Annasehumanas

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Gonzáles.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Juventude Descrente


Ateístas Juvenis!


Trata-se de um tema bastante polêmico, onde muitos sem baseamento algum buscam apoiar-se em teorias modernistas.
"Parece que os ateus não se contentam em cometer suicídio cultural, querem levar seus filhos com eles".
A estratégia ateísta pode ser descrita desta forma: os religiosos geram seus filhos e nós os ensinamos a desprezar as crenças de seus pais. Assim, a secularização da mente de nossos jovens não é, como muitos pensam, a consequência inevitável de um processo de aprendizado e amadurecimento. Pelo contrário, é, em grande parte, orquestrada por professores e mestres para promover idéias anti-religiosas. Contudo, nada sabem das ciências ocultas, dos ritos de iniciação e obrigatoriedades (Prisões mediante as práticas ocultistas) Como Cristã, lamento que neste tempo estejam sendo levantando um verdadeiro exército de jovens, influenciados, que nada conhecem da vida, 12, 13, 14 anos, já fundamentalizando idéias prestes a serem formuladas com o afã da desorientação que ocorre na adolescência, onde tendem a seguir "modismos", Uma segunda estratégia bastante usada para promover o ateísmo é a utilização do veículo da sexualidade adolescente. “Contra o poder da religião”, existe um poder igual, se não maior – "o poder dos hormônios”. O ateísmo é promovido como um meio para que os jovens se libertem do constrangimento moral e sejam indulgentes com seus desejos. A religião, nessa estrutura, é descrita como uma forma de repressão sexual, sobretudo, como vamos saber quantas crianças tiveram sua vida psicológica e física irreparavelmente mutilada pela "inculcação compulsória da fé???” Em tese os seguidores ateístas acham que se a instrução religiosa não fosse permitida até a criança chegar à idade da razão, estaríamos vivendo em um mundo muito diferente. As crianças passam boa parte de seu cotidiano na escola. Os pais investem suas economias em educação acadêmica para confiar sua prole a profissionais que têm a obrigação de educá-la. Não é impressionante que os educadores tenham descoberto uma forma de transformar os pais em instrumentos de sua própria ruína? Não é impressionante que tenham convencido mães e pais cristãos a financiar a destruição de suas próprias crenças e valores? Quem disse que os ateus não eram espertos? Por este motivo chamo atenção dos Pais, que estão com seus filhos em idade escolar, penso que devem estar atentos e se fazerem presente nas unidades de ensino, em constante vigilância, pois vemos aí a falta de amor, o apego as coisas materiais, os assassinatos com requinte de crueldade, até mesmo entre pais e filhos. Afirmo: O ser humano sem regras é monstro! E o que dizer dos sem temor no coração? Uma nova raça, autossuficiente e manipuladora está surgindo. Sou uma profissional Psi, e, ao longo de minha carreira estive com diversos indivíduos de pouca idade que entre outras coisas, possuíam os mesmos sumptomatikós (intranquilidade, angústias, melancolia, inclinação para o suicídio) e, todos, sem exceção, quando questionados sobre, sua fé, vejam bem, eu disse fé, e não religião; Não acreditavam em nada. Mas, isso é apenas relato de minhas experiências como Psicóloga, porém todos os conhecimentos que obtive tendem a levar-me a descrença, mas, graças a Deus, trago comigo uma herança de fé que foi alimentada por gerações, e eu como boa cristã entre os Gonzáles, passo a diante: "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12.1-2).









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domingo, 26 de setembro de 2010

Fundamentação Metafísica da Psicologia Transpessoal

Misticismo para Tratar a Mente é possível???


Annasehumanas

Mesmo ainda pouco difundida, a Psicologia Trasnpessoal vem crescendo nos últimos anos, e busca tratar o paciente abordando a simples percepção de “dimensões” que vão além da psique.

Esta modalidade da Psicologia inclui nos seus estudos a espiritualidade e experiência mística de cada indivíduo, para a abordagem transpessoal, na vivência de experiências que estão além do nível de consciência comum e possuindo assim, grande capacidade terapêutica e de desenvolvimento de recursos voltados para a autorealização.


Os psicólogos transpessoais estudam empiricamente a meditação, exercícios respiratórios da IOGA e outras disciplinas de nível espirítual


Penso que algumas pessoas vêem-se mais afetadas e tendem a buscar resposta na PARAPSICOLOGIA, sobre suas anómalas resultantes em alucinações, sinestesias e percepções de “outras dimenções” Rs!!!


Bem, nos últimos anos o número de estudos com abordagens sobre os chamados “estado alterado de consciência”, tem revelado que tudo provém de um padrão usual de funcionamento do sono, me farei entender...No Brasil a Psicologia Transpessoal foi introduzida por Pierre Weil e Léo Matos em 1978 com a realização o IV congresso internacional sobre o tema e se consolidou em 1985 com a criação da ABPT, mas, em alguns locais ainda ñ tem reconhecimento pelo CRP, embora seja estudada por alguns profissionais que se dotam de ciriosidade para com temas dentro da tão amada área PSI, que é o meu caso.
Acredito que a demora no reconhecimento das práticas transpessoais dentro da Psicologia Acadêmica, provavelmente, pelo fato da existência de sua prática registrarem apenas meio século. Mesmo com tantas pesquisas sendo publicadas em crescente número, nos útimos anos, ainda é considerada uma área nova e ao meu ver tem aí um looongo caminho a percorrer na demonstração de resultados.

O tratamento por meio da prática da psicoterapia transpessoal inclui as metas tradicionais, com alívio dos sintomas e mudanças de comportamento, visando também experiências profundamente marcantes e voltadas para um certo desenvolvimento, é claro!!!

A Psicologia transpessoal é indicada para indivíduos com vazio existencial atuando talvez na busca de um novo sentido para suas vidas agindo principalmente em estado alterados de consciência como por exemplo: pessoas que passam por experiências consideradas “místicas”, mediúnicas ou transcendentais, contando assim com a psicoterapia na vertente do Stanislav Grof, seu prepursor que relata em vários livros  casos integrativos de transpessoalidade.

Fato que a técnica precisa ser aprofundada.










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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Síndrome de Alienação Parental

















Síndrome de Alienação Parental

Definição:

A Alienação Parental é um processo que consiste em programar uma criança para que odeie um de seus genitores sem justificativa. Quando a Síndrome está presente, a criança dá sua própria contribuição na campanha para desmoralizar o genitor alienado.

Histórico: A tradição considera que a mulher, como mãe, é mais apta que o homem para ocupar-se com os filhos.
Desde os anos 60, as mães buscam mais e mais os estudos e uma carreira profissional enquanto os pais se envolvem com vantagem nas atividades caseiras e nos cuidados com as crianças.

No início dos anos 70, uma lei permitindo o divórcio “sem culpa” provocou nos Estados Unidos uma quantidade de divórcios sem precedente.
Alguns anos depois uma nova Lei instituiu a “Guarda Compartilhada”, impossível até então sem acordo com a mãe.

A idéia de que o interesse dos filhos é primordial e que o melhor genitor são ambos os pais, têm um efeito perverso: se os pais não se entendem, o conflito é levado aos tribunais e se degenera numa guerra onde cada um procura demonstrar que o outro é um mau genitor.
Nos anos 80 se observa uma escalada de conflitos e, em casos extremos, o desvio do afeto das crianças para um de seus genitores em detrimento do outro. O primeiro a dar um nome para este fenômeno é o psiquiatra Richard Gardner: a “Síndrome de Alienação Parental”
A Síndrome se manifesta, em geral, no ambiente da mãe das crianças, notadamente porque sua instalação necessita muito tempo e porque é ela que tem a guarda na maior parte das vezes. Todavia pode se apresentar em ambientes de pais instáveis, ou em culturas onde tradicionalmente a mulher não tem nenhum direito concreto.

Desde o final dos anos 90, o pai passa cada vez mais tempo com seus filhos nas hipóteses de guarda compartilhada. A proporção de homens e mulheres que induzem este distúrbio psicológico nos filhos, atualmente tende ao equilíbrio.
Nos Estados Unidos e no Canadá, cada vez mais os tribunais reconhecem a existência de danos causados aos filhos vítimas da Síndrome da Alienação Parental, e consideram isto nos seus julgamentos.
Por estas razões existe a perícia psicológica. Aqui irei explanar sobre o mecanismo que envolve diversos profissionais, sobretudo o psicólogo jurídico.

Vejamos um exemplo que consequentemente sensibilizou a opinião pública: O caso Sean Goldman
O garoto Sean Goldman nasceu nos Estados Unidos e veio com mãe, Bruna Bianchi, passar férias no Brasil, mas os dois não retornaram. Desde então, o pai biológico, o americano David Goldman, iniciou uma batalha judicial para levar o menino de volta. Bianchi se casou novamente e morreu no parto da segunda filha. Em dezembro de 2009, David recebeu uma liminar da Justiça brasileira determinando a devolução do garoto e os dois voltaram juntos para os Estados Unidos. Acompanhe a cronologia do caso:
2000 - Nasce Sean Goldman, filho do americano David Goldman e da brasileira Bruna Bianchi.
2004 - Segundo o pai biológico, Bruna levou o menino ao Brasil de férias, mas ao chegar ao país avisou que queria o divórcio e que manteria o filho no Rio.

Depois que ordem de 2004 da Justiça de Nova Jersey para devolução do garoto não foi cumprida, Goldman notificou o Departamento de Estado dos EUA. Ele também entrou com um processo no Brasil.

2008 - Bruna morre no parto de sua filha com o segundo marido, João Paulo Lins e Silva.
Março de 2009 - A cobrança do governo americano gerou polêmica entre as autoridades brasileiras e o caso chegou a ser discutido entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente americano Barack Obama.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, cobrou das autoridades brasileiras a devolução do garoto para o país.

16 de dezembro - A avó materna do menino Sean Goldman entrou com um pedido de habeas corpus no STF (Supremo Tribunal Federal) pedindo que o menino ficasse no Brasil.

17 de dezembro de 2009 – A Justiça Federal do Rio havia determinado que a criança fosse entregue ao pai biológico. Goldman desembarcou no Brasil, onde deveria se encontrar com Sean após seis meses sem vê-lo.
18 de dezembro - O ministro do STF Marco Aurélio de Mello aceitou o recurso da família brasileira e decidiu que o garoto deveria permanecer no país até ser ouvido pela Justiça.

22 de dezembro – O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, decidiu cassar a liminar que impedia que americano David Goldman ficasse com o filho. Mendes determinou que a criança fosse devolvida imediatamente ao pai.

24 de dezembro - A família brasileira entregou Sean Goldman para o pai biológico após cinco anos de disputa.

David Goldman criticou a forma como o menino foi levado ao Consulado dos Estados Unidos no Rio de Janeiro. Ele foi caminhando, abraçado ao pai biológico, no meio de dezenas de jornalistas. A família brasileira disse que a atitude foi uma forma de protesto.
David escreveu uma carta agradecendo a todos que o ajudaram na batalha judicial.
08 de janeiro de 2009 – A rede de TV americana NBC exibiu um programa especial sobre o retorno dos dois aos Estados Unidos. Cenas inéditas de Goldman brincando com Sean em visita ao Brasil em 2008 foram ao ar.
Vale a pena ler o que disseram, em seu parecer, as três peritas do caso Sean.
Eles examinaram o exaustivamente o menino, visitaram sua casa e seu colégio, entrevistaram Sean, seus familiares maternos, o pai adotivo e seus professores.

Dizem as três psicólogas:

Não constataram carência em seu universo socioeconômico e cultural, e qualificaram como excelente a instrução recebida pelo menor.

As condições de ‘liberdade’ e ‘convivência’ familiar não são atendidas devidamente: Sean não pode estar com o pai sem alguém vigiando, o pai não é recebido no apartamento onde ele, Sean, mora e, consequentemente, sua convivência familiar é unilateral, devido à ruptura e afastamento do pai.
O menor está passando por um processo de ouvir ou perceber coisas negativas sobre o pai, ressaltando que a ausência do genitor no desenvolvimento do menor geralmente acarreta fragilidade emocional. A participação da figura paterna na formação da criança, sobretudo no caso de morte da mãe, é de extrema importância.
O grande problema aqui é que Sean confia no que sentiu e ouviu do padrasto e da família materna, ou seja, que seu pai lhe abandonou.

O afastamento entre Sean e o pai não adveio somente da distância geográfica. O padrasto e a família materna contribuíram em muito para a falta de proximidade entre o menor e seu genitor.

A ligação afetiva entre Sean e os avós maternos não pode ser óbice ao retorno ao Estado requerente (EUA). Não se trata de negar a importância dos laços familiares, mas sim de reconhecer a impossibilidade de afirmar que o convívio com os familiares paternos seja menos importante do que o convívio com a família materna.
Não se nega o valor da relação fraternal entre o menor e sua irmã caçula. Ocorre que, nas famílias da presente época, são bastante comuns os casos em que o convívio entre os irmãos não se dá de forma integral, notadamente quando estes são frutos de relacionamentos distintos. Por outro lado, fundamental para a educação e o desenvolvimento saudável da criança é o convívio integral com o seu pai biológico.

Rupturas devem ser evitadas sempre que possível, porém a mais significativa é a ruptura por alienação parental, porque atinge elos da criança que são essenciais (pai/mãe), enquanto que os elos fraternos constroem-se com a convivência e afinidades, sendo, em sua natureza, adicionais. A separação dos irmãos deve ser evitada em caso de ter que se colocarem as crianças em lares alternativos, que não os originais. Não se priva uma criança do convívio parental biológico saudável para conviver com uma meia irmã, com quem o vínculo afetivo está ainda na fase inicial. A relação fraterna vai se fortalecer através do tempo, com convivência e afinidades.
Uma ação contra o padrasto assinado pelo procurador da República, Gustavo Magno Goskes Briggs de Albuquerque diz que “não há nada nos autos que obste o retorno do menor ao seu país de origem e à convivência com o pai biológico. Há, neste contexto, decisão do Poder Judiciário dos Estados Unidos da América — país democrático que possui um Poder Judiciário independente, capaz de analisar a questão da guarda em observância ao devido processo legal e ao superior interesse do infante — deferindo a custódia física do menor provisoriamente ao pai”.

Diz também que o “laudo pericial — cuja fidedignidade é atacada pelo Réu, sem provas ou indícios de irregularidade minimamente aptos para tanto — é cristalino quanto aos efeitos psíquicos nocivos suportados por Sean em virtude da perda da mãe e da ausência do pai, e aponta a presença de sinais da Síndrome de Alienação Parental. É o que se depreende do seguinte trecho: “As escolhas de Sean não podem ser decisórias, não só pela falta de maturidade, própria de sua idade, mas também porque está à mercê de seu estado emocional neste momento. Pesam, em seu íntimo, os seguintes fatores: quem ficaria zangado com ele; quem, pela sua simples presença, o inibe; as promessas que o fizeram fazer. Todos esses elementos tornam-se intensamente exacerbados, ou distorcidos, no caso de a criança estar sob a Síndrome de Alienação Parental, o que, no caso de Sean, é a hipótese mais plausível. O ’sim’ de hoje poderá ser o ‘não’ de amanhã. A maior violência psicológica sobre a criança se dá quando ela não consegue mais distinguir o seu desejo do desejo do alienador, em consequência de forças impositivas.”
“As Peritas, quando indagadas sobre a reação de Sean à morte da mãe, relataram que o seu vínculo com o padrasto restou fortalecido após aquele acontecimento e que, por uma questão de fidelidade à mãe falecida, afloraram sentimentos de posse e ciúme em relação ao padrasto. Assim narraram as ilustres Peritas”:

“Segundo a escola, sua família materna e ele próprio reagiram bem. Apoiou-se muito no padrasto, chegando, segundo falas registradas pela peritas, a estabelecer com ele um contrato cuja natureza se fundamenta numa promessa de fidelidade à mãe morta: não haveria outro relacionamento amoroso para o padrasto. Esta é uma repetição funesta da mesma cena da separação do pai: brusca ruptura, e estabelecimento de compromisso de fidelidade com um dos elementos do antigo par; como esse lugar não pode ser ocupado, estamos de uma situação psicológica com perspectivas futuras bastante preocupantes, de cunho psicopatológico.”
“Ora, a promessa de não firmar novos relacionamentos amorosos causa estranheza até mesmo para o leigo em fenômenos psíquicos. Afinal, não é razoável conceber que um homem jovem garanta a uma criança que nunca mais se afeiçoará a outra mulher, sabendo-se que é inerente ao ser humano envolver-se em relações amorosas".

Origens
Em caso de separação é natural preocupar-se quando os filhos vão visitar pelas primeiras vezes o outro genitor. No início os desvios são freqüentes, como dizer “Avise-me quando chegar”, “Avise-me se ficares com medo, irei te buscar”. etc. Se o genitor é psicologicamente frágil, a ansiedade pode aumentar em vez de diminuir, e desencadear um processo de alienação.

Vejamos agora os aspectos psicológicos e jurídicos

ASPECTOS CONTROVERSOS
- No meio judiciário existe discussão se existe a SAP -SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL ou não.

- A importância de se cunhar o termo no meio jurídico:

ela existe;
é fácil prevenir e amenizar;
caracterizar como abuso psicológico, nos termos da lei.

DEFINIÇÃO
É a programação sistemática que um dos pais faz no filho, visando romper o contato com o outro genitor.

ELEMENTOS

1. PROGRAMAÇÃO SISTEMÁTICA

Deve ser sistemática. Em geral, é feita pelo guardião. Porque ele tem mais acesso e tempo com a criança. E, em especial, porque a criança volta para ele.

2. A CONTRIBUIÇÃO DA CRIANÇA

Ela passa a inventar histórias, contar histórias, a mentir.

Criança mente.
A criança responde com uma falsa autonomia.

Um dos cuidados do profissional da área é tomar a palavra da criança como verdade.

Mas a criança se identifica com o alienador.
Não se deve colocar a questão para a criança: “Você quer ficar com o papai ou com a mamãe?”.

GARDINER

Desqualifica-se as condutas do outro genitor, faz-se de vítima, expõe a criança a chantagem, a falsas alegações.
SÍNDROME DA ALIENAÇÃO PARENTAL X ALIENAÇÃO PARENTAL

A Síndrome da Alienação Parental é diferente da Alienação Parental.

A Alienação Parental é uma alienação feita na criança ou adolescente, e que não é possível identificar.
É mais difusa.
Pode ser feita pelo pai e pela mãe, ao mesmo tempo.

São os chamados conflitos de lealdade.
Existe um pingue-pongue: ora a criança se mostra identificada com o pai e ora com a mãe. Ora torce os fatos para um e ora para o outro.

A Síndrome da Alienação Parental, por sua vez, é um subtipo da Alienação Parental.

É uma situação muito mais específica: a cumplicidade da criança com um genitor.
É possível identificar a causa: um genitor é o responsável.

O projeto de lei abarca a alienação parental.

O Judiciário tem banalizado o assunto.
O que é comum no Judiciário pensamos que é normal.
Um dos mitos: a causa é a separação dos pais.

O prejuízo é como os pais elaboram a separação: falar mal do outro, denegrir a imagem.
Quando os pais lidam de forma adequada, os filhos ficam super-bem.
Às vezes, há um filho alienado e o outro, não.
Pode acontecer de o primogênito ser alienado e não o mais novo.

A SAP pode ser feita não somente pelos pais, mas também pelos avós, por exemplo.

Ou pelo genitor que era o alienado, quando se inverte a guarda.
Papel dos avós: do lado de quem aliena, sempre apóiam, ajudam. Senão, quem aliena rompe a relação.

SINTOMAS
Podem ser manifestados tanto pelo genitor como pela criança.

MOTIVO PARA A SAP
Às vezes, o casal tinha uma relação muito boa e um estopim leva à SAP:
um dos dois casa-se novamente;
divisão de bens;
discussão a respeito de pensão.
O motivo é fonte de discórdia.

A partir daí, começam as retaliações.

UM EXEMPLO
A mãe coloca a arma em sua própria cabeça e ameaça atirar.
Ela mostra-se frágil. A criança sente-se responsável pela dor da mãe.
A inversão de papéis é muito comum.

“Se a mamãe se matar, vou morar com aquele que é responsável pela sua morte.”

RELIGIOSO

“O pai é o demônio.” A mãe filia-se a um tipo de religião.


LITERATURA

Existe exemplo na literatura, de SAP feito pelo pai:
“Você sabia que sua mãe quis te matar quando você estava na barriga da sua mãe?”
A criança “lembra” disso. É capaz de sentir a dor da lembrança.

HISTÓRIAS DE TRAIÇÃO
“Nós fomos traídas, minha filha!”
A criança se sente traída, junto com a mãe.


MOROSIDADE DO SISTEMA LEGAL

O obstaculizador usa da morosidade da Justiça.

QUAL O SENTIDO DE CUNHAR O TERMO ALIENAÇÃO PARENTAL OU ALIENAÇÃO PARENTAL?
Na experiência clínica já existe.
Por que falar do termo?

No consultório, os casos são brandos – porque quem procura ajuda profissional quer se tratar.

Os casos que chegam ao Judiciário são muito mais graves. E precisam de tratamento.
Porque não existe o tratamento pelas vias normais.
Não existe uma preocupação com a criança, mas com retaliação e vingança.
É preciso estabelecer uma ferramenta multidisciplinar.

A única pessoa que tem o poder real de desinstalar o SAP é o juiz.

Por quê?
Essas pessoas (os alienadores) criam os seus próprios sistemas de regras e leis – a lei máxima são eles próprios.
É preciso estabelecer multas, inversão da guarda, etc.
Somente então poderia forçar a que um pai ou uma mãe se tratasse, por exemplo.

No contexto, o projeto de lei, como abarca a alienação parental (que é mais leve), mostra que temos como natural o afastamento do visitador.

A guarda única costuma ser o primeiro passo para a SAP.

“SE OS PAIS BRIGAM MUITO, COMO ESTABELECER A GUARDA CONJUNTA?”
“JÁ QUE ELES NÃO CONVERSAM, VAMOS FAZER A GUARDA ÚNICA.”

E mais para a frente, teremos a SAP.

A separação prejudicar a criança é um mito.

O adulto tem plena capacidade de lidar com os seus conflitos.
Com a inversão, se desprotegem os direitos da criança ou do adolescente.

O ano passado a guarda compartilhada virou lei.

O QUE É PRECISO?

Trazer ferramentas e uma mudança de paradigmas para a não instalação da SAP.
Trabalhar os mitos. Vão brigar. Mas precisam estar juntos na educação dos filhos. Eles precisam de duas referências.
Onde um erra, o outro conserta.
Quando há um só modelo, a criança não tem opção para balizar, fazer referências.
O Judiciário tem que usar as ferramentas:

• equipes de mediação nos Fóruns;
• equipes interdisciplinares;

• melhor capacitação dos peritos;
• projetos de lei.

DRA. SANDRA REGINA VILELA

PRIMEIRO: QUEM É O ADVOGADO QUE TRABALHA EM DIREITO DE FAMÍLIA?
Ele pode contribuir para que a família se destrua.

Como advogados, existe para nós uma responsabilidade muito grande.

Os advogados são usados.

“Meu ex-marido está abusando de minha filha!”

Nem sempre é verdade.
O papel do advogado é fazer com que a criança sofra o menos possível.
O processo é demorado e a demora vai contribuir para que a SAP se desenvolva.
E lá na frente, depois de três anos, podemos descobrir que a criança foi manipulada.
Quando ela descobre isso, não quer mais o manipulador.

ATUAÇÃO DO ADVOGADO OU A UTILIZAÇÃO DA MEDIAÇÃO

Na mediação não temos regras legais. Mas temos núcleos.
É uma forma de fazer a separação amena.
E não tira mercado do advogado.

BOLETIM DE OCORRÊNCIA
Tem que deixar visitar.
Quando a mãe diz que não vai cumprir, é preciso uma sanção.
Pode ser lavrado um boletim de ocorrência:
• crime de desobediência (quando o guardião desobedece ordem judicial);

• comunicação de crime de contravenção ou

• denunciação caluniosa (nos casos em que a mãe acusa o pai de algum crime).

É uma penalidade com o objetivo de que a mãe não avance.

E se o delegado não quiser fazer?

Apresenta-se uma petição, comunicando o crime – por advogado.

Mas se a comunicação do crime for falsa, pode caber denunciação caluniosa, pelo guardião, por exemplo.
É preciso que o guardião perca um pouco do papel que ele tem.

Ir ao juiz e pedir multa – sanção diária. O guardião perceberá que não tem o poder absoluto.

O juiz poderia, também, inverter a guarda.
Dispõe o Art. 1.583 do Código Civil:
“Art. 1.583. A guarda será unilateral ou compartilhada.
1o Compreende-se por guarda unilateral a atribuída a um só dos genitores ou a alguém que o substitua (art. 1.584, § 5o) e, por guarda compartilhada a responsabilização conjunta e o exercício de direitos e deveres do pai e da mãe que não vivam sob o mesmo teto, concernentes ao poder familiar dos filhos comuns.

2o A guarda unilateral será atribuída ao genitor que revele melhores condições para exercê-la e, objetivamente, mais aptidão para propiciar aos filhos os seguintes fatores:

I – afeto nas relações com o genitor e com o grupo familiar;

II – saúde e segurança;
III – educação.
3o A guarda unilateral obriga o pai ou a mãe que não a detenha a supervisionar os interesses dos filhos.”
Isso é uma regra absoluta nos Estados Unidos e na Europa – senão, o guardião perde a guarda.
Se tivéssemos isso efetivamente, não diriam: “Mãe não perde a guarda”, “Não conheço uma ordem judicial que não é cumprida, senão o direito de visita”.
E quando a criança diz: “Não quero ver o papai”, deve-se pedir uma medida cautelar para que as visitas sejam feitas no consultório do psicólogo, por certo tempo.

É preciso ajudar a criança a restabelecer o contato.
Pode ser até que o pai tenha culpa. Mas ele quer o contato.
Independentemente do motivo, o contato em um local saudável é bom para a criança.

O profissional pode ajudar a criança ou mesmo o pai.

O juiz pode alegar: “Como vou obrigar um pai ou uma mãe a fazer tratamento psicológico?”

Temos estabelecido no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990):

“Art. 129. São medidas aplicáveis aos pais ou responsável:
I - encaminhamento a programa oficial ou comunitário de proteção à família;

II - inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos;

III - encaminhamento a tratamento psicológico ou psiquiátrico;

IV - encaminhamento a cursos ou programas de orientação;

V - obrigação de matricular o filho ou pupilo e acompanhar sua freqüência e aproveitamento escolar;

VI - obrigação de encaminhar a criança ou adolescente a tratamento especializado;

VII - advertência;

VIII - perda da guarda;

IX - destituição da tutela;

X - suspensão ou destituição do pátrio poder.

Parágrafo único. Na aplicação das medidas previstas nos incisos IX e X deste artigo, observar-se-á o disposto nos arts. 23 e 24”.

Temos instrumentos, mas é muito difícil a sua utilização pelos juízes, por uma questão cultural.

DR. ELIZIO LUIZ PEREZ
Pelo ordenamento jurídico atual, existem instrumentos.
A Desembargadora Maria Berenice Dias tem proferido decisões excelentes.
Existe uma postura conservadora do Judiciário, mas que vai evoluir.
No futuro o Judiciário usará todos os instrumentos que tem.
Daí um projeto para que sirva de ponte para entendimentos mais avançados da paridade parental.
Há juízes que simplesmente negam a SAP: “é um desentendimento passageiro, picuinha, um ato isolado”.
Mas o juiz deve verificar o caso em um conteúdo maior.
Uma lei específica daria mais retaguarda ao juiz, para ele reconhecer a SAP e proferir melhor uma decisão.

Também para a reprovação da sociedade.
O projeto surge:
• da necessidade de eliminar a dúvida: existe a SAP;
• dar ferramentas.
O projeto teve a participação de:
• especialistas;

• organizações de pais e mães separados;

• internet;
e tramita no Congresso.

Há vários níveis. Há formas sutis de manipulação.

CAMADAS DE PROTEÇÃO
1. A existência de um projeto e sua publicação já divulga a existência da SAP na sociedade.

2. Definir o que é SAP.
3. Ainda que o juiz não esteja seguro, o projeto estabelece um rol de alienações.

4. Se o juiz ou o órgão do Ministério Público desconfia que há no caso a instalação da alienação parental, mas não está seguro, pode nomear um perito.

5. Se o juiz entender que não há a alienação parental, mas percebendo prejuízo para a criança no convívio com o pai ou com a mãe, pode adotar as medidas.

EFEITOS CRIMINAIS
Observar na alienação parental os aspectos objetivos, percebê-los na lei e torná-los crimes.

• Falsa comunicação de abuso sexual;

• Obstrução do contato da criança com o pai ou com a mãe.

MEDIDAS QUE O JUIZ PODE ADOTAR, CARACTERIZADA A SAP:

Tem que fazer a visita, ainda que assistida (é uma medida cautelar).

No exemplo do abuso sexual, visitas assistidas.
advertência - serve para interromper o processo;

multa;

ampliação da convivência com o outro genitor;

alteração da guarda;

suspensão da autoridade parental.

Paralelamente a tudo isso:

“Se há litígio, não se aplica a guarda compartilhada”: a guarda unilateral vai ser dada ao genitor que garantir o máximo convívio com o outro genitor (com exceção de casos extremos, como maus tratos, abuso comprovado). É a formação de um círculo virtuoso.
Conclusão: a guarda unilateral tendeu à compartilhada.
O projeto é do deputado Regis de Oliveira, e está na primeira comissão. Tem boas perspectivas de aprovação.

PERGUNTAS E RESPOSTAS - CONCLUSÕES

Os juízes não têm coragem, mas também aos psicólogos falta coragem.

UMA HISTÓRIA:
Uma mulher, ao falar de sua mãe, afirma que ela era maravilhosa.
Ao lembrar o passado, porém, viu as atitudes da mãe, que a afastou do pai.
Ao final, teria a dizer a ele: “Pai, não desista de mim. Ainda que eu cruze os braços, não desista de mim!”

NO PROCESSO:
Existe a SAP.
Como se desenvolve a Síndrome.
Advertir o juiz sobre o que está ocorrendo.

IMPARCIALIDADE É DIFERENTE DE OMISSÃO
É preciso uma atitude mais firme do Judiciário.
O juiz pode reforçar a atividade do Estado.
O Estado tem a obrigação de interferir: advertir.
Se o pai ou a mãe estiver alienando a criança – for SAP – sofrerá as conseqüências.
Deve aplicar multas, aumentar o tempo de convívio com o outro genitor.
Há decisões em São Paulo que assim determinam:
“Cumpra-se, sob pena de multa diária.”

Não cumpridas, impõem então os juízes:

“Cumpra-se, sob pena de inversão de guarda.”

O juiz tem elementos para saber. Se não agir, ao invés de proteger, desprotegerá.

SEQUELAS EMOCIONAIS NO ALIENADO
• depressão;
• alcoolismo;
• crises de angústia;
• crises de pânico;
• demissão do emprego.

DEPENDÊNCIA DE PERÍCIA
Quando o caso depender de perícia, pode não ser nada prático.
Por causa do volume?
O juiz não depende de perícia.
Mas deve estar preparado.
O projeto estabelece o trâmite prioritário destes processos.

Também a alegação incidental ou em ação autônoma da SAP, independentemente de outras ações.
As ferramentas existem, independentemente das outras que já existem.

POSSIBILIDADE DE SE PEDIR DANOS MORAIS PARA O ALIENADO
Uma decisão, em São Paulo, condenou a mãe e a psicóloga a pagar danos morais.
E ainda condenou a mãe, por litigância de má-fé, em dez mil reais, porque alegou abuso sexual.
Se buscarmos, procurarmos, nós encontraremos mais decisões nesse sentido.

PERÍCIA

A perícia deve ser realizada por quem tem conhecimento técnico.
O juiz pode determinar perícia particular.
O que acontece na SAP é que a realidade que a criança enxerga está totalmente distorcida.
É preciso o acompanhamento psicológico do alienado e da criança. Porque os prejuízos são de fato assustadores.









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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Aspectos Epistemológicos da Noção de Complexidade.

Desculpe-me por tamanha ausência!!! Decidi voltar a explanar o que analiso em meio aos meus ideários subjetivos.
















A Concepção de Complexidade é apresentada, a partir da noção de "estado central flutuante", unificando Mente/Cérebro como uma"máquina hipercomplexa".

Visto que o verdadeiro problema é este: como é que essa parte da realida­de que começa pela consciência pode ajustar-se àquela outra par­te que é descrita pela física e pela química?

Esta é uma das concepções essenciais para o conceito de complexi­dade. Os demais critérios seriam:
_A interação entre as partes do espíri­to que é provocada pela diferença
_O processo mental que exige energia colateral
_O processo mental que exige cadeias de determinação circu­lares (ou mais complexas)

Nos tais processos, os efeitos da dife­rença devem ser considerados como transformações (isto é, como
versões codificadas) que os precede; a descrição e a classificação destes processos de transformação revelam uma hie­rarquia de tipos lógicos imanentes aos fenômenos.

Sendo assim, vamos ao que interessa...

Todo o organismo vivo, desde o nascimento até a morte, está em estado de não-equilíbrio; a reação de um organismo a um es­tímulo é dependente de e modulada por um estado central definido como a condição reativa total, num da­do momento, de um neurônio, de um conjunto funcio­nal de células, de um elemento subcelular no interior do sistema nervoso, ou deste último considerado como um todo.
Assim, ocorrem mudanças com a hora do dia, com o dia do ano, com os anos que fazem envelhecer e com os milhares de acontecimentos da vida cotidiana. O organismo vivo é, ao mesmo tempo, o todo e a parte dos conjuntos e subconjuntos que o constituem. As mudanças em fun­ção de: materiais e gases transportados pelo sangue, hor­mônios, íons, acidez, temperatura, anticorpos, micró­bios e toxinas, estado de nutrição de células, órgãos e tecidos, informações que chegam ao cérebro, posição do corpo no espaço, recordações, passar do tempo e por aí vai.


O estado central - representação do mundo - é uma projeção em que se fundem três dimensões:
1ª. corporal: definida pelos dados físico-químicos do meio interno (meio interior e meio cerebral), aos quais se sobrepõe o estado das peças, músculos, tecidos e órgãos que constituem o organismo;
2ª. extracorporal: representação que o indivíduo tem do mundo, tanto do espaço sensorial recebido pelos ór­gãos dos sentidos, como do espaço do movimento perce­bido por receptores especializados que indicam a posição dos diferentes segmentos do corpo, estado de tensão dos músculos, ângulo das articulações etc.;
3ª. temporal: ocupada pelos vestígios acumulados durante o desenvolvimento do indivíduo, desde o nasci­mento até a morte. Provém do determinismo genético que põe em ação os programas centrais, ordena a matu­ração e o envelhecimento e também da contingência his­tórica que integra os acontecimentos da existência.
Para materializar esse estado central, temos de con­ceber um cérebro flou - somatório dos humores, hor­mônios e mediadores em ação no sistema nervoso. "O estado central é, ao mesmo tempo, a árvore e a flores­ta" (VICENT, 1988). Essa concepção está de acordo com a questão posta por Vaz ao discutir que devem ser leva­dos em conta dois níveis de descrição do sistema nervo­so:
1º. pertencente ao domínio estrutural, em que se demarcam os componentes do sistema nervoso e suas in­ter-relações recíprocas - ou seja, uma unidade decompo­nível em seus elementos;
2º. referente ao domínio das interações, em que tais interações se constituem num todo (como uma unidade singular), a ponto de condicio­nar a conduta do organismo portador de tal sistema ner­voso (VAZ, 1991).
É, ainda, importante assinalar a corres­pondência da noção de cérebro flou com a idéia do chi da medicina oriental. Segundo Capra, esse conceito des­creve padrões de fluxo e flutuação do organismo e suas interações com o meio. Implica numa descrição qualitati­va de um padrão dinâmico resultante de processos e inte­rações (CAPRA, 1990).
Uma ampla e consistente abordagem da complexida­de em relação à Relação Cérebro/Mente, ou Corpo/Mente foi desenvolvi­da por Morin. A partir do paradoxo-chave: "o que é um espírito (este é o termo empregado, em vez de "men­te") que pode conceber o cérebro que o produz e que é um cérebro que pode produzir um espírito que o conce­be?"
Morin assinala que não se pode isolar um do ou­tro e nenhum dos dois da Cultura. Ao comentar os aspec­tos biológicos da disjunção, cita Piaget: "A uma certa profundidade, a organização vital e a organização men­tal constituem uma única e mesma coisa" (MORIN, 1987) .
Isso decorre do fato de o corpo possuir dezenas de milhares de milhões de células, que realizam interpoli­computações que resultam na produção dessa realidade corporal. Além disso, o aparelho neurocerebral é consti­tuído por grande quantidade de neurônios (trinta a cem mil milhões) e de sinapses que viabilizam computações voltadas para o domínio cognitivo.
Dessa forma, a ativi­dade cognitiva do cérebro animal pode ser vista como uma "megacomputação" de computações. No caso hu­mano, há uma complexidade organizacional de tal ordem que viabiliza a transformação de computações em "cogi­tações", mediante a linguagem e a lógica. Simultanea­mente, o computo se torna cogito quando atinge a refle­xividade do sujeito que pensa seu pensamento, pensan­do-se a si próprio, quando tem consciência da sua cons­ciência.
O espírito emerge com a linguagem, o pensa­mento e a consciência. Para Morin, o espírito seria "um complexo de propriedades e qualidades que, provindo de um fenômeno organizador, participa dessa organiza­ção e retroage sobre as condições que o produzem" (MO­RIN, 1987). Isso só pode ser concebido a partir de:
(a) um todo organizador maior que os seus elementos constituti­vos;
(b) o desenvolvimento de qualidades emergentes com a capacidade de retroação sobre o que a produz;
(c) uma atividade recorrente cujo produto se torna produtor da organização que a produz (MORIN, 1987).
Quanto à noção de psiquismo, estaria referida ao aspecto individual-subjetivo da atividade do espírito. Es­taria vinculada à idéia de "ego", à identidade pessoal - incluindo os aspectos afetivos, oníricos, fantasmáti­cos da atividade espiritual.
Para conceber o cérebro como uma "máquina hiper­complexa", Morin descreve algumas características neu­rofisiológicas importantes:


1ª. Os dois hemisférios cerebrais - Conforme os es­tudos de Sperry, o hemisfério direito se relaciona com emoção, intuição, aspectos concretos (entoação da voz, cores), apreensão das formas globais, orientação espa­cial, aptidão musical. Já o esquerdo está referido à aná­lise, abstração, lógica, tempo seqüencial. O esquerdo se­ria dominante nos homens, o direito, nas mulheres. Mas a dominância varia também conforme os indivíduos e num mesmo indivíduo, conforme as contingências. Des­sa maneira, haveria um constante diálogo de complemen­taridade/antagonismo dos dois hemisférios - importan­te aspecto em termos de complexidade (MORIN, 1987).


2ª. O cérebro triúnico - McLean elaborou uma teo­ria de regionalização cerebral, de acordo com elementos filogenéticos. Assim, haveria:
* o paleocéfalo (herança reptiliana), constituído pelo hipotálamo - sede da agres­sividade, do cio, das pulsões primárias;
* o mesocéfalo (herança dos mamíferos antigos), com o siste­ma límbico - aspectos da afetividade e da memória de longo prazo;
* o córtex, com os hemisférios cerebrais que se hipertrofiam no homem (o neocórtex) - lugar das aptidões associativas, lógicas e estratégicas. Assim, haveria uma unidade triunitária, que permite encarar o cérebro como complexo.
Não ocorreria uma hierarquia entre as instâncias, mas sim uma atividade instável, com complementarida­de, antagonismos.


3ª. A concepção modular - O cérebro estaria cons­tituído por mosaicos de módulos polineuronais (também chamados de grafos). Cada módulo teria uma autonomia relativa e possuiria competências e especializações próprias. Estariam intimamente conectados com outros módulos, de modo a permitir a ocorrência de inter-retro­computações que viabilizariam a emergência dos fenôme­nos perceptivos e inteligentes.


4ª. Os "hormônios" cerebrais - Há dois feixes hor­monais: o MFB (Medial Forebrain Bundle) - sistema catecolaminérgico (dopamina e noradrenalina), de estimu­lação à ação; feixe de recompensa e reforço que atuaria no hipocampo; e o PVS (Periventricular System) - siste­ma colinérgico, de incitação à fuga ou à defesa que atua­ria na amígdala. Assim, haveria uma inter-relação dos dois feixes no processo de formação das idéias, das per­cepções que teriam correspondências psicoafetivas, que, por sua vez, poderiam ser desencadeadas, também, por estímulos externos.
O cérebro seria, então, um complexo de sistemas complexos com uma multiplicidade de instâncias que se encadeiam e se combinam através da: * unidualidade bi­hemisférica, * unidualidade triúnica, * poliunidade inter­modular, * unidualidade dos feixes hormonais.
Para entender o funcionamento complexo, Morin elaborou três princípios, todos interligados: O dialógi­co; O recorrente; O hologramático.
(1) O princípio dialógico refere-se à idéia de intera­ção, isto é, à associação complexa de instâncias, conjun­tamente necessárias à ocorrência, funcionamento e desen­volvimento de um fenômeno organizado. No caso cere­bral, percebe-se esta propriedade nos diversos níveis cita­dos anteriormente. Além disso, haveria uma dialógica análise/síntese ligada à dialógica digital/analógica, im­prescindíveis aos processos perceptivos.
(2) O princípio recorrente diz respeito à noção ciber­nética de retroação, isto é, operações circulares, em que os "efeitos" rebatem sobre as suas "causas". Mas, a noção de anel recorrente é mais ampla: tratar-se-ia de uma retroação reguladora. Seria o processo no qual, os produtos são simultaneamente produtores dentro do mes­mo processo, de modo que os estados finais são necessá­rios à origem dos estados iniciais, desde que haja energia disponível (o segundo critério de Bateson para o surgi­mento do fenômeno mental).
(3) O princípio hologramático (que inclui as modali­dades holoscópica e holonômica) baseia-se na técnica de produção do holograma - imagem física projetada no espaço, a três dimensões, provocando a sensação de espessura. Cada ponto do holograma reproduz pratica­mente todo o objeto, em dimensão menor. Assim, o prin­cípio hologramático seria enunciado da seguinte manei­ra: o todo está inscrito na parte que está inscrita no to­do. Dessa forma, a complexidade da organização total precisa da complexidade organizacional de seus elemen­tos singulares, que por sua vez precisam, recorrentemen­te, da complexidade organizacional do todo. Essas idéias foram desenvolvidas por Jacob e por Koestler ao conce­berem, respectivamente, os conceitos de "integron" e de "holon" (JACOB, 1985; KOESTLER, 1978).
Morin considera, ainda, três modalidades desse prin­cípio:
* hologramática, propriamente dita - o todo, de certo modo, está inscrito nas partes inscritas no todo;
* holonômica - o todo governa as partes que o governam;
* holoscópica - operadora da representação total de um fenômeno (a memória, por exemplo, está registrada hologramaticamente, de modo que as representações se­riam estabelecidas a partir de computações armazenadas).
Desse modo, o princípio hologramático incorporaria os dois outros princípios (dialógica e recorrência) - o todo constituído desde partes interatuantes e retroagin­do sobre essas partes para controlar suas interações (MO­RIN, 1987).
Em suma, o funcionamento da máquina hiper­complexa cerebral consistiria de dialógicas, recorrências, interações, como se houvesse a implicação de cada ele­mento ou etapa do conjunto em todo processo, de mo­do que a resultante fosse construída a partir das interfe­rências entre todos os elementos e etapas desse processo.

Complexidade: Aspectos Epistemológicos

Stengers, na obra "Quem tem medo da Ciência?", reunindo os seminários proferidos durante sua vinda ao Brasil, em 1989, apresentou uma série de idéias sobre a "complexidade". Afirma que a noção de complexidade é "perigosa", do "ponto de vista da política dos sabe­res" (STENGERS, 1990). Essa autora aventa a possibilida­de de tratar-se de um modismo que pode encerrar uma "armadilha": estabelecer uma nova visão do mundo que, se, por um lado, ultrapassaria as visões tradicionais da Ciência, por outro, sustentaria a visão de mundo de que as ciências podem trazer a verdade para a história (por exemplo, a idéia de progresso linear seria substituída por conceitos como "caos", "instabilidade", "desconti­nuidade" etc.), de modo que, assim, a Ciência permane­ceria mantendo seus interesses diante de sua capacidade "desveladora" das realidades, encaradas em sua comple­xidade "real" (STENGERS, 1990).A partir do par "operador-conceito", Stengers dis­cute o par "simples-complicado". Para ela, o "concei­to, na medida em que explica porque o operador tem êxito, define igualmente um mundo onde, de direito, as categorias às quais o operador recorreu são pertinentes" (STENGERS, 1990). Dessa forma, a complexidade põe em relevo os riscos que o conceito corre em relação ao ope­rador. Para Stengers, um operador, ao mesmo tempo e indissociavelmen­te, define uma prática de medida e um objeto, uma prática de me­dida que define seu objeto e um objeto que legitima uma prática de medida.
Diz ela: "Será que é a mesma coisa só que mais complicada ou devemos pensar em termos de complexi­dade?" Os encaminhamentos para tentar responder con­duzem a dois usos da noção de complexidade:
(1) de problematizar "a relação entre a operação prá­tica (de definir) e o conceito que parecia autorizar tal operação (a definição do sistema enquanto permite dedu­zir seus diferentes regimes de atividades possíveis)." Este uso está baseado nas ciências experimentais. Tem como resultado por em questão "o risco da experimentação" e o problema da pertinência dos conceitos que ela deter­mina (STENGERS, 1990);
(2) de discutir a posição de quem estabelece as questões nas ciências. Ou seja, "todo o método afirma a diferença entre aquele que coloca as questões e aquilo sobre o que eles a colocam" (STEN­GERS, 1990). Isso conduz ao problema de indivíduos hu­manos colocarem questões a seu próprio respeito. Assim, respostas a tais questões passam a ser políticas, uma vez que haveria uma resposta "objetiva", "que deve supos­tamente definir o que é o indivíduo, e à qual o indivíduo deve supostamente ser submetido, enquanto que ele colo­ca o mesmo problema" (STENGERS, 1990).
Para Stengers, a complexidade não constitui nem "nova visão do mundo", nem "novo tipo de teoria". Mas, sim, refere-se a uma questão "prática": ela surge quando há um encontro "empírico" que demanda um questionamento do poder atribuído aos conceitos. Mais ainda: constitui o modo de problematização do "novo", sob a forma de chamar a atenção para o problema da pertinência dos novos problemas e para as definições de nossas posições quanto àquilo que interrogamos. Ou seja, tanto a problemática do "novo", como a problemá­tica das relações entre ciências e poder (STENGERS, 1990).
Mas, no que se refere ao problema "mente/corpo" - objeto de nosso artigo é importante mencionar uma indagação da própria Stengers, em obra anterior, ao co­mentar o fato de que a "psicossomática faz parte dessas zonas obscuras da ciência em que se tenta conhecer sa­bendo ao mesmo tempo que isso provoca uma mutilação causada por modelos errados, os quais, como provém de outras ciências, não são adequados a esse gênero de disciplina.
Assim, como conseguir manter uma interrogação rigorosa e ao mesmo tempo moldá-Ia segun­do as exigências do que temos de compreender?" (STEN­GERS, 1987). Nessa mesma obra, originária de um coló­quio chamado "As Vias do Conhecimento", organiza­do em 1984 pela Universidade de Tsukuba, no Japão, Stengers indaga-se (e aos japoneses) acerca da pertinên­cia do conceito oriental do chi.
 Em suma, para o estu­do do problema "mente-corpo", a complexidade se cons­titui num valioso instrumento heurístico. De acordo, por­tanto, com a proposição stengeriana anterior do redimen­sionamento dos conceitos em função de sua eficácia. E, também, diga-se de passagem, redimensionamento dos modelos explicativos disponíveis. No caso em foco, am­bos se fazem absolutamente necessários para viabilizar uma abordagem mais satisfatória (do que as disponíveis) dos fenômenos psicossomáticos, nos quais o problema "mente-corpo" inevitavelmente desemboca.

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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A ARTE DE SER MULHER E PSICÓLOGA
















QUEBRANDO OS PARADIGMAS: RESSONÂNCIAS
Como profissional do sexo feminino, problematizo o “Fazer Psi”, traçando ressonâncias entre Paradigma Estético e Psicologia. Procuro mapear comportamentos teóricos e práticos, cartografando experiências e falando de auto-implicação. Deleuze e Guattari discorrem sobre a existência como obra de Arte, criações ético-estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, discuto a "Psicologia Estética", apostando em sua plasticidade e diversidade, o que nos propicia diferentes formas de intervir. Simulando ensaios, lanço-me ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí.

A área da sexualidade humana foi fortemente marcada pelas teorias de Freud. A sua psicanálise acabou tendo um papel marcante no ocidente dentro da teia de discursos da modernidade que tentaram definir e conceituar a figura feminina, seu corpo, sua "função" e sua sexualidade.


Anna Gonzáles: Psicóloga e Mulher

Preparando uma entrada ou quem sabe, uma saída...


No início da formação acadêmica, minha concepção sobre "Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte da vaidade já era uma paixão antiga. De um lado, estava a personagem séria da "Psi", do outro, os desígnios & Desejos, com todo o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas intensidades da pouca idade. Entretanto, a personagem “Séria Psi” foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade, implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui agregando um “fazer” no “entre”: Psicologia e comportamento. Em nossos estágios, usamos diversos dispositivos indutivos para intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais envolvente, instigante, novo...

A sensualidade feminina me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante, sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade ou até sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos, rompimento, criação, absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura por verdades. Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que quisera ter feito e não o fez no que gostaria de ter sido e não o foi. Abertos a Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio às frustrações.
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER X PSICOLOGIA podem propiciar subversões, já que rompem com a razão e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis, para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética, Ético-comportamental parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa contemporaneidade.


A Arte de ser mulher - Um valor de criação

Na primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor superior", uma "verdade absoluta", um "ideal" a ser alcançado, procura instituir uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Trágica, por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais importante do que a ciência; a única relação possível entre o homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança, o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando construir e desconstruir. O mundo visto como a eterna possibilidade do criar, do vir a ser. do sentir... O mundo, como sendo eterna nova visão do ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente poderosa e alegre.

Entretanto, Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica. O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que vai contra a interpretação e a significação morais da existência. Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal. Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes. Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o autor a vê como uma possibilidade de, uma alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de cair em radicalidades.

Traçando um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos, cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção "Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu curso de Psicologia - busca conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo. Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém. Busca-se uma ação diferente:

Intervir nos próprios alunos de Psicologia. Criamos um fazer extremamente singular em cada uma de suas nuances. Muitas foram as conquistas através dessa intervenção. Por múltiplas formas, produzimos desassossegos. Seja em quaisquer umas das intervenções - Oficinas, Esquetes, Sarau - rompemos com uma imagem cristalizada, de um psicólogo individual, neutro, envolto em seu saber solitário. Procuramos, então, um fazer envolvente, um pensar e construir em equipe, longe das utopias de neutralidade. Uma "Psi" que se afeta, possibilitando usinas de criação, questionando seu próprio fazer. Quebramos a imagem da psicanálise intacta, compacta, dona de uma verdade, indo em direção a uma prática nova, híbrida, cheia de possibilidades, em movimentos de transmutação. Saímos da imagem do "Psi médico" para um "Psi Arteiro...” Rompemos, também, com a imagem do estudante de Psicologia puramente racional e técnico. E não se trata de negar o racional, mas sim de poder incorporar a ele aspectos do plano intensivo. Abrimos espaços para o estudante artista, no sentido de se envolver em seu fazer, de sentir, sim, por que não? Vivenciamos como estudante e queremos inventar, compor. Não se trata de abandonar os livros e o computador, mas de acrescentar a sedução, a dança, a poesia, o choro, o riso, a lágrima, a sensibilidade, o afetamento, e o prazer humano.

Nietzsche (1995) problematiza a questão da Arte. Que importância a tem para a vida? Que relação poderia manter com a força e a fraqueza? No que implica a Arte trágica? Para ir a fundo a tais questões, ele faz uma reflexão sobre a Grécia arcaica, já que, em tal civilização, há uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística. O grego é capaz de grande sofrimento, extrema sensibilidade e significativa vulnerabilidade à dor. A Arte e a Filosofia podem ser meios de afirmação da vida que cresce, mas isso pressupõe sofrimento. Há os que sofrem de abundância de vida, que querem uma Arte dionisíaca e uma visão e compreensão trágica da vida. Há, também, os que sofrem de empobrecimento de vida, procurando repouso, quietude, mar liso. Contra a dor, o sofrimento, a morte, diviniza-se a vida criando a beleza. Dessa forma, os gregos criam os deuses olímpicos para tornar a vida possível ou desejável. A criação da Arte apolínea reflete uma necessidade de sobreviver em um mundo tão hostil. A Arte apolínea é a Arte da beleza. Se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros, eles são belos. Nietzsche (1992) nos fala sobre a imagem divina de Apolo, com sua tranqüilidade, beleza, exuberância, dignas da divindade da luz. Através da Arte apolínea, os gregos produzem outras formas de lidar com seus mundos. Trata-se de uma beleza necessária, pois não significa apenas ocultar o sofrimento, encobri-lo, mas uma libertação, a libertação da dor pela aparência, pela beleza, intensificando as forças de vida.

Há, também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca, em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência, ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade, surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica. Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o estado dionisíaco significa homem livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda':

Apesar das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de simultaneidade, em que se encontra o estado estético apolínio-dionisíaco. A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.

Essa valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação. Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento, que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois, não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há, pois, uma única interpretação possível e legítima. Não há uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação, se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas, ao conhecimento não cabe atingir uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano racional, mas que busca a produção de novos sentidos às intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal: havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria, então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor, juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação. Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando de perspectivas...

Os Signos Da Arte das Impressões


Proust (1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta, mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades, seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles, somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação, com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente, sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os signos da Arte. Estes seriam imateriais. Os outros signos, por sua vez, são materiais. Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o plano das intensidades, o plano da diferença.


Proust traz, também, outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo corresponderia uma temporalidade específica.


Embora cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os signos se entrecruzam, compondo variadas dimensões de tempo e sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação. Tais autores dizem que a fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma. O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma, pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre "remoendo" o que não se fez o que não se teve, o que não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência que vão para além da memória e das reminiscências, aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo, da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica, como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações. A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez fosse o eterno segredo de cada um de nós.

O tempo redescoberto, enquanto criação rompe com o tempo que passa perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades desse tempo que se redescobre.


Na Arte, fala-se em "ensaios", e não em treinos. Este último implicaria uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido. Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio, por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo, de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas, cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente "ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi". Estamos constantemente "intervindo" e "sendo intervidos"...

O Paradigma Estético-Sexual Na Psicologia - Se Permitir É Preciso


Guattari (1996) discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético", visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada. Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às aleatoriedades das intenções de materializar universos imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização, dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética dar formas de criação e expressão às multiplicidades.

Nesse sentido, Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir. Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo, inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi" que possibilite espaços à mutação, a formas de existência jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois, escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer. Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi" podem ser capazes de transformações políticas do desejo em nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além do bem e do mal.

A questão do privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi". O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal, somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é o único modo de comunicação, de produção de subjetividade. Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações, fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações, dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla, variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações ético-políticas, no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no campo social.

Poderíamos pensar nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um fazer mais tradicional, standard, somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi".

Rolnik (1989) questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então, a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação, dos ensaios. Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo ao campo das intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência da essência. Isto é, através delas, ensaiam-se novas possibilidades, novos sentidos. Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência, dando espaços à diferença, ao devir.

A terceira linha seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada. Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável. As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam incessantemente.

Assim, a formação do desejo no campo social se dá através do exercício ativo dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente, perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo', 'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de produzir diferença.

Proponho pensar uma Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari (1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar, experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos". Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos, de acordo com cada realidade.

Retomo o PsicoArte – intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção, a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos, ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações, os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação. Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis, os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos daí, é que nossa intervenção passava de um "endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção "Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil, já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de ética de singularidade, que possa romper com consensos, com 'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a complexidade e o caos.

Foucault in Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte, regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992) descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética", no sentido de descobrir outras existências, outras formas de intervir, outros sentidos para o que se estuda e discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença? Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso contexto social?


Nietzsche apud Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários restava uma preocupação única com lucros. A cultura encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública. Portanto, a Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis, que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos, melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera morna e nociva dos meios artísticos.


De certa maneira, isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo. Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também não se trata de uma maioria.


Apesar das dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte. Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que envolva os membros da comunidade. Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia.


Além disso, discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi". Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que seria realmente Arte, ou, de outra forma, o que seria mera reprodução de subjetividades já capturadas pelo sistema.


Concebemos, então, a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações, que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem criações artísticas que parecem estar longe de um processo de criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema, sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais.


Há, porém, as rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma intervenção "Psi" que procura abrir espaços às intensidades, possibilitando formas de atualização às virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade. É a isso que a "Psicologia estética" se propõe!

Simulando Uma Saída...


“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia: na procura pela cura da loucura”,

Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia". (DJAVAN/ GABRIEL 'O PENSADOR', 1998)

Assim, precisamos pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético, abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por 'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença. Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou "Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico. Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que ainda me demanda e que continuará em movimento.



Para além de uma leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e conhecimentos. Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o certo e o errado, entre o correto do profissional ou o avesso da Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da criação de Proust. Ao invés de procurar "regras", buscar a "ética".



Estudar e viver Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto, lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' livre. Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes. Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois, pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios, lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí...



Ai, ai...

“Talvez pensemos que, no caso de não ser possível confiar em nós mesmos, podemos confiar em conselheiros qualificados. Mas, se não podemos extrair a verdade de dentro do nosso coração, como é que outra pessoa que também tem um coração enganoso poderá discernir a verdade sobre nós, colocando-nos num divã e nos ouvindo?”



Pensem nisso!!!



"Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: O que uma mulher quer?"

Sigmund Freud - Pai da psicanálise



(1856-1939)

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