Annasehumanas

Psicóloga CLinico/Hospitalar

Siga-me!!!

Annas&Humanas





Seja bem vindo a este espaço, onde tu podes esclarecer as tuas dúvidas no formulário de contato ou comentando num artigo. Subscreva o feed RSS para não perder nenhum artigo novo. Podes procurar mais informações na seção "Arquivos" ou na barra de pesquisa.

Sinta-se em sua página.

Gonzáles.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Aspectos Epistemológicos da Noção de Complexidade.

Desculpe-me por tamanha ausência!!! Decidi voltar a explanar o que analiso em meio aos meus ideários subjetivos.
















A Concepção de Complexidade é apresentada, a partir da noção de "estado central flutuante", unificando Mente/Cérebro como uma"máquina hipercomplexa".

Visto que o verdadeiro problema é este: como é que essa parte da realida­de que começa pela consciência pode ajustar-se àquela outra par­te que é descrita pela física e pela química?

Esta é uma das concepções essenciais para o conceito de complexi­dade. Os demais critérios seriam:
_A interação entre as partes do espíri­to que é provocada pela diferença
_O processo mental que exige energia colateral
_O processo mental que exige cadeias de determinação circu­lares (ou mais complexas)

Nos tais processos, os efeitos da dife­rença devem ser considerados como transformações (isto é, como
versões codificadas) que os precede; a descrição e a classificação destes processos de transformação revelam uma hie­rarquia de tipos lógicos imanentes aos fenômenos.

Sendo assim, vamos ao que interessa...

Todo o organismo vivo, desde o nascimento até a morte, está em estado de não-equilíbrio; a reação de um organismo a um es­tímulo é dependente de e modulada por um estado central definido como a condição reativa total, num da­do momento, de um neurônio, de um conjunto funcio­nal de células, de um elemento subcelular no interior do sistema nervoso, ou deste último considerado como um todo.
Assim, ocorrem mudanças com a hora do dia, com o dia do ano, com os anos que fazem envelhecer e com os milhares de acontecimentos da vida cotidiana. O organismo vivo é, ao mesmo tempo, o todo e a parte dos conjuntos e subconjuntos que o constituem. As mudanças em fun­ção de: materiais e gases transportados pelo sangue, hor­mônios, íons, acidez, temperatura, anticorpos, micró­bios e toxinas, estado de nutrição de células, órgãos e tecidos, informações que chegam ao cérebro, posição do corpo no espaço, recordações, passar do tempo e por aí vai.


O estado central - representação do mundo - é uma projeção em que se fundem três dimensões:
1ª. corporal: definida pelos dados físico-químicos do meio interno (meio interior e meio cerebral), aos quais se sobrepõe o estado das peças, músculos, tecidos e órgãos que constituem o organismo;
2ª. extracorporal: representação que o indivíduo tem do mundo, tanto do espaço sensorial recebido pelos ór­gãos dos sentidos, como do espaço do movimento perce­bido por receptores especializados que indicam a posição dos diferentes segmentos do corpo, estado de tensão dos músculos, ângulo das articulações etc.;
3ª. temporal: ocupada pelos vestígios acumulados durante o desenvolvimento do indivíduo, desde o nasci­mento até a morte. Provém do determinismo genético que põe em ação os programas centrais, ordena a matu­ração e o envelhecimento e também da contingência his­tórica que integra os acontecimentos da existência.
Para materializar esse estado central, temos de con­ceber um cérebro flou - somatório dos humores, hor­mônios e mediadores em ação no sistema nervoso. "O estado central é, ao mesmo tempo, a árvore e a flores­ta" (VICENT, 1988). Essa concepção está de acordo com a questão posta por Vaz ao discutir que devem ser leva­dos em conta dois níveis de descrição do sistema nervo­so:
1º. pertencente ao domínio estrutural, em que se demarcam os componentes do sistema nervoso e suas in­ter-relações recíprocas - ou seja, uma unidade decompo­nível em seus elementos;
2º. referente ao domínio das interações, em que tais interações se constituem num todo (como uma unidade singular), a ponto de condicio­nar a conduta do organismo portador de tal sistema ner­voso (VAZ, 1991).
É, ainda, importante assinalar a corres­pondência da noção de cérebro flou com a idéia do chi da medicina oriental. Segundo Capra, esse conceito des­creve padrões de fluxo e flutuação do organismo e suas interações com o meio. Implica numa descrição qualitati­va de um padrão dinâmico resultante de processos e inte­rações (CAPRA, 1990).
Uma ampla e consistente abordagem da complexida­de em relação à Relação Cérebro/Mente, ou Corpo/Mente foi desenvolvi­da por Morin. A partir do paradoxo-chave: "o que é um espírito (este é o termo empregado, em vez de "men­te") que pode conceber o cérebro que o produz e que é um cérebro que pode produzir um espírito que o conce­be?"
Morin assinala que não se pode isolar um do ou­tro e nenhum dos dois da Cultura. Ao comentar os aspec­tos biológicos da disjunção, cita Piaget: "A uma certa profundidade, a organização vital e a organização men­tal constituem uma única e mesma coisa" (MORIN, 1987) .
Isso decorre do fato de o corpo possuir dezenas de milhares de milhões de células, que realizam interpoli­computações que resultam na produção dessa realidade corporal. Além disso, o aparelho neurocerebral é consti­tuído por grande quantidade de neurônios (trinta a cem mil milhões) e de sinapses que viabilizam computações voltadas para o domínio cognitivo.
Dessa forma, a ativi­dade cognitiva do cérebro animal pode ser vista como uma "megacomputação" de computações. No caso hu­mano, há uma complexidade organizacional de tal ordem que viabiliza a transformação de computações em "cogi­tações", mediante a linguagem e a lógica. Simultanea­mente, o computo se torna cogito quando atinge a refle­xividade do sujeito que pensa seu pensamento, pensan­do-se a si próprio, quando tem consciência da sua cons­ciência.
O espírito emerge com a linguagem, o pensa­mento e a consciência. Para Morin, o espírito seria "um complexo de propriedades e qualidades que, provindo de um fenômeno organizador, participa dessa organiza­ção e retroage sobre as condições que o produzem" (MO­RIN, 1987). Isso só pode ser concebido a partir de:
(a) um todo organizador maior que os seus elementos constituti­vos;
(b) o desenvolvimento de qualidades emergentes com a capacidade de retroação sobre o que a produz;
(c) uma atividade recorrente cujo produto se torna produtor da organização que a produz (MORIN, 1987).
Quanto à noção de psiquismo, estaria referida ao aspecto individual-subjetivo da atividade do espírito. Es­taria vinculada à idéia de "ego", à identidade pessoal - incluindo os aspectos afetivos, oníricos, fantasmáti­cos da atividade espiritual.
Para conceber o cérebro como uma "máquina hiper­complexa", Morin descreve algumas características neu­rofisiológicas importantes:


1ª. Os dois hemisférios cerebrais - Conforme os es­tudos de Sperry, o hemisfério direito se relaciona com emoção, intuição, aspectos concretos (entoação da voz, cores), apreensão das formas globais, orientação espa­cial, aptidão musical. Já o esquerdo está referido à aná­lise, abstração, lógica, tempo seqüencial. O esquerdo se­ria dominante nos homens, o direito, nas mulheres. Mas a dominância varia também conforme os indivíduos e num mesmo indivíduo, conforme as contingências. Des­sa maneira, haveria um constante diálogo de complemen­taridade/antagonismo dos dois hemisférios - importan­te aspecto em termos de complexidade (MORIN, 1987).


2ª. O cérebro triúnico - McLean elaborou uma teo­ria de regionalização cerebral, de acordo com elementos filogenéticos. Assim, haveria:
* o paleocéfalo (herança reptiliana), constituído pelo hipotálamo - sede da agres­sividade, do cio, das pulsões primárias;
* o mesocéfalo (herança dos mamíferos antigos), com o siste­ma límbico - aspectos da afetividade e da memória de longo prazo;
* o córtex, com os hemisférios cerebrais que se hipertrofiam no homem (o neocórtex) - lugar das aptidões associativas, lógicas e estratégicas. Assim, haveria uma unidade triunitária, que permite encarar o cérebro como complexo.
Não ocorreria uma hierarquia entre as instâncias, mas sim uma atividade instável, com complementarida­de, antagonismos.


3ª. A concepção modular - O cérebro estaria cons­tituído por mosaicos de módulos polineuronais (também chamados de grafos). Cada módulo teria uma autonomia relativa e possuiria competências e especializações próprias. Estariam intimamente conectados com outros módulos, de modo a permitir a ocorrência de inter-retro­computações que viabilizariam a emergência dos fenôme­nos perceptivos e inteligentes.


4ª. Os "hormônios" cerebrais - Há dois feixes hor­monais: o MFB (Medial Forebrain Bundle) - sistema catecolaminérgico (dopamina e noradrenalina), de estimu­lação à ação; feixe de recompensa e reforço que atuaria no hipocampo; e o PVS (Periventricular System) - siste­ma colinérgico, de incitação à fuga ou à defesa que atua­ria na amígdala. Assim, haveria uma inter-relação dos dois feixes no processo de formação das idéias, das per­cepções que teriam correspondências psicoafetivas, que, por sua vez, poderiam ser desencadeadas, também, por estímulos externos.
O cérebro seria, então, um complexo de sistemas complexos com uma multiplicidade de instâncias que se encadeiam e se combinam através da: * unidualidade bi­hemisférica, * unidualidade triúnica, * poliunidade inter­modular, * unidualidade dos feixes hormonais.
Para entender o funcionamento complexo, Morin elaborou três princípios, todos interligados: O dialógi­co; O recorrente; O hologramático.
(1) O princípio dialógico refere-se à idéia de intera­ção, isto é, à associação complexa de instâncias, conjun­tamente necessárias à ocorrência, funcionamento e desen­volvimento de um fenômeno organizado. No caso cere­bral, percebe-se esta propriedade nos diversos níveis cita­dos anteriormente. Além disso, haveria uma dialógica análise/síntese ligada à dialógica digital/analógica, im­prescindíveis aos processos perceptivos.
(2) O princípio recorrente diz respeito à noção ciber­nética de retroação, isto é, operações circulares, em que os "efeitos" rebatem sobre as suas "causas". Mas, a noção de anel recorrente é mais ampla: tratar-se-ia de uma retroação reguladora. Seria o processo no qual, os produtos são simultaneamente produtores dentro do mes­mo processo, de modo que os estados finais são necessá­rios à origem dos estados iniciais, desde que haja energia disponível (o segundo critério de Bateson para o surgi­mento do fenômeno mental).
(3) O princípio hologramático (que inclui as modali­dades holoscópica e holonômica) baseia-se na técnica de produção do holograma - imagem física projetada no espaço, a três dimensões, provocando a sensação de espessura. Cada ponto do holograma reproduz pratica­mente todo o objeto, em dimensão menor. Assim, o prin­cípio hologramático seria enunciado da seguinte manei­ra: o todo está inscrito na parte que está inscrita no to­do. Dessa forma, a complexidade da organização total precisa da complexidade organizacional de seus elemen­tos singulares, que por sua vez precisam, recorrentemen­te, da complexidade organizacional do todo. Essas idéias foram desenvolvidas por Jacob e por Koestler ao conce­berem, respectivamente, os conceitos de "integron" e de "holon" (JACOB, 1985; KOESTLER, 1978).
Morin considera, ainda, três modalidades desse prin­cípio:
* hologramática, propriamente dita - o todo, de certo modo, está inscrito nas partes inscritas no todo;
* holonômica - o todo governa as partes que o governam;
* holoscópica - operadora da representação total de um fenômeno (a memória, por exemplo, está registrada hologramaticamente, de modo que as representações se­riam estabelecidas a partir de computações armazenadas).
Desse modo, o princípio hologramático incorporaria os dois outros princípios (dialógica e recorrência) - o todo constituído desde partes interatuantes e retroagin­do sobre essas partes para controlar suas interações (MO­RIN, 1987).
Em suma, o funcionamento da máquina hiper­complexa cerebral consistiria de dialógicas, recorrências, interações, como se houvesse a implicação de cada ele­mento ou etapa do conjunto em todo processo, de mo­do que a resultante fosse construída a partir das interfe­rências entre todos os elementos e etapas desse processo.

Complexidade: Aspectos Epistemológicos

Stengers, na obra "Quem tem medo da Ciência?", reunindo os seminários proferidos durante sua vinda ao Brasil, em 1989, apresentou uma série de idéias sobre a "complexidade". Afirma que a noção de complexidade é "perigosa", do "ponto de vista da política dos sabe­res" (STENGERS, 1990). Essa autora aventa a possibilida­de de tratar-se de um modismo que pode encerrar uma "armadilha": estabelecer uma nova visão do mundo que, se, por um lado, ultrapassaria as visões tradicionais da Ciência, por outro, sustentaria a visão de mundo de que as ciências podem trazer a verdade para a história (por exemplo, a idéia de progresso linear seria substituída por conceitos como "caos", "instabilidade", "desconti­nuidade" etc.), de modo que, assim, a Ciência permane­ceria mantendo seus interesses diante de sua capacidade "desveladora" das realidades, encaradas em sua comple­xidade "real" (STENGERS, 1990).A partir do par "operador-conceito", Stengers dis­cute o par "simples-complicado". Para ela, o "concei­to, na medida em que explica porque o operador tem êxito, define igualmente um mundo onde, de direito, as categorias às quais o operador recorreu são pertinentes" (STENGERS, 1990). Dessa forma, a complexidade põe em relevo os riscos que o conceito corre em relação ao ope­rador. Para Stengers, um operador, ao mesmo tempo e indissociavelmen­te, define uma prática de medida e um objeto, uma prática de me­dida que define seu objeto e um objeto que legitima uma prática de medida.
Diz ela: "Será que é a mesma coisa só que mais complicada ou devemos pensar em termos de complexi­dade?" Os encaminhamentos para tentar responder con­duzem a dois usos da noção de complexidade:
(1) de problematizar "a relação entre a operação prá­tica (de definir) e o conceito que parecia autorizar tal operação (a definição do sistema enquanto permite dedu­zir seus diferentes regimes de atividades possíveis)." Este uso está baseado nas ciências experimentais. Tem como resultado por em questão "o risco da experimentação" e o problema da pertinência dos conceitos que ela deter­mina (STENGERS, 1990);
(2) de discutir a posição de quem estabelece as questões nas ciências. Ou seja, "todo o método afirma a diferença entre aquele que coloca as questões e aquilo sobre o que eles a colocam" (STEN­GERS, 1990). Isso conduz ao problema de indivíduos hu­manos colocarem questões a seu próprio respeito. Assim, respostas a tais questões passam a ser políticas, uma vez que haveria uma resposta "objetiva", "que deve supos­tamente definir o que é o indivíduo, e à qual o indivíduo deve supostamente ser submetido, enquanto que ele colo­ca o mesmo problema" (STENGERS, 1990).
Para Stengers, a complexidade não constitui nem "nova visão do mundo", nem "novo tipo de teoria". Mas, sim, refere-se a uma questão "prática": ela surge quando há um encontro "empírico" que demanda um questionamento do poder atribuído aos conceitos. Mais ainda: constitui o modo de problematização do "novo", sob a forma de chamar a atenção para o problema da pertinência dos novos problemas e para as definições de nossas posições quanto àquilo que interrogamos. Ou seja, tanto a problemática do "novo", como a problemá­tica das relações entre ciências e poder (STENGERS, 1990).
Mas, no que se refere ao problema "mente/corpo" - objeto de nosso artigo é importante mencionar uma indagação da própria Stengers, em obra anterior, ao co­mentar o fato de que a "psicossomática faz parte dessas zonas obscuras da ciência em que se tenta conhecer sa­bendo ao mesmo tempo que isso provoca uma mutilação causada por modelos errados, os quais, como provém de outras ciências, não são adequados a esse gênero de disciplina.
Assim, como conseguir manter uma interrogação rigorosa e ao mesmo tempo moldá-Ia segun­do as exigências do que temos de compreender?" (STEN­GERS, 1987). Nessa mesma obra, originária de um coló­quio chamado "As Vias do Conhecimento", organiza­do em 1984 pela Universidade de Tsukuba, no Japão, Stengers indaga-se (e aos japoneses) acerca da pertinên­cia do conceito oriental do chi.
 Em suma, para o estu­do do problema "mente-corpo", a complexidade se cons­titui num valioso instrumento heurístico. De acordo, por­tanto, com a proposição stengeriana anterior do redimen­sionamento dos conceitos em função de sua eficácia. E, também, diga-se de passagem, redimensionamento dos modelos explicativos disponíveis. No caso em foco, am­bos se fazem absolutamente necessários para viabilizar uma abordagem mais satisfatória (do que as disponíveis) dos fenômenos psicossomáticos, nos quais o problema "mente-corpo" inevitavelmente desemboca.

Read more...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A ARTE DE SER MULHER E PSICÓLOGA
















QUEBRANDO OS PARADIGMAS: RESSONÂNCIAS
Como profissional do sexo feminino, problematizo o “Fazer Psi”, traçando ressonâncias entre Paradigma Estético e Psicologia. Procuro mapear comportamentos teóricos e práticos, cartografando experiências e falando de auto-implicação. Deleuze e Guattari discorrem sobre a existência como obra de Arte, criações ético-estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, discuto a "Psicologia Estética", apostando em sua plasticidade e diversidade, o que nos propicia diferentes formas de intervir. Simulando ensaios, lanço-me ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí.

A área da sexualidade humana foi fortemente marcada pelas teorias de Freud. A sua psicanálise acabou tendo um papel marcante no ocidente dentro da teia de discursos da modernidade que tentaram definir e conceituar a figura feminina, seu corpo, sua "função" e sua sexualidade.


Anna Gonzáles: Psicóloga e Mulher

Preparando uma entrada ou quem sabe, uma saída...


No início da formação acadêmica, minha concepção sobre "Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte da vaidade já era uma paixão antiga. De um lado, estava a personagem séria da "Psi", do outro, os desígnios & Desejos, com todo o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas intensidades da pouca idade. Entretanto, a personagem “Séria Psi” foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade, implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui agregando um “fazer” no “entre”: Psicologia e comportamento. Em nossos estágios, usamos diversos dispositivos indutivos para intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais envolvente, instigante, novo...

A sensualidade feminina me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante, sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade ou até sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos, rompimento, criação, absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura por verdades. Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que quisera ter feito e não o fez no que gostaria de ter sido e não o foi. Abertos a Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio às frustrações.
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER X PSICOLOGIA podem propiciar subversões, já que rompem com a razão e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis, para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética, Ético-comportamental parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa contemporaneidade.


A Arte de ser mulher - Um valor de criação

Na primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor superior", uma "verdade absoluta", um "ideal" a ser alcançado, procura instituir uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Trágica, por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais importante do que a ciência; a única relação possível entre o homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança, o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando construir e desconstruir. O mundo visto como a eterna possibilidade do criar, do vir a ser. do sentir... O mundo, como sendo eterna nova visão do ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente poderosa e alegre.

Entretanto, Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica. O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que vai contra a interpretação e a significação morais da existência. Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal. Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes. Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o autor a vê como uma possibilidade de, uma alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de cair em radicalidades.

Traçando um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos, cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção "Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu curso de Psicologia - busca conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo. Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém. Busca-se uma ação diferente:

Intervir nos próprios alunos de Psicologia. Criamos um fazer extremamente singular em cada uma de suas nuances. Muitas foram as conquistas através dessa intervenção. Por múltiplas formas, produzimos desassossegos. Seja em quaisquer umas das intervenções - Oficinas, Esquetes, Sarau - rompemos com uma imagem cristalizada, de um psicólogo individual, neutro, envolto em seu saber solitário. Procuramos, então, um fazer envolvente, um pensar e construir em equipe, longe das utopias de neutralidade. Uma "Psi" que se afeta, possibilitando usinas de criação, questionando seu próprio fazer. Quebramos a imagem da psicanálise intacta, compacta, dona de uma verdade, indo em direção a uma prática nova, híbrida, cheia de possibilidades, em movimentos de transmutação. Saímos da imagem do "Psi médico" para um "Psi Arteiro...” Rompemos, também, com a imagem do estudante de Psicologia puramente racional e técnico. E não se trata de negar o racional, mas sim de poder incorporar a ele aspectos do plano intensivo. Abrimos espaços para o estudante artista, no sentido de se envolver em seu fazer, de sentir, sim, por que não? Vivenciamos como estudante e queremos inventar, compor. Não se trata de abandonar os livros e o computador, mas de acrescentar a sedução, a dança, a poesia, o choro, o riso, a lágrima, a sensibilidade, o afetamento, e o prazer humano.

Nietzsche (1995) problematiza a questão da Arte. Que importância a tem para a vida? Que relação poderia manter com a força e a fraqueza? No que implica a Arte trágica? Para ir a fundo a tais questões, ele faz uma reflexão sobre a Grécia arcaica, já que, em tal civilização, há uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística. O grego é capaz de grande sofrimento, extrema sensibilidade e significativa vulnerabilidade à dor. A Arte e a Filosofia podem ser meios de afirmação da vida que cresce, mas isso pressupõe sofrimento. Há os que sofrem de abundância de vida, que querem uma Arte dionisíaca e uma visão e compreensão trágica da vida. Há, também, os que sofrem de empobrecimento de vida, procurando repouso, quietude, mar liso. Contra a dor, o sofrimento, a morte, diviniza-se a vida criando a beleza. Dessa forma, os gregos criam os deuses olímpicos para tornar a vida possível ou desejável. A criação da Arte apolínea reflete uma necessidade de sobreviver em um mundo tão hostil. A Arte apolínea é a Arte da beleza. Se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros, eles são belos. Nietzsche (1992) nos fala sobre a imagem divina de Apolo, com sua tranqüilidade, beleza, exuberância, dignas da divindade da luz. Através da Arte apolínea, os gregos produzem outras formas de lidar com seus mundos. Trata-se de uma beleza necessária, pois não significa apenas ocultar o sofrimento, encobri-lo, mas uma libertação, a libertação da dor pela aparência, pela beleza, intensificando as forças de vida.

Há, também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca, em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência, ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade, surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica. Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o estado dionisíaco significa homem livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda':

Apesar das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de simultaneidade, em que se encontra o estado estético apolínio-dionisíaco. A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.

Essa valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação. Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento, que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois, não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há, pois, uma única interpretação possível e legítima. Não há uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação, se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas, ao conhecimento não cabe atingir uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano racional, mas que busca a produção de novos sentidos às intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal: havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria, então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor, juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação. Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando de perspectivas...

Os Signos Da Arte das Impressões


Proust (1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta, mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades, seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles, somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação, com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente, sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os signos da Arte. Estes seriam imateriais. Os outros signos, por sua vez, são materiais. Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o plano das intensidades, o plano da diferença.


Proust traz, também, outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo corresponderia uma temporalidade específica.


Embora cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os signos se entrecruzam, compondo variadas dimensões de tempo e sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação. Tais autores dizem que a fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma. O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma, pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre "remoendo" o que não se fez o que não se teve, o que não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência que vão para além da memória e das reminiscências, aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo, da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica, como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações. A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez fosse o eterno segredo de cada um de nós.

O tempo redescoberto, enquanto criação rompe com o tempo que passa perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades desse tempo que se redescobre.


Na Arte, fala-se em "ensaios", e não em treinos. Este último implicaria uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido. Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio, por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo, de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas, cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente "ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi". Estamos constantemente "intervindo" e "sendo intervidos"...

O Paradigma Estético-Sexual Na Psicologia - Se Permitir É Preciso


Guattari (1996) discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético", visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada. Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às aleatoriedades das intenções de materializar universos imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização, dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética dar formas de criação e expressão às multiplicidades.

Nesse sentido, Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir. Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo, inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi" que possibilite espaços à mutação, a formas de existência jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois, escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer. Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi" podem ser capazes de transformações políticas do desejo em nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além do bem e do mal.

A questão do privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi". O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal, somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é o único modo de comunicação, de produção de subjetividade. Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações, fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações, dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla, variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações ético-políticas, no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no campo social.

Poderíamos pensar nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um fazer mais tradicional, standard, somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi".

Rolnik (1989) questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então, a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação, dos ensaios. Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo ao campo das intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência da essência. Isto é, através delas, ensaiam-se novas possibilidades, novos sentidos. Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência, dando espaços à diferença, ao devir.

A terceira linha seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada. Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável. As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam incessantemente.

Assim, a formação do desejo no campo social se dá através do exercício ativo dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente, perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo', 'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de produzir diferença.

Proponho pensar uma Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari (1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar, experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos". Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos, de acordo com cada realidade.

Retomo o PsicoArte – intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção, a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos, ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações, os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação. Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis, os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos daí, é que nossa intervenção passava de um "endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção "Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil, já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de ética de singularidade, que possa romper com consensos, com 'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a complexidade e o caos.

Foucault in Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte, regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992) descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética", no sentido de descobrir outras existências, outras formas de intervir, outros sentidos para o que se estuda e discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença? Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso contexto social?


Nietzsche apud Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários restava uma preocupação única com lucros. A cultura encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública. Portanto, a Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis, que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos, melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera morna e nociva dos meios artísticos.


De certa maneira, isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo. Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também não se trata de uma maioria.


Apesar das dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte. Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que envolva os membros da comunidade. Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia.


Além disso, discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi". Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que seria realmente Arte, ou, de outra forma, o que seria mera reprodução de subjetividades já capturadas pelo sistema.


Concebemos, então, a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações, que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem criações artísticas que parecem estar longe de um processo de criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema, sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais.


Há, porém, as rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma intervenção "Psi" que procura abrir espaços às intensidades, possibilitando formas de atualização às virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade. É a isso que a "Psicologia estética" se propõe!

Simulando Uma Saída...


“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia: na procura pela cura da loucura”,

Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia". (DJAVAN/ GABRIEL 'O PENSADOR', 1998)

Assim, precisamos pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético, abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por 'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença. Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou "Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico. Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que ainda me demanda e que continuará em movimento.



Para além de uma leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e conhecimentos. Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o certo e o errado, entre o correto do profissional ou o avesso da Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da criação de Proust. Ao invés de procurar "regras", buscar a "ética".



Estudar e viver Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto, lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' livre. Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes. Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois, pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios, lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí...



Ai, ai...

“Talvez pensemos que, no caso de não ser possível confiar em nós mesmos, podemos confiar em conselheiros qualificados. Mas, se não podemos extrair a verdade de dentro do nosso coração, como é que outra pessoa que também tem um coração enganoso poderá discernir a verdade sobre nós, colocando-nos num divã e nos ouvindo?”



Pensem nisso!!!



"Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: O que uma mulher quer?"

Sigmund Freud - Pai da psicanálise



(1856-1939)

Read more...

sábado, 7 de novembro de 2009

Pílula da inteligência

















Drogas que melhoram a memória e o desempenho cognitivo

Tim Tully, do Cold Spring Harbor Laboratory e da Helicon Therapeutics, um neurocientista é um dos principais protagonistas na corrida para o desenvolvimento de uma nova classe de drogas que pode melhorar a memória em casos de incapacitação - drogas que surgem de uma compreensão, cada vez mais sofisticada, da parte molecular e mecanicista que faz com que nos lembremos de tudo, desde tempestades de neve há mais de 30 anos, até onde colocamos as chaves do carro meia hora atrás.

Infelizmente, é a natureza da ciência contemporânea (e conseqüentemente o comércio e a bioética) que temos de evocar para projetar o futuro da cognição humana e a sua manipulação farmacológica, enquanto observamos o comportamento de um camundongo dopado vagando dentro de uma caixa com labirintos. Assim, lá estávamos nós, olhando distraidamente para o vídeo que Tully exibia no seu laptop, e observando um pequeno roedor castanho entrar num ambiente fechado e começar a explorar com passinhos rápidos um cenário experimental conhecido como Treinamento de Reconhecimento de Objetos. Um dia antes, explicou Tully, o camundongo havia sido colocado nessa mesma caixa contendo dois objetos estranhos em forma de maçaneta, cada um com uma identificação olfativa, tátil, além de outros sinais sensoriais próprios. Quando deixamos um camundongo explorar um ambiente como esse durante 15 minutos, prossegue Tully, ele se lembrará de tudo tão bem, que, no dia seguinte, perceberá imediatamente qualquer mudança. Mas, um camundongo que explora um ambiente durante apenas três minutos e meio geralmente não tem tempo suficiente para armazenar detalhes da cena na memória de longo prazo.
O camundongo do filme tinha tido somente três minutos e meio de treinamento, mas havia recebido um coadjuvante farmacológico, e era isso que Tully queria me mostrar. Como um locutor narrando um evento esportivo, ele descrevia a cena quando, de repente, o bichinho parou, dando atenção excessiva ao novo objeto. "Veja, lá vai ele", disse Tully. "Ele está rodeando o objeto... Agora está escalando o topo da maçaneta, sem se importar com o outro objeto." De fato, o camundongo farejava, dava voltas e tornava a subir no objeto novo por todos os lados, ignorando o segundo objeto - explorado no dia anterior.
Atualmente, camundongos inteligentes e ratos treinados são chamarizes para novidades farmacêuticas que podem melhorar a cognição humana.
Para mostrar esse grau de curiosidade, o camundongo tinha de se lembrar do que havia na caixa um dia antes, o que exige a formação de uma memória de longo prazo. Embora anos de experimentos comportamentais tenham estabelecido que os ratos normalmente não se lembram das mudanças no ambiente depois de uma exposição prévia tão curta, aquele se lembrou. Isso porque ele havia recebido uma droga estimulante da memória conhecida como Creb (cyclic response element binding), que a Helicon espera testar em humanos, talvez até o fim do ano. "Mostramos que vários compostos poderão aumentar a capacidade de um camundongo normal se lembrar dessa tarefa", disse Tully. "E para fazer disso realidade, e não uma hipótese, precisamos mostrar que também funciona em humanos."
Atualmente, camundongos inteligentes e ratos treinados estão sendo usados como chamariz para uma nova farmacologia: drogas que podem aumentar a cognição humana, melhorar a memória dos portadores de doenças neurodegenerativas ou idosos, e talvez até reestruturar os circuitos formadores da memória em vítimas de acidentes vasculares cerebrais (derrames) ou pessoas mentalmente retardadas. O mercado potencial para estes produtos é vastíssimo. Como Tully e qualquer outro grande executivo da biotecnologia e farmacologia sabem, há 4 milhões de norte-americanos com o mal de Alzheimer, outros 12 milhões numa condição chamada de incapacidade cognitiva leve, geralmente considerada prenúncio de Alzheimer. Além disso, há aproximadamente 76 milhões de pessoas com mais de 50 anos nos Estados Unidos e muitas delas podem preencher os requisitos do que a Food and Drug Administration (FDA) vem chamando mais recentemente de perda de memória associada à idade, uma forma de esquecimento leve. A julgar pelas vendas de produtos fitoterápicos, como o ginkgo biloba, os consumidores não estão querendo esperar a aprovação da droga. As vendas de gingko biloba ultrapassam 1 bilhão de dólares por ano nos Estados Unidos, mesmo sendo controvertidas as evidências científicas de que o suplemento de fato melhore a memória (ver As Controvérsias do Gingko biloba, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, junho 2003). Na Alemanha, as vendas excedem as de todas as drogas inibidoras da cetilcolinesterase usadas para retardar a perda de memória de pacientes com Alzheimer.
Apesar do incessante alarde da mídia sobre a revolução que está por vir, anunciada como "Viagra para o cérebro", as pílulas da inteligência ainda não estão disponíveis. A Cortex, de Irvine, Califórnia, desenvolveu um tipo de droga para melhorar a memória, chamada ampaquina, que a empresa acredita aumentar a energia do neurotransmissor glutamato. Essas drogas foram aprovadas na fase I dos testes de segurança e no momento estão sendo submetidas aos testes da fase II (testes de pequena escala para comprovar sua eficácia) contra o Alzheimer, incapacidade cognitiva leve e esquizofrenia. Estes testes preliminares estão levando a cabo uma odisséia, iniciada na metade dos anos 80, sem nenhuma perspectiva definida em vista.

Mas as coisas começam a esquentar. A Memory Pharmaceuticals em Montvale, Nova Jersey, que está comercializando a pesquisa do vencedor do Prêmio Nobel, Eric R. Kandel, da Columbia University, fez os testes iniciais de sua primeira droga para melhorar a memória em humanos no início de 2003. Tully acredita que a droga da Helicon, que está na liderança, deve entrar em testes antes de 2004. A Axonyx, de Nova York, tem se concentrado na fenserina (um potente inibidor da acetilcolinesterase) para tratar de pacientes com Alzheimer. A empresa começou a fazer os testes avançados em junho. O neurocientista Joe Z. Tsien, da Princeton University, que causou enorme rebuliço em 1999 com a criação de um camundongo geneticamente modificado para ampliar a inteligência, chamado Doogie, assessorou uma empresa de biotecnologia instalada em San Francisco, Califórnia, a Eureka! Pharmaceuticals, que está colaborando com cientistas de Xangai na busca de drogas capazes de misturar a genética moderna com a medicina fitoterápica milenar da China. Ele ainda tem dúvidas sobre quando essa revolução comercial começará. "Eu me surpreenderia se qualquer uma dessas drogas viesse a ser adotada clinicamente e se tornasse mais uma droga em breve", prediz Tsien, "especialmente uma droga sem efeitos colaterais."

Embora a maior parte dessa nova geração de drogas ainda esteja longe de aprovação para uso clínico, seu impacto social já é sentido. Especialistas em bioética vêm trabalhando na avaliação dos perigos sociais que a melhoria da memória poderá oferecer, particularmente sobre seu uso potencial como drogas da moda. O filósofo Leon R. Kass, chefe do Conselho de Bioética escreveu recentemente: "Nestas áreas da vida humana, onde a excelência tem sido obtida pela disciplina e esforço, a conquista de resultados com uso de drogas, engenharia genética ou implantes parece \\'ardilosa\\'".

Mas o uso de drogas potentes como estimuladores cognitivos tem sempre acompanhado os hábitos humanos, desde que as pessoas começaram a tomar café. Cerca de 50 anos atrás a prática obteve uma aura mais farmacológica quando adultos normais saudáveis descobriram que as anfetaminas poderiam aumentar os períodos de alerta. Se, como prevêem alguns, os novos estimuladores cognitivos se destinarem a replicar o padrão do Viagra e se tornarem drogas da moda, como isso vai acontecer, e como o seu uso irá se difundir? Uma resposta possível pode estar numa geração anterior de drogas já aprovadas, que aumentam a cognição - o metilfenidato (Ritalin) indicado para a atenção, o donepezil para o Alzheimer e o modafinil, prescrito para a narcolepsia. Essas drogas já são consumidas por adultos normais que querem melhorar sua percepção e desempenho mentais. Os usuários acreditam piamente que essas drogas melhorem o desempenho cognitivo, embora praticamente nenhuma pesquisa ateste isso. Algumas sugerem que não superam uma droga encontrada na maioria das mesas do café da manhã.

As Restrições à Cafeína

A melhora cognitiva tem sido alvo de pesquisas militares há muito tempo. No Walter Reed Army Institute of Research, Nancy Jo Wesensten trabalha com produtos farmacêuticos que podem melhorar o estado de alerta (e conseqüentemente o desempenho nos campos de batalha) de soldados que sofrem de intensa privação do sono. Em junho de 1998, enquanto participava de um encontro de pesquisadores do sono, Wesensten parou no estande da Cephalon, uma empresa de biotecnologia sediada em West Chester, Pensilvânia, e iniciou uma conversa com um de seus representantes comerciais.

Nessa época a Cephalon estava para receber a aprovação da FDA de uma droga com o nome genérico de modafinil. Comercializada como Provigil, este produto é usado no tratamento da narcolepsia, a profunda sonolência diurna que aflige cerca de 125 mil norte-americanos. Evidentemente, o modafinil seria um óbvio candidato a ser testado pelo exército norte-americano no tratamento para a privação do sono - de tal forma que Wesensten foi convidada a se reunir com executivos da empresa para discutir detalhes de seu trabalho. Finalmente a Cephalon concordou em fornecer o modafinil para as pesquisas do exército.

Tim Tully, do Cold Spring Harbor Laboratory e da Helicon Therapeutics, mostra um camundongo usado em testes para melhorar a memória.

Isso foi há mais de cinco anos. Em dezembro de 1998 a FDA aprovou a venda do modafinil nos Estados Unidos para o tratamento da narcolepsia, e a Cephalon vende hoje, cerca de US$ 200 milhões da droga por ano. Isso representa uma grande quantidade de medicação para a narcolepsia - mais que a população norte-americana de narcolépticos poderia consumir, suspeitam muitos observadores. "Há uma enorme quantidade usada sem autorização de psiquiatras para melhorar o humor", diz Helene Emsellem, que dirige o Center for Sleep and Wake Disorders, em Chevy Chase, Maryland.

Na verdade, o modafinil é utilizado para tratar a depressão, esclerose múltipla e vários outros distúrbios associados à fadiga. Há relatos de que médicos estão sendo bombardeados por pessoas saudáveis solicitando receitas de modafinil como estimulante cognitivo que os faça dormir menos, trabalhar e se divertir mais. Um acadêmico, pesquisador do sono muito conhecido, me confidenciou: "As pessoas estão me dizendo que conseguem se concentrar mais, incluindo alguns dos meus colegas". A Cephalon vem realizando testes clínicos com o Provigil no tratamento de distúrbios adicionais de sonolência excessiva - resultante, por exemplo, de sono interrompido (causado por apnéia do sono) ou pelo "desalinhamento circadiano" provocado pela jornada noturna de trabalhadores como os operários de fábricas e motoristas de caminhão.
Isso nos remete de volta aos estudos de Wesensten no centro do sono Walter Reed. "Nós estávamos particularmente interessados em saber se o modafinil tem qualquer vantagem sobre a cafeína, muito boa para reverter os efeitos da privação do sono ou desempenho cognitivo. Além de ser amplamente disponível, não precisa de receita e tem poucos efeitos colaterais", disse ela. "Será que haveria então alguma vantagem em usar o modafinil em vez da cafeína?" Wesensten e seus colegas organizaram um estudo aleatório duplo-cego com a administração de placebo, no qual 50 voluntários foram mantidos acordados durante 54 horas consecutivas. Depois de cerca de 40 horas, os indivíduos receberam placebo ou 600 miligramas de cafeína (uma dose forte, equivalente a cerca de seis xícaras de café) ou uma de três possíveis doses de modafinil (100 miligramas, 200 miligramas, ou 400 miligramas). Depois foram submetidos a uma bateria de testes para avaliar as funções cognitivas e os efeitos colaterais.

Qual o resultado? A dose mais alta de modafinil, de 400 miligramas, eliminou a fadiga e restaurou o desempenho cognitivo aos níveis normais - mas a cafeína também. Os efeitos colaterais relatados do modafinil foram muito baixos - bem como os da cafeína. "O que concluímos", disse Wesensten, "foi que não pareceu haver nenhuma vantagem em usar o modafinil no lugar da cafeína. O modafinil não tinha nenhuma vantagem. As duas drogas se comportaram de forma muito similar."
Algumas pesquisas indicam que estimuladores cognitivos atualmente no mercado podem não ser melhores que uma droga encontrada na maior parte das mesas de café da manha.

A Força Aérea norte-americana também tem realizado experimentos com drogas que melhoram o estado de alerta de pessoal militar fatigado, particularmente em relação a pilotos em missão operacional. A Força Aérea permitia que os pilotos utilizassem anfetaminas chamadas de "go pill", já na época da Segunda Guerra Mundial, de acordo com John A. Caldwell, especialista em distúrbios do sono da Força Aérea que conduziu esses experimentos nos últimos 10 anos. "Meu objetivo principal não é aumentar o desempenho cognitivo", disse ele numa entrevista, "mas manter os excelentes níveis de desempenho entre os nossos militares."
Começando em 1993, Caldwell realizou testes aleatórios duplo-cego mostrando que a dextroanfetamina eliminava as quedas de desempenho dos pilotos, homens ou mulheres, sem dormir durante 40 horas consecutivas. Alguns dos estudos foram realizados em simuladores de vôo de helicóptero, mas depois foram replicados em aeronaves reais. Mais recentemente Caldwell testou o modafinil em comparação com a dextroanfetamina em pilotos privados do sono, mostrando que a droga da narcolepsia superou a fatiga e manteve o desempenho cognitivo, embora alguns indivíduos tenham tido náuseas semelhantes ao enjôo do movimento, dentro do simulador. "Em última análise, eu acredito que há lugar para o modafinil", diz Caldwell. "Não me surpreenderia se ele fosse aprovado para consumo dentro de um ano. Mas eu não acredito que ele possa vir a substituir nossa atual \\'go pill\\'. Temos 50 anos de experiência operacional e toneladas de pesquisas de laboratório com a dextroanfetamina. Ainda não chegamos lá com o modafinil."

Um halo de pó
Mesmo assim, a pesquisa com o modafinil destaca um paradoxo no debate ético sobre a melhoria cognitiva. A Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) tem financiado várias pesquisas, básica e aplicada, buscando caminhos para melhorar o desempenho cognitivo do seu pessoal. O programa de Desempenho Assistido Contínuo da Darpa vem financiando pesquisas pré-clínicas com a droga ampaquina da Cortex, por exemplo. Assim, enquanto membros de uma parte do governo, o painel de bioética do Presidente George W. Bush, apóiam o uso de drogas por pessoas saudáveis para melhorar o desempenho cognitivo de forma velada, outro ramo, os militares, têm explorado agressivamente a capacidade de novos agentes farmacológicos para aumentar a vigília e o desempenho cognitivo em indivíduos fatigados mas essencialmente normais - de um pequeno pulo a um salto para a melhoria cognitiva de civis.
O modafinil é o mais novo estimulante cognitivo capaz de criar adeptos entre pessoas saudáveis. Há uma literatura mínima, para não dizer até um certo mito, em torno do uso do Ritalin como um coadjuvante nos estudos para alunos dos cursos médio e universitário. O Ritalin, produzido pela Novartis, normalmente é indicado para crianças com transtornos de hiperatividade com déficit de atenção. Mas relatos evidenciam que entre estudantes e homens de negócios há adeptos do Ritalin. Vários alunos de uma famosa escola preparatória da Costa Leste norte-americana disseram que o Ritalin, utilizado como facilitador dos estudos, era tão comum que os alunos de vez em quando ostentavam um círculo de pó em torno das narinas depois de aspirar a droga. O hábito se espalhou entre os alunos. "Ele está diante de nós", confirmou Eric Heiligenstein, diretor clínico de psiquiatria da University of Wisconsin Health Services. "Está acessível, se você quiser usá-lo." Embora a quantidade de Ritalin consumido pelos estudantes universitários seja quase impossível de quantificar, Heiligenstein afirma que o número de usuários pesados é "muito pequeno", embora supere os que utilizam modafinil, porque o Ritalin está "disponível, é relativamente barato e tem um perfil bastante seguro".
Entre os esparsos resultados sobre os efeitos dessas drogas na saúde das pessoas, pelo menos um estudo sugere que um tratamento de demência de longa duração melhore as funções cognitivas em pessoas normais. Em julho de 2002, Jerome A. Yesavage da Stanford University, Peter J. Whitehouse da Case Western Reserve University e seus colegas publicaram um estudo na revista Neurology avaliando o impacto do donepezil no desempenho de pilotos. O donepezil, comercializado como Aricept, é uma das muitas drogas aprovadas pela FDA para diminuir a perda progressiva de memória que atinge pacientes com a doença de Alzheimer. Os pesquisadores treinaram dois grupos de pilotos num simulador de vôo do Cessna 172. Um grupo recebeu placebo enquanto outro tomou cinco miligramas de donepezil, menos que as doses convencionais para portadores de Alzheimer, durante 30 dias. Depois disso, eles testaram os dois grupos novamente no simulador.

Yesavage e seus colegas solicitaram que os pilotos fizessem várias curvas - pediram que executassem algumas manobras complicadas de tráfego aéreo e eles deveriam reagir a diversas emergências durante o vôo, incluindo uma queda na pressão do óleo indicada pelos instrumentos do painel. Um mês depois do início do treinamento, os pilotos que receberam donepezil tiveram um desempenho significativamente melhor que o grupo de controle, com uma performance superior nas tarefas de aproximação de pouso e na operacionalização das emergências. Yesavage, que espera realizar um amplo estudo brevemente, observou, no artigo da revista Neurology, que "se for possível melhorar cognitivamente indivíduos intelectualmente normais, fatalmente surgirão algumas questões relevantes de ordem legal, regulatória e ética".

Se estas questões surgirem de fato para o donepezil, modafinil e outras drogas existentes, elas também serão necessárias para a nova geração de drogas da inteligência, principalmente porque elas se baseiam na abordagem mecanicista da memória, que poderia ser particularmente poderosa - ao contrário das descobertas casuais que conseguimos até agora. Embora todos os executivos da área de biotecnologia critiquem a idéia da droga da moda, todos têm conhecimento do que vem acontecendo. "A indústria pretendeu evitar as drogas estimulantes nos anos 90", disse um neurocientista. "Mas eu acho que o Viagra acabou mudando um pouco a opinião das pessoas."

Melhorando a Memória

À medida que ele me acompanhava pelas instalações da Memory Pharmaceuticals ao norte de Nova Jersey, Axel Unterbeck enfatizava cada parada do passeio com a frase: "muito sofisticado". Alto, charmoso, bem vestido, Unterbeck, presidente e diretor científico da empresa, invocava as mesmas palavras repetidamente - no laboratório de eletrofisiologia onde meia dúzia de biólogos anotava o efeito de potenciais drogas estimuladoras da memória em neurônios isolados e fatias de cérebro de animais. "Eles trabalham enquanto conversamos", disse Unterbeck orgulhosamente, apontando para uma máquina de US$ 250 mil que determina rapidamente a concentração de metabólitos do sangue. "Muito sofisticado". Tudo na Memory Pharmaceuticals revela o estado-da-arte da ciência e uma ambição levada ao extremo - seus padrinhos intelectuais e fundadores (Eric R. Kandel, da Columbia University e Walter Gilbert, de Harvard, ambos agraciados com o Prêmio Nobel), a linda paisagem dos jardins da empresa com bétulas e jacintos ladeando a entrada, até a opulência de seus vizinhos, a matriz da Mercedes Benz logo adiante. Fundada em 1998, a empresa está apostando muito dinheiro - US$ 41,5 milhões de uma recente captação de financiamentos, além de um negócio desenvolvido em colaboração com a Roche, a gigante suíça de produtos farmacêuticos, que RITALIN, normalmente prescrito para crianças com transtornos de hiperatividade com déficit de atenção, tem sido usado por estudantes para aumentar a perspicácia mental.

pode chegar a US$ 150 milhões - que lhe permitirão navegar tranqüilamente pelas águas das descobertas das drogas com maior eficiência, desde o início do processo, através da identificação de problemas toxicológicos e farmacocinéticos (metabolismo das drogas) nas drogas que melhoram a cognição. "Aí está o futuro", disse Unterbeck, "e estamos em posição privilegiada para transferir a ciência para as drogas da inteligência."
No início de 2003, a Memory Pharmaceuticals iniciou testes de segurança da sua primeira droga da inteligência, um composto chamado MEM 1003, em voluntários saudáveis em Londres. O composto regula o fluxo de íons de cálcio nos neurônios e se destina a restabelecer o equilíbrio desse elemento nas células do cérebro que foram rompidas pelo Alzheimer, por incapacidade cognitiva branda ou por uma condição conhecida como demência vascular. "Até aqui, este programa parece excepcionalmente bom em termos da farmacocinética e da toxicologia", disse Unterbeck. "O composto parece ser muito seguro." Mas talvez as drogas potenciais da inteligência mais visadas pela Memory sejam um composto chamado MEM 1414, porque esta droga poderia controlar a cadeia molecular, identificada pelos laboratórios de Kandel e Tully como crucial para a conversão das experiências de curto prazo, em aprendizado na memória de longo prazo. Esse processo envolve uma proteína muito poderosa conhecida como Creb (ver box na pág. 53).

Em meados dos anos 90, Tully e Jerry Yin do Cold Spring Harbor Laboratory modificaram geneticamente uma mosca-das-frutas que tem, entre os insetos, o equivalente da memória fotográfica dos humanos. Essas moscas aprendem a memorizar uma tarefa depois de realizar somente um exercício de treinamento, enquanto as moscas comuns precisam de 10 sessões práticas. Elas conseguem este fantástico aumento de memória permitindo a saída de um único gene chamado Creb. Tanto o laboratório de Tully quanto o de Kandel mostraram que mesmo animais simples aprendem uma tarefa e a retêm na memória. As sinapses utilizadas para formar a memória são remodeladas e intensificadas num processo que exige a ativação de genes. Na verdade, a formação da memória libera uma molécula mensageira dentro da célula conhecida como AMP cíclica.

Essa molécula dispara a formação de uma proteína que se liga ao DNA da célula nervosa, ativando assim uma seqüência inteira de genes - juntando a massa aos tijolos - para construir as sinapses que consolidam a formação da memória. Esta proteína fantástica é chamada de proteína de ligação AMP cíclica com elemento de resposta ou Creb. Quanto mais Creb houver circulando em torno de um neurônio, mais rapidamente a memória de longo prazo vai se consolidar. Este, pelo menos, foi o caso que se verificou com moluscos, com a mosca-das-frutas e com camundongos. A questão, agora, é saber se vai funcionar também com humanos.

Normalmente, outro composto químico - fosfodiesterase (PDE) - rompe a AMP cíclica na célula. Farmacologicamente inibidora, a fosfodiesterase torna disponível mais Creb por períodos maiores - em teoria, intensificando e acelerando o processo de formação da memória. No entanto, os inibidores à base de fosfodiesterase têm reputação duvidosa no meio farmacológico: uma versão foi aprovada no Japão para o tratamento de depressão, mas as moléculas têm um histórico de náuseas. Por outro lado, os inibidores PDE têm se saído muito bem nos testes pré-clínicos para melhorar a memória, de acordo com pesquisadores da área, porque eles permitem que mais Creb permaneça na célula durante o aprendizado, o que promove a consolidação da memória. Por isso, tanto a Memory Pharmaceuticals quanto a Helicon Therapeutics estão desenvolvendo drogas com base em um tipo de molécula conhecida como PDE-4. A Helicon também está trabalhando com uma droga que elimina lembranças, um composto que poderá bloquear ou apagar acontecimentos perturbadores. "Temos evidências pré-clínicas sugerindo que essa molécula pode bloquear seletivamente lembranças traumáticas" afirma Tully.

A Memory Pharmaceuticals está particularmente em destaque, por causa da molécula MEM 1414 - um fascínio ratificado em julho de 2002, quando a Roche concordou em se associar para o seu desenvolvimento. "O que é interessante é que você encontra, em macacos e roedores, os mesmos tipos de incapacidade de memória associadas ao envelhecimento dos humanos", avalia Unterbeck. Cerca de 50% de animais idosos são incapazes de formar novas memórias, embora a MEM 1414 tenha restaurado os déficits relacionados ao envelhecimento nas lembranças de animais a níveis próximos dos normais. A empresa iniciou a fase I de testes (de segurança) no começo deste ano.
Mesmo que os testes clínicos progridam da forma prevista, chegando à aprovação pela FDA, o processo pode ser lento e arriscado. "A MEM 1003 poderia estar no mercado em 2008", diz Tony Scullion, diretor-executivo da Memory "e o 1414 não estaria muito atrás." Mas como Unterbeck já sabe, pela sua própria experiência na Bayer, a promessa de uma nova droga não surge de uma hora para outra, mesmo quando o grande número de pacientes envolvidos nos testes da fase III possa revelar não somente eficácia não muito satisfatória e efeitos colaterais maiores que os esperados. "As empresas no ramo das drogas investiram US$ 500 milhões" , diz ele "e você acaba falhando na fase III." Larry Squire, pesquisador renomado nas pesquisas da memória, da University of California em San Diego acrescenta: "Na verdade, você poderia dizer que toda a história deste campo de pesquisa tem se concentrado no controle dos efeitos colaterais".
Além disso, são poucos os pesquisadores que acreditam que a Creb seja a melhor ou a única via para chegar a uma droga de impacto para a memória. "Não há uma forte conotação biológica nas seqüências da Creb, principalmente em mamíferos", evidencia um neurocientista que prefere não ser identificado. "Os alvos não foram bem estabelecidos e se começou a falar da Creb por todo lado, muito antes do que se deveria." Outro cientista respeitado me disse que até um consultor científico da Memory Pharmaceuticals expressou, em particular, sua opinião de que as novas drogas não têm se mostrado mais eficientes que a cafeína. A Creb não é o único portal para as terapias da memória. Tsien, o responsável pela criação do camundongo inteligente de Princeton, está procurando um caminho diferente para a memória envolvendo o receptor do neurotransmissor NMDA que está limitado à parte anterior do cérebro. A tecnologia da ampaquina da Cortex está voltada para um sistema neurotransmissor diferente. "Falando francamente, ainda sabemos muito pouco", diz Tsien. "Não conhecemos os princípios nem os códigos de funcionamento da memória. Conhecemos muitos genes, mas não temos um quadro coerente e eu acho que esse é o problema que afeta todo o campo de pesquisa e do desenvolvimento terapêutico."
Os pesquisadores estão resignados a continuar o debate bioético sobre as drogas, não importando se a ciência é prematura ou se o futuro é incerto. "Nós já comemoramos por ter mostrado que as drogas vão funcionar", admite Tully, que tem estado muito atento às implicações sociais da pesquisa científica. "Depois de dizer isso, será que eu acredito que a droga vá ser utilizada indiscriminadamente, se funcionar clinicamente? Acredito que sim. Em princípio, esses compostos poderão melhorar as habilidades motoras necessárias para tocar piano, para aprender um segundo idioma. O uso de drogas sem autorização aconteceu com o Viagra e não parou com o Viagra, não parou com o Ritalin e não parou com as anfetaminas. O fato é que a prescrição de drogas sem autorização é perigosa por causa dos efeitos colaterais não previstos. Você pode desenvolver problemas psicológicos desconhecidos. Realmente, nem vale a pena falar disso, a menos que seja como ficção científica. Precisamos esperar até aplicar essas drogas nas pessoas e ver o que acontece."
Embora os executivos de empresas biotecnológicas refutem o conceito de droga da moda para as pílulas da inteligência, o precedento aberto pelo viagra reforça a idéia de essa tendência repetir-se.

Considerando que provavelmente precisaremos de uns cinco ou dez anos até "ver o que acontece", certamente estamos fadados a ler muito mais sobre drogas da inteligência antes de termos qualquer pílula nas mãos. Mas um alerta deve ser feito, lembrando de um caso que aconteceu quando eu estava visitando Tsien em Princeton. Ele estava me levando para o abrigo de animais, onde vivia o seu camundongo "inteligente" modificado geneticamente, quando um dos técnicos do laboratório passou por nós carregando uma ratoeira com dois ocupantes infelizes. Tsien olhou para os dois roedores cognitivamente melhorados na ratoeira, meneou a cabeça e disse: "Não tão inteligentes".

Read more...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

“O analfabeto emocional”




O Sentimento


 Como fator da máxima contradição humana;  tendo a função de afastamento de uma decepção, ao mesmo tempo em que gera uma carência abissal nas necessidades afetivas do sujeito. Infelizmente nenhum método de educação ensina alguém sobre a dificuldade num relacionamento.

A paixão e sedução contidas na questão do amor encerram quase sempre elementos de poder, disputa e controle sobre o parceiro. O sentir-se “embriagado” pela paixão diz muito mais da necessidade de fuga das pessoas para a grande infelicidade vivida no dia a dia, assim sendo, tal fenômeno age como uma espécie de droga ou narcotizante da falta de sentido em relação a outro drama moderno, a rotina. A sedução atua quase sempre no predomínio estético ou sexual sobre determinada pessoa. É o uso intencional de um instrumento condicionado e valorizado pela sociedade, objetivando a adulação das características narcisistas do sujeito. Em tese também podemos definir que tanto a paixão quanto a sedução são uma espécie de rebelião ou protesto inconsciente contra a inevitável morte ou insatisfação no relacionamento. Tentam passar um ápice de uma durabilidade do gozo ou êxtase absolutamente questionável.
A sedução é a mais tenra ilusão de que o outro detém a chave perfeita para a satisfação completa de nossos desejos, e sempre nos esquecemos que preço o mesmo irá cobrar por tal tarefa; já a paixão é o sonho máximo de que seremos correspondidos constantemente, de que jamais poderá haver uma desaceleração da vontade e prazer.

A sensibilidade abre outro terreno árduo para sua compreensão plena. Freqüentemente é cobrada por um ou ambos os parceiros, embora mais tarde se queixem de seus efeitos colaterais. Outro grande erro é achar que a mesma só se manifestaria no pólo positivo, quando a grande verdade é que funciona como uma esponja que absorve todo tipo de amargura ou mazela emocional. Não basta apenas perceber o problema da contradição, dialética ou a oposição nos diferentes tipos de vivências e sentimentos, mas, sobretudo, enxergar como foram construídos no decorrer de nossa história de vida. O amor existe e sem nenhuma dúvida é uma necessidade vital, o grande problema é sincronizar sua dose, pois ambos os pólos descompensados podem ser fatais; tanto a falta que gera a mais pura carência, ou o que alguns acham que seja seu superlativo, o ciúme, também totalmente destrutivo em quase todas as relações. O importante não é e nunca foi à definição do que seja o amor, mas apenas a raridade do fenômeno nas diferentes culturas e épocas. O romantismo, a poesia e outros adornos apenas deram pistas ou serviram de muletas na construção de tão complexo sentimento humano. A tese central deste texto é exatamente a ligação do desejo ou necessidade com outras tarefas que são colocadas concomitantemente para a pessoa; mas como somos na maioria das vezes extremamente alienados, achamos que resolveremos um problema de cada vez.
O que precisa ser pesquisado é justamente como e quando alguém consegue obter a experiência do amor. Alguns advogam que o mesmo aparece após a vivência dolorosa de experiências desagradáveis, se mantendo intacta a esperança e fé do sujeito no seu potencial afetivo, diria que é algo bem raro em nossa atualidade, dominada por um rancor borbulhante em relação ao passado de frustração e mágoa. Estes dois últimos sentimentos produzem uma impermeabilização completa em relação a qualquer nova tentativa de entrega. Nossa era está repleta dessa absurda neurose, sendo que se procura a mais absoluta perfeição ou garantia para após começar a suposta troca. Tal prática nefasta revela não apenas o medo exposto anteriormente de uma nova frustração, mas que a pessoa que se deixou abalar não tem condição alguma para a experiência do amor, justamente por essa fragilidade e incapacidade de lidar com a perda. É uma criança completa no plano emocional, tentando forçar uma adequação às suas expectativas estéticas ou econômicas. Obviamente tal indivíduo não almeja em hipótese alguma a contemplação do amor, mas exclusivamente a veneração de seu conteúdo ambicioso e egoísta, com a desculpa de que é alguém especial e que precisa valorizar a si próprio, quando na verdade está o tempo todo participando de uma espécie de leilão de suas emoções.
Na verdade todas as barreiras citadas que impedem a verdadeira troca dizem de um ser que não deseja expor sua fragilidade, justamente por se considerar inferiorizado no plano emocional, e concomitante medo de ficar envolvido, pois para tal tipo de pessoa tal fenômeno é uma derrota, pois vê todo o relacionamento sobre a ótica do poder ou quem domina em tal esfera; então para fugir do conflito busca exigências irreais. Boa parte da procura da estética se encerra neste quadro, se escondendo uma grande deficiência afetiva embaixo de uma perfeição corporal sancionada pelo sistema de consumo.

Alguns filósofos e psicólogos tentaram definir o amor como uma experiência em que há maior empenho na satisfação do outro do que com suas próprias necessidades. Embora tal conceito seja louvável do ponto de vista humanista, diria que além desta capacidade inata para perceber o outro, muito mais importante é ter a certeza do potencial afetivo da pessoa que se ama, tendo a confiança de que a mesma reagirá com gratidão quando devotarmos para ela os mais nobres investimentos de nossa alma; ao contrário da inveja e incômodo que muitas pessoas demonstram ao serem ajudadas ou amparadas; enfim o desafio de todos é aferir se o outro também é capaz não apenas de trocar, mas se valoriza aquilo que o parceiro julga ser suas qualidades mais profundas. A baixa estima é um câncer para o processo afetivo. Nenhuma chama permanece acessa sem o incremento de determinado combustível. A derrocada amorosa se dá quando um dos dois apenas almeja retirar sem repor, ou o outro também não faz a mínima questão de crescer ou vivenciar algo novo. O problema de alguém se tornar insensível não diz apenas de uma fuga perante o medo do sofrimento, pois todos querendo ou não passarão por tal infortúnio; o que ninguém admite é vivenciar algo único, sendo assim a chamada opção por não ser sensível (do ponto de vista positivo como expliquei acima), é se afastar da sensação de solidão que um sentimento intenso produz. Quase ninguém almeja ser pioneiro no terreno emocional, a liderança e poder se focam no plano material. A prova maior disso tudo é que sempre um dos parceiros se queixa de que o outro doa muito menos na relação, como se estivesse se preparando para uma retirada ou abandono.

Outro fenômeno moderno no terreno afetivo é a questão do tédio precoce nos relacionamentos. Este fator está associado diretamente ao transporte do consumismo social para a esfera privada do indivíduo. É um tanto óbvio tal ocorrido. Como conseguiremos algo um pouco duradouro se nossa mente é corrompida diariamente pelo descartável produzido pelo desejo de consumo? Boa parte do fracasso nos relacionamentos é produzida pela falta de inteligência e percepção deste acontecimento diário. Que as pessoas gostam de nadar na ilusão até nem discuto, mas se cegar perante uma contaminação incisiva é no mínimo trabalhar para sua infelicidade própria. Em parte a própria psicologia explica o fascínio da pessoa pela dor e queixa constante, forçando o ambiente a consolar tal indivíduo tão desprotegido.

Pensemos na questão do ciúme. O mesmo foi eternizado como uma insegurança ou fraqueza emocional do sujeito. Isto é uma análise superficial, pois em verdade o ciúme é o mais profundo sinal ou indício de uma futura ruptura ou perda. A pessoa presa de tal sentimento não visualiza que seu excesso nada mais é do que uma antevisão da ruína de seu projeto afetivo. O ciumento amplifica suas emoções negativas e traz também as do parceiro para seu caldeirão íntimo de sofrimento. Outra essência do ciúme é o mais puro complexo de inferioridade, pois a pessoa já intuiu que será derrotada neste campo, ou que poderá haver repetição de vivências dolorosas que já experimentou. Tal processo pode acompanhar o sujeito à vida toda, caso o mesmo não procure ajuda psicológica para desfazer tal trava emocional. E sobre a carência, como se desenvolve?A pessoa que cresceu sob a ótica de tal condição acaba desenvolvendo um mecanismo curioso de compensação. Ao mesmo tempo em que se sente negligenciada em seu direito afetivo histórico, têm a convicção interna de que algo muito especial ainda estaria por vir; o problema é dimensionar o tempo que irá suportar tal espera, sendo que o tédio ou desânimo não tardarão a assolar tal indivíduo. A carência é a exploração máxima da paciência e expectativa perante um retorno afetivo do outro, que pode nunca ser efetivado. É a interrupção plena da liberdade para escolher novas pessoas que possam satisfazer a necessidade de amor do indivíduo, sendo que o mesmo irá insistir na sua dor pessoal de rejeição e conseqüente reparação.

O sofrimento afetivo mais cedo ou tarde cobrará uma definição. Ou irá ocorrer uma busca desenfreada por algum tipo de reparação como foi dito, ou a energia será direcionada a algo novo. O apego é o pilar máximo da sustentação do processo da carência. É fato que boa parte do esforço infrutífero gasto por determinada pessoa diz de algo que jamais poderá ser reativado, ou mesmo que o fosse talvez não teria a mínima importância. Há duas formas de se lidar com a perda e todos já as notaram: nos tornarmos mais fortes e reagirmos com toda a tristeza oriunda do evento traumático, gerando um dever de melhorar em conflito com a dor; a segunda é a depressão propriamente dita, sendo a recusa da reação por não enxergar um sentido além do apego ao evento mórbido.

A trajetória emocional se assemelha à órbita elíptica de um meteoro que acaba sempre retornando infinitamente. É curioso que quando uma terapia retira em parte a angústia da pessoa, se volta exatamente ao ponto onde tudo começou, segundo inúmeros relatos de pacientes. Este é um dos segredos mais impressionantes da mente humana, devendo ser estudado a fundo. O conflito não segue uma órbita hipérbole, passando apenas uma vez perante determinado ponto, mas têm exatamente essa função de repetição de um espaço já percorrido. Foi exatamente esta questão que FREUD interpretou como a compulsão para repetir determinado evento traumático. O fato é que tal retorno se dá pelo lado afetivo recalcado, sendo que para FREUD a libido ou energia sexual seria o ponto de concentração energética mais forte do ser humano. O desejo se alimenta então justamente de seu oposto, a frustração, e se a mesma assolou o indivíduo de uma forma intensa, irá gerar um tipo de volição ou expectativa quase que eterna perante a realização de um fato almejado. Novamente se torna desnecessário dizer que o apego perante algo tão remoto bloqueará totalmente a capacidade atual da pessoa pela busca de seu prazer pessoal.tá-se dizendo aqui que o lado emocional caminha em círculo, caso não seja quebrada sua estrutura neurótica. Sem dúvida alguma este é um trabalho que poucos se deram conta de sua necessidade de efetivação. É justamente neste ponto que entra o problema do amor, pois o mesmo deve ser algo totalmente novo e original com outro ser humano, no qual se confiará a experiência do desejo e prazer; caso não ocorra tal situação a relação se torna mera arena para se reviver todo o drama familiar passado e o mais legítimo complexo de inferioridade. A experiência real e profunda do amor implica em não se sentir tão afetado, humilhado ou destruído pelo passado.

Quando realmente podemos dizer que conhecemos nosso parceiro amoroso? Com toda a certeza quando conseguimos visualizar todo o seu potencial construtivo e destrutivo. Este último é freqüentemente confundido com a agressividade. Claro que não estamos falando aqui da violência física, mas tentando desmistificar o problema do que realmente seja a agressão. Uma das coisas mais cruéis nas relações é justamente a sedução perante uma pessoa e conseqüente retirada do relacionamento. Isto infelizmente já virou uma espécie de jogo sádico moderno. Ao invés de nos iludirmos constantemente com a beleza ou fascínio sexual por alguém, seria interessante avaliarmos a capacidade dessa pessoa para a reciprocidade. O mais perfeito retrato da sala de espera do inferno se dá quando um dos parceiros sente que o outro é o mais puro e ideal objeto de amor para o mesmo, porém, não ocorre à mínima seqüência ou correspondência. A análise do problema do amor não correspondido passa por vários tópicos, mas o principal é a escolha de uma espécie de ícone incapacitado para a troca. A busca pela beleza ou sensualidade que pode acarretar a não correspondência diz muito mais de uma pessoa imbuída de um profundo complexo de inferioridade, que busca na outra uma compensação de sua problemática, tornando-a um troféu que possa encobrir seu drama pessoal não resolvido. É a princípio um acordo mútuo entre duas pessoas extremamente ambiciosas, uma por ser venerada por seus dotes físicos, e a outra para provar aos outros sua glória por ter conseguido algo tão valioso apesar de sua limitação na autoestima; não precisamos lembrar que tal contrato possui uma curta duração.

Confesso que a coisa mais estranha ou sombria que ouvi na vida foi determinado relato de uma pessoa que disse ter encontrado o parceiro ideal, mas estava morrendo de medo do amor propriamente dito. É chocante tal relato justamente pelo sujeito intencionalmente abrir mão de uma experiência de quase puro êxtase. A primeira explicação já foi dada acima; a pessoa encara o amor como uma submissão ou inferioridade, buscando um parceiro que se doe muito mais do que ela. Mas como se manifesta o medo do amor nos homens e mulheres? Nos primeiros historicamente pelo desleixo, indolência e a infidelidade conjugal, dando uma mensagem explícita de que jamais criará raízes profundas em qualquer tipo de relação. Este problema está associado também à questão da timidez, pois tal distúrbio tem a característica de afastamento de todo tipo de envolvimento emocional profundo. O tímido apenas ensaia gostar e amar, sendo que sua meta principal é cavar apenas uma trincheira de isolamento e proteção perante o contato social. Seu medo central é passar por uma situação de prova, e o amor é o teste supremo da intimidade de um ser humano, assim sendo, irá renegar todo tipo de entrega, embora tal problema pertença a ambos os sexos.

Na mulher o medo do amor principalmente em nossa atualidade se dá pela agressividade ou qualquer tipo de cobrança irreal perante o parceiro. A própria condição hormonal da mulher é a mais pura prova disso. A tensão pré-menstrual exacerbada diz psicologicamente de uma mulher que reprimiu ou não sabe lidar com seu potencial agressivo, e a alteração hormonal é a válvula de escape para todos os seus instintos negados, tomando por completo a pessoa. É como um estado de embriaguez em que se expõe toda sua agressividade; esta no lado masculino visa à competição, embora as mulheres também adotem tal conduta. Mas para as mesmas a agressividade é o bloqueio central que interrompe a entrega. A análise psicológica profunda de tal conduta irá revelar que tal pessoa está revivendo longínquas experiências paternas com seu atual parceiro, onde o núcleo é definir emocionalmente a figura masculina como sendo raivosa, embora isto também não deixe de ser uma projeção de seu emocional. A catástrofe afetiva é a intersecção mórbida entre pai e amante, não um complexo de Édipo como a psicanálise enxerga, mas a convicção feminina de que o parceiro sempre a usou para desafogar seus mais sádicos instintos. A seguir começa a surgir o ódio e desejo de retaliação. Na verdade a culpa do homem por tal situação é encarar a afetividade como uma espécie de esquema bancário, achando que sua companheira tem o dever inato de suprir todas as suas necessidades pessoais, com o mínimo de troca possível, esta sim é a essência do chamado machismo, não desejar enxergar, ajudar ou colaborar com sua parceira. Para a mulher, restou o pânico atávico de se sentir usada o tempo todo.

O problema da mulher no campo afetivo e sexual é exatamente se sentir instável perante o poder que detém sobre o gozo e satisfação masculina. Outra contradição é se irá se aliar psicologicamente a uma mãe traída e denegrida pelo pai, ou se simplesmente realiza seu potencial amoroso. Como poderá se libertar da servidão voluntária e involuntária perante uma genitora queixosa e que usa freqüentemente sua infelicidade para manipular o ambiente? A questão central é se tanto homens e mulheres realmente conseguem investir no relacionamento, ou se tornam apóstatas perante o amor, apenas ruminando seu passado familiar infeliz. Todo o ideal do romantismo e religiosidade caem por terra, pois o ser humano jamais esteve preparado para a experiência do amor, lhe faltando à educação adequada para a execução de tal meta. O “analfabeto emocional” está encarcerado de todo tipo de sentimento destrutivo que aborta um relacionamento. Um projeto sério de alfabetização afetiva deve levar em conta todas as etapas do desenvolvimento humano. Nas crianças e adolescentes redobrada atenção em relação aos malefícios do mimo e narcisismo, pois ambos colocam a pessoa num patamar onde jamais conseguirão enxergar o outro. Os pais devem escolher se seus filhos serão especiais por competirem e humilharem seus rivais, ou então se estarão atentos e receptivos para uma troca onde todos tenham seu espaço e importância na relação.

Nos adultos o projeto eficiente de alfabetização emocional é desenvolver formas maduras de lidar com todos os tipos de sentimentos negados ou negativos: ódio, raiva, rancor, inveja, mágoa, tristeza, vingança, frustração, apego, saudade mórbida, dentre outros. Há também a necessidade de se perceber o custo na esfera afetiva no decorrer da vida, seja o preço a ser pago pela solidão, ou a carga que recebe da pessoa desejada, assim como o impacto de sua conduta emocional perante as pessoas mais próximas. A experiência do amor seria muito mais fácil para alguém que já a tenha saboreado plenamente no âmbito familiar. Embora tal conceito possa parecer um tanto antiquado, ainda é totalmente válido na dinâmica dos relacionamentos. Quando não se teve uma experiência de tão ampla magnitude e importância, a tendência é buscar fora do ambiente privado e familiar tal necessidade básica, com todo o atraso possível; o problema é que quando alguém procura algo imbuído de carência e privação afetiva, despertará ao mesmo tempo todo o sentimento negativo descrito anteriormente, pois o amor obedece também a condutas em conformidade com o desenvolvimento e crescimento da pessoa, muitos não percebem que clamam pelo mesmo de uma maneira totalmente inadequada ou infantilizada. A cura não passa apenas pelo encontro, até porque ninguém jamais terá certeza do amor em nossa era perante o parceiro, mas principalmente por se revelar e exigir que o outro tome atitude semelhante; desnudando seu ser.

Outro ponto indiscutível é que tendo ou não um relacionamento, quase todos estão tristes, descontentes ou insatisfeitos. Todos os elementos descritos neste texto dizem do correlato do amor, que é o ódio. Sentimento totalmente negado pela cultura e moralidade, mas que assola totalmente os relacionamentos. O primeiro passo para o incremento do ódio é não ter a consciência de que as pessoas mais íntimas é que colaboram para o crescimento de dito sentimento. O início sempre é algum tipo de contrariedade ou injustiça, passando para uma experiência de ligação diária e constante em relação ao objeto ou pessoa que causou a dor tão insuportável. Mas o ódio maior é quando se tem a certeza subjetiva de que o outro poderia completar totalmente a pessoa, mas se recusou em seu esforço ou competência para tal finalidade, conforme apontei acima. O ódio começa a surgir quando percebemos nossa miserabilidade afetiva, e o quanto está se mendigando afeto e atenção. O ódio é uma espécie de ritual ou neurose obsessiva, algo como um totem para que a própria pessoa o cultivando constantemente se lembre da experiência da dor e tente não repeti-la. O problema é que tal processo se torna quase que infinito; é como os orientais faziam uma alegoria de uma serpente comendo a própria cauda, o que representaria um ciclo interminável.

A devoção a um evento tão doloroso certamente nunca foi o melhor instrutor ou anteparo para não repetirmos determinada tragédia. A lembrança diária de um evento traumático em hipótese alguma forma uma blindagem para que tudo não possa se repetir, muito pelo contrário, o efeito é uma contaminação profunda do potencial emocional da pessoa. O preço do ódio passa pela amargura, e jamais alguém poderia acertar sua dose, pois a potência do mesmo é devastadora. Como seria possível usar um sentimento que já nasce com um déficit temporal? Se a reação é instantânea, advém a fúria com conseqüências gravíssimas, afora a culpa e arrependimento. Se optarmos pela espera da reação, o fato doloroso perde o sentido, e apenas resta o desejo de vingança. A grande descoberta é perceber primeiramente que talvez nossas escolhas não foram tão acertadas, pois acabamos atraindo indivíduos incapazes de compartilhar sonhos e desejos.

O ódio é essencialmente um cunho básico de projeção. É vermos a centelha mais íntima de nosso ser no outro com o aviso inexorável de quão difícil seria conseguirmos mudar, então partimos para o ataque e ruminação emocional dolorosa. A privação histórica de laços de ternura e demonstração de afeto é o combustível máximo de tal fenômeno. Retomando a questão da família, o ódio vai se solidificando à medida que seus membros vão fazendo um balanço completo de toda a agonia e miséria afetiva que experimentaram. Neste ponto começa um processo confuso e altamente neurótico, sendo a confusão de papéis fator reinante. A pretensa justiça pessoal se torna mesquinhez; a impulsividade totalmente efêmera; a vingança denota apenas uma prova de apego inútil e imaturo, aliado ao medo da incapacidade para criar ou recomeçar. Qual seria então o equilíbrio entre não vivenciar o caráter rancoroso corrosivo do ódio e também não insuflar o espírito pessoal com uma sensação eterna de injustiça e indignação que fazem mal do mesmo jeito? Para responder, temos de retomar a questão da culpa, pois a mesma foi e é um dos principais fatores da socialização e permanência da civilização, caso contrário, teríamos uma eterna luta pela supremacia ou complexo de superioridade.

De certa forma, é o que vemos no meio social, assim sendo, a culpa passa a ser o bônus incompleto que a biologia, genética ou antropologia deixou de legado para que o ser humano pudesse avançar para um outro plano de relacionamento. A civilização ao contrário do que FREUD descreveu, não é a sublimação da sexualidade para fins culturais, mas meramente o controle do ódio entre seus membros; sendo a manipulação plena do instinto para a sobrevivência do ego pessoal e que tal ato também traga um benefício coletivo. Crescer sozinho é apenas competição ou isolamento, sendo que a verdadeira evolução ou revolução é o transporte de características adquiridas e autoconhecimento para um patamar em que várias pessoas compartilhem uma experiência de êxtase perante a descoberta do sentido da existência pessoal e formas de manejar a sobrevivência sem aniquilar seus semelhantes. O objetivo final não é desanimar ninguém, mas que todos percebam a dialética da busca do prazer; sem a alfabetização emocional mencionada, a suposta satisfação se torna privação, o gozo, recalque, a convivência, palco constante de luta e conflito, e o desejo se tornará um instrumento de desenvolvimento de doenças psíquicas e físicas.

Mais importante do que procurar a gênese do ódio é descobrir a necessidade de agregação do mesmo em determinada pessoa ou evento. O chamado “foco do ódio” é a máxima liberdade para a consecução do êxtase do espírito destrutivo, aniquilando por completo a rivalidade ou a frustração que alguém pode causar. A ciência da psicologia até o presente analisou o fenômeno como sendo a necessidade do sujeito de se tornar vítima; embora tal visão esteja mais do que correta, é fundamental se acrescentar um fato: o impulso ou imperiosidade de se arquivar uma reserva mental destrutiva. Mas em que circunstância seria utilizada? O ódio pode ser uma defesa prévia contra qualquer tipo de ataque ou rejeição, assim como assinala a dificuldade de determinada pessoa em preservar seus relacionamentos. Ambos traços de caráter assinalados vivem constantemente a tragédia, mas o ódio também é uma fronteira hermética contra o desespero, que é a prova final do esforço infrutífero na capacidade pessoal de despertar interesse para alguém. Nossa cultura estabeleceu uma associação religiosa quando se fala em ódio, trazendo sempre em paralelo a questão do perdão. O mesmo se tornou um mero instrumento propagandístico para todas as religiões, pois muito mais importante do que falar em perdão é verificar se a pessoa tem estrutura e condição psicológica para efetuar tal tarefa. Esquecer o evento traumático é superar a sensação de miserabilidade na mais íntima esfera pessoal, desenvolvendo recursos que sempre assinalem para o indivíduo que ele pode novamente recomeçar. O perdão só é viável quando seu pilar mais forte, o apego é atacado frontalmente; o grande problema é que o esquema social acarreta uma imensa sensação de déficit na área do prazer e realização pessoal.
A coisa mais comentada pela psicologia e conseqüentemente receitada em um século de sua existência foi o preceito de que a pessoa deve lidar melhor com sua ansiedade, angústia ou com tudo o que a chocou, mas como isto é possível, com tantos processos paralelos e sabotadores da paz de espírito? Esta sem dúvida alguma é a pergunta suprema e inacabada para a cura ou profilaxia de todo conflito ou neurose. A psicanálise advogou a necessidade de remoer as antigas experiências infantis no sentido da pessoa perceber que sua energia está retida em determinada etapa do desenvolvimento humano, ou como FREUD dizia, manteve “tropas em excesso” em determina área que clama a todo o momento por uma satisfação ou descarga. A psicologia comportamental enfatizou que o sujeito deveria mudar sua conduta diária, no sentido de perceber que suas atitudes estão completamente viciadas para a obtenção do crescimento e satisfação pessoal. Não se trata de desenvolver a força de vontade propriamente dita, mas que a pessoa perceba a importância e impacto de como age perante seu meio; como suas ações se transformaram num ritual de prejuízo pessoal. Passado e presente não deixam de ser a dicotomia ou luta de opostos para a obtenção de uma melhora psicológica. Tanto a pessoa que não consegue repor sua origem familiar de carência, quanto àquela que não consegue alterar um comportamento inadequado, sofre em demasia e isto é um fato absoluto. Mas neste ponto quero estabelecer um outro conceito da neurose.

Quando falamos em distúrbio neurótico, não podemos apenas pensar em sintomas ou conflitos. Temos de entender que a neurose atinge o ápice quando em todas as áreas que a pessoa atua (profissional, afetiva e sexual), o resultado é o mais puro “stress” para si mesma ou o meio circundante. A parceria de ambos os fenômenos nos dá uma dimensão segura de que a pessoa não consegue manter o equilíbrio ou controle sobre sua conduta e regularidade da satisfação. O que poderíamos chamar de suposta “felicidade”, é constantemente inundada por todo o tipo de vivências ou lembranças de carência ou privação. A neurose em última instância é a compulsão inconsciente para sabotar o ritmo biológico e mental, desprezando a autoestima e anulando o autoconhecimento. Convencionou-se o preconceito que ir ao psicólogo é sinônimo de distúrbio ou loucura; a cada dia penso exatamente o oposto, há um fosso intransponível entre ambas, pois a terapia é um espaço primordialmente para uma reflexão lúcida acerca dos sentimentos e condutas que afetam o indivíduo e as pessoas ao seu redor. A terapia serve para os que não fizeram seu dever de casa nas seguintes áreas: amor próprio, afetividade, sexualidade e poder pessoal. Serve ainda aos que se conscientizaram de que seu mais profundo desejo se transformou num quebra-cabeça pela dificuldade de realização, mas que a energia que o mantém permaneceu intacta no transcorrer da vida da pessoa (isto é a esperança no mais profundo grau). A loucura propriamente dita necessita ser tratada num espaço onde se possa manobrar a imperiosidade da socialização da pessoa humana, isto não significa a internação, mas apoio grupal para o resgate das potencialidades da pessoa.

O amor é o mais tenro e frágil sentimento que a qualquer instante é soterrado por todos os seus acompanhantes negativos descritos neste estudo. Se afastar da visão ingênua do romantismo é perceber o quanto o amor é quebradiço e necessita de um cuidado constante, ao contrário do que estamos acostumados a vivenciar, como uma espécie de paixão que podemos nos regozijar a vontade, sem nunca cessar seu fluxo. Já o ódio reflete a dicotomia entre o complexo de superioridade e inferioridade como dizia o psicólogo ALFRED ADLER; Ambos os fenômenos mantém uma estreita relação de interdependência. Se alguém se julga inferior, pode complementar tal falta com um desejo de superioridade econômica, estética ou sexual; o contrário também é válido, a pessoa que se sente num patamar superior pode desenvolver todo tipo de culpa e arrependimento que a coloque novamente num patamar inferiorizado. O ódio retém uma longínqua defasagem na questão da autoestima. As primeiras fases narcisistas do desenvolvimento da criança são a pista segura para tal tese. O ódio se desenvolve justamente quando se sente que a figura julgadora e que poderia reforçar tal narcisismo infantil foi omissa. Advém então a cólera, forçando o ambiente a proporcionar o que lhe é devido. A antiga necessidade de exclusividade e liderança agora desponta num déspota em seu círculo emocional.

Repetir e viver intensamente a dor agora é o motivo pleno da vida do sujeito. Foi literalmente excluído de seu direito ao prazer ou uma vida regular de satisfação. É neste exato ponto que a intervenção terapêutica deve ser radical, combatendo não apenas o vício de sua visão pessimista e sombria, mas mostrando à pessoa que constantemente sabota aquilo que mais procurou. Desenvolveu a intolerância perante o fluir das emoções, abdicando do gozo pessoal pela competição e disputa de poder, se tornando o mostruário exato dos processos econômicos e sociais perpetrados diariamente em nosso meio.

O ódio se alinha totalmente a um desejo de liberdade frustrado. A saída seria concentrar a energia no potencial próprio visando novas etapas de criatividade e desenvolvimento; porém não é o que ocorre, sendo que a reação de rancor e o investimento no confronto são o que prevalecem na maioria das vezes. Lembro-me de um sonho de um paciente que ilustra categoricamente tal afirmação: “sonhei que vários indivíduos construíam foguetes particulares para irem a lua e outros planetas como marte, por exemplo; boa parte morria na jornada por a nave não ter estrutura e oxigênio suficiente; apenas alguns retornaram; sendo que na exploração descobriram perigos inimagináveis para a raça humana; eram totalmente negligenciados na volta e não obtiveram nenhum apoio governamental”. Sem dúvida a mais profunda coragem é o rompimento; mais ainda se pensarmos no desafio perante a única controladora do processo espacial no mundo; este é um sonho em que o desejo de liberdade atinge seu ápice. A essência da neurose como descrevi no texto é esta: a luta interminável para desenvolver uma meta nova em vários campos versus o conflito por reaver o que se sente retirado e negado. Coragem então é o avanço, e a neurose é não somente a pedra neste trajeto, mas o total desânimo e desconsolo para o recomeço.









Read more...

Outras áreas de atuação da Psicologia

* Psicologia Ambiental
*Psicologia Comparada
* Psicologia Clínica
* Psicologia Comunitária
* Psicologia da Moda
* Psicologia da Saúde
* Psicologia dos Grupos
* Psicologia social
* Psicologia e antropologia
* Psicologia Econômica
* Psicologia Educacional
* Psicologia Esportiva
* Psicologia Experimental
* Psicologia Forense
* Psicologia Hospitalar
* Psicologia Industrial
* Psicologia Integral
* Psicologia Jurídica
* Psicologia e toxicomanias
* Psicoterapias

Categorias

Filmes relacionados a Psicologia.

*K-Pax* (Esquizofrenia)* Kids *(Desenvolvimento/Drogadição) *Trainspotting *(Drogadição) *Patch Adams* (Humanitário) *As Good As It Gets* (TOC - Transtornos de Personalidade) *I Am Sam* (Necessidades Especiais) *Men of Honor* (Preconceito) *The Life of David Gale* (Pena de Morte) *Good Will Hunting* (Preconceito - Agressividade)* Matrix* (Vários) *Fight Club* (Transtornos de Personalidade) *One Hour Photo* (Transtornos de Personalidade) *Neverwas* (Transtornos de Personalidade - Esquizofrenia) *The Machinist* (Psicose)* The Barber* (Insônia) *Big Fish* (Imaginação/Fantasia) *Ponte para Theribithia* (Imaginação/Fantasia) *21 Gramas Mr. Jones* (Transtorno Bipolar) *Adeus Lênin* (Choque Cultural) *Edukators* (Sociologia) *Aos Treze* (Psicologia do Desenvolvimento/Drogadição) *O Filho da Noiva* (Alzheimer) *Terapia do prazer* (Transtornos de Personalidade - Borderline) *Instinct* (Choque Cultural/Antropologia:Sociologia) *Nell* (Choque Cultural/Antropologia:Sociologia) *Os Deuses Deve Estar Loucos *(é uma comédia besteirol antiga, mas mostra o choque cultural em torno de uma garrafa de coca-cola vazia)

Lista de seguidores

Contador de Visitas


Postagens populares

  © Free Blogger Templates Photoblog III by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP