionado às características físicas, como por exemplo, Branca de Neve e Cinderela ou Gata Borralheira (o nome origina de cinders, que significa borralho), um dos únicos nomes próprios que aparece é João – freqüente em muitas histórias – e Maria). Nos contos, a idade das princesas, reis, rainhas, bruxas, príncipes, etc. não é definida sendo possível transitar por todos os personagens em momentos diferentes de nossa vida.

No conto há o personagem malvado, que geralmente é nominado e aparece sob a descrição da madrasta da “Branca de Neve”, a bruxa da casa de chocolates de “João e Maria” e o gigante que mora nas nuvens na história “João e o pé de feijão”. Ou seja, a maldade pode estar presente em todos nós. Nos contos, os personagens não têm ambivalência: ou são bons ou são maus – da mesma maneira que a criança pensa: a mãe má não pode ser a mãe boa.














Na atualidade, muitos contos aparecem de forma distorcida do original. Um grande exemplo disso, são os desenhos animados de Walt Disney, que subtraem passagens consideradas mais fortes com o objetivo de não assustar ou chocar as crianças, “evitando” o conflito. Não podemos generalizar, algumas histórias de Disney merecem a devida atenção como O rei leão e a mais nova animação, Procurando Nemo. No entanto, quanto à adaptação de contos de fadas clássicos, estes aparecem distorcidos e amenizados.

Os contos no original podem chocar alguns adultos, é “assustador” um lobo que come uma menina (Chapeuzinho vermelho) ou uma sereia que arranca sua própria língua em busca do amor de um humano (A Sereiazinha) ou um rapaz que procurando o medo retira sete enforcados da forca para aquecê-los (O homem que saiu em busca do medo). Muitos adultos olham as crianças sob a lógica do adulto e não sob a fantasia da criança.

Quando pequena, a criança pode ser bem agressiva: bater no irmão, não sair de perto da mãe, morder o colega da escola... a medida que cresce e começa a socialização a criança fala, ao invés de agir – simbolizando. E o conto é exatamente a escrita de uma simbolização, de um mundo onde a criança pode extravasar seus anseios, medos e necessidades.














Escondendo a dor, a perda, a violência dos contos, esconde-se o que há de mais verdadeiro nessas histórias. O conto não deve ser só feito de imagens boas, pois não deve ser uma fuga para as crianças se esconderem em um mundo de faz de conta. Mas, conter as passagens de medo, angústia, vingança como um meio da criança simbolizar seus próprios conflitos.
O enredo dos contos de fada também reproduz as histórias de vida das crianças, pois nele o herói sai de casa, passa por privações, enfrenta perigos e conhece a maldade, triunfando no final da história. Na vida, a criança passa por estas modificações: precisa sair de casa. Desligar-se dos pais. Ir para escola, fazer amigos, saber evitar situações de risco, explorar o mundo a sua volta.

A criança tem relação de total indistinção com a mãe nos primeiros meses de vida. A criança é o desejo da mãe. Essa quebra se dá com a interdição ao incesto que a função paterna realiza. A partir desse momento a criança, volta-se para a cultura. Para o Outro. E o conto de fadas entra como este Outro, pois também pode ajudar na separação dessa relação mãe-criança. Isso acontece pois, de maneira simbólica, o conto atua no psíquico da criança.
















Podemos tomar como exemplo o conto de Andersen, A Polegarzinha. Nesta história, uma mulher deseja muito ter um filho, então pede ajuda a uma feiticeira que lhe dá um grão de cevada - semente. A partir do beijo da mãe, a flor se abre e nasce a filha, como é muito pequena, recebe o nome de Polegarzinha. Um dia, enquanto está dormindo, uma sapa a seqüestra para casar-se com o filho sapão. No entanto, a menina foge com a ajuda dos peixes. Um besouro a pega para casar-se com ele, mas todos os outros insetos dizem que Polegarzinha é muito feia. Depois de ser deixada pelo besouro a personagem acredita ser feia. Ela encontra-se, então, com uma rata, e esta também quer realizar o casamento da Polegarzinha com o vizinho toupeira, por este ser rico e inteligente. Enquanto está na casa da rata, a menina salva uma andorinha e esta depois ajuda sua salvadora a fugir do casamento, levando-a para um lugar onde há outras pessoas como ela – pequena como o dedo polegar. Lá então Polegarzinha conhece um homem com quem se casa.
Esta pequena história nos mostra que Polegarzinha vive segundo os desejos do Outro. É sempre levada, carregada para os lugares sem ser questionada. Quando a andorinha aparece, a personagem faz uma escolha, pois lhe é feita uma pergunta: “O frio inverno está chegando – disse a pequena andorinha – Estou de viagem para as regiões quentes. Você quer vir junto?” (Andersen, 1995:34).

A criança quando pequena, é o desejo da mãe, tem medo e gosta daquilo que a mãe gosta. Para ilustrar, transcrevo um trecho da fala de uma paciente de Maud Manonni: “A fumaça”, diz Isabelle, “arde nos olhos das crianças. Elas têm medo. No fundo elas não têm medo, é porque a mamãe tem medo que elas têm o medo da mamãe(...)” (Manonni, 1988:137).

O conto ilustra Polegarzinha presa ao desejo dos outros até que toma sua decisão e parte, libertando-se dos desejos dos outros e tornando-se um sujeito desejante. Agora, já caminha com seus próprios pés, sem precisar ser levada pelos outros.

A pesquisa realizada para este artigo apenas está começando. Este é um pequeno apanhado de quantas significações e significados podemos encontrar em uma literatura de tão fácil acesso como os contos de fadas. Para percorrer este caminho agi um pouco como Chapeuzinho Vermelho, ao olhar pelos cantos. Em alguns momentos saí da trilha, mas logo retomei o meu rumo. Em outros, fiquei como a Bela Adormecida, esperando o momento para despertar e então escrever mais algumas linhas. Em outras, sendo ousada, como a menina que percorre o mundo em “Os sete corvos”.
Os contos de fadas vêm mobilizando milhares de crianças, jovens e adultos durante muitas décadas. Muitos trazem lembranças, sejam boas ou más, de algum conto em particular. Como cada um vivencia um conto é único.

Jung e a interpretação dos contos


O grande psiquiatra Dr. Carl Gustav Jung observou que certos “temas típicos” que apareciam nos sonhos e nas fantasias de seus pacientes eram repetições de mitos ou de contos de fadas, sem que houvesse qualquer influência cultural exterior causadora de seu aparecimento.
Procurou compreender esses temas oníricos usando o conhecimento da mitologia e assim propôs que essas imagens seriam reações independentes de qualquer tradição cultural e que dessa forma se deveria admitir a existência de elementos mitológicos no psiquismo inconsciente; a esses elementos Jung chamou de arquétipos.

Arquétipos seriam uma disposição estrutural básica presente em todos os seres humanos, como uma forma à espera de complementos que formariam as subestruturas de sentimentos, emoções, fantasias e ações. Segundo Dr. Jung esses temas ou motivos, os arquétipos, são esquemas básicos da psique humana e se encontram no “inconsciente coletivo” – a camada profunda do inconsciente.

Esses temas ou motivos que aparecem nos sonhos, presentes nos contos e mitos e se repetem em todos os tempos e culturas são: a grande Mãe, o Pai, a Criação do Mundo, Nascimento, Herói, Morte, Abandono etc.

Os arquétipos se manifestam por meio das imagens dos contos, sonhos ou mitos, sendo chamadas por Jung de Imagens Arquetípicas. É por meio delas que podemos entrar em contato com os conteúdos do inconsciente e como disse Jung “restabelecer a conexão consciente e inconsciente”, sendo que dessa experiência arquetípica é que ocorre a verdadeira cura da alma. Para que isso aconteça o arquétipo da grande mãe, por exemplo, ao aparecer num conto ou mito como imagem arquetípica tem que ser visto não apenas como um pensamento padrão, mais sim como uma experiência emocional daquele que o ouve ou lê.
Segundo Marie-Louise V. Franz, “só se essa imagem tiver um valor emocional e afetivo para o indivíduo ela poderá ter vida e significação”. Assim, segundo Jung, podem se compilar todas as grandes mães do mundo, que não significará absolutamente nada, caso se deixe de lado a experiência afetiva do indivíduo

Annas&humanas- Ler e interpretar os Contos de Fadas sob a ótica psicanalítica é uma das maneiras de saber construir o sentido da existência humana, pois as histórias influenciam no desenvolvimento e na superação das dificuldades do indivíduo. Quando as crianças entram em contato com essas narrativas, iniciam a conscientização do seu “eu” através da fantasia. Alguns pesquisadores defendem que os contos ajudam no crescimento do ser por meio de imagens que falam da realidade interior, dos sentimentos primitivos e dos dilemas existenciais. Tratam de questões universais como do poder, do conflito entre os dominantes e dominados, do medo, do amor, da morte, do abandono, da doença e dos valores morais. As grandes dificuldades ocorrem no início da narrativa, fazendo com que o protagonista tenha que começar a enfrentar o mundo sozinho, até atingir o final feliz. Daí o risco para quem tem tão pouca maturidade emocional, em minha opinião.



Referências Bibliográficas:


ANDERSEN, Hans C. Histórias maravilhosas de Andersen. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1995.

BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

FREUD, Sigmund. A ocorrência, em sonhos, de material oriundo de contos de fadas. Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XII, 1913.

MANNONI, Maud. Efeitos da reeducação em uma criança neurótica. In: A criança retardada e a mãe. São Paulo: Martins Fontes,1988. p. 125-146

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