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Gonzáles.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A ARTE DE SER MULHER E PSICÓLOGA
















QUEBRANDO OS PARADIGMAS: RESSONÂNCIAS
Como profissional do sexo feminino, problematizo o “Fazer Psi”, traçando ressonâncias entre Paradigma Estético e Psicologia. Procuro mapear comportamentos teóricos e práticos, cartografando experiências e falando de auto-implicação. Deleuze e Guattari discorrem sobre a existência como obra de Arte, criações ético-estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, discuto a "Psicologia Estética", apostando em sua plasticidade e diversidade, o que nos propicia diferentes formas de intervir. Simulando ensaios, lanço-me ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí.

A área da sexualidade humana foi fortemente marcada pelas teorias de Freud. A sua psicanálise acabou tendo um papel marcante no ocidente dentro da teia de discursos da modernidade que tentaram definir e conceituar a figura feminina, seu corpo, sua "função" e sua sexualidade.


Anna Gonzáles: Psicóloga e Mulher

Preparando uma entrada ou quem sabe, uma saída...


No início da formação acadêmica, minha concepção sobre "Psi" era de uma personagem séria, correta, neutra, com lugares muito definidos. Paralelo a isso, minha inserção na Arte da vaidade já era uma paixão antiga. De um lado, estava a personagem séria da "Psi", do outro, os desígnios & Desejos, com todo o seu fervor. Mais do que isso: minha impressão era de que, em algum momento, eu teria que optar. Ou partiria para os territórios definidos do fazer "Psi", ou me lançaria nas intensidades da pouca idade. Entretanto, a personagem “Séria Psi” foi se transformando: ao invés do traçado definido, permitir-se mais maleável, andarilha, polimorfa; em lugar de neutralidade, implicar-se no processo e nas intervenções. A partir daí, fui agregando um “fazer” no “entre”: Psicologia e comportamento. Em nossos estágios, usamos diversos dispositivos indutivos para intervir. Isso possibilitou um fazer mais híbrido, mais envolvente, instigante, novo...

A sensualidade feminina me fascina através de sua porosidade, seu criar incessante, sua efervescência. Ela é impossível de existir, sem que haja paixão, envolvimento, coragem, subversão, graça, simplicidade ou até sofrimento. Também podemos falar de uma Psicologia que produz calor, sensibilidade, invenção, vida. Psicologia e Arte: caos, rompimento, criação, absurdo. O homem contemporâneo, segundo Nietzsche (1995), é extremamente racional - um culto da linguagem verbal, uma procura por verdades. Um homem contido em seus ressentimentos, naquilo que quisera ter feito e não o fez no que gostaria de ter sido e não o foi. Abertos a Subjetividades repleta de reminiscências... Em meio às frustrações.
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER X PSICOLOGIA podem propiciar subversões, já que rompem com a razão e a moral vigentes, permitindo-nos chegar ao plano das intensidades. Possibilita-se, então, um pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços para os momentos imprevisíveis, para o inusitado. Assim, uma intervenção Ético-Estética, Ético-comportamental parece-me interessante para lidarmos com os desafios de nossa contemporaneidade.


A Arte de ser mulher - Um valor de criação

Na primeira fase de sua obra, Nietzsche faz a oposição entre Arte e conhecimento racional. A ciência, vista como um "valor superior", uma "verdade absoluta", um "ideal" a ser alcançado, procura instituir uma dicotomia de valores entre a verdade e o erro. A Trágica, por sua vez, é apontada como um modelo alternativo para a racionalidade. Portanto, a posição de Nietzsche, firmada no primeiro momento de sua obra, era a seguinte: a Arte é mais importante do que a ciência; a única relação possível entre o homem e o mundo é a estética. Buscando viver com alguma segurança, o homem se esquece de que é sujeito da criação artística. Ao invés de lançar-se nas intensidades da Arte, o homem busca conhecer o seu mundo, na tentativa de poder explicá-lo. O propósito de "O Nascimento da Tragédia" era justamente examinar a ciência a partir da ótica do artista e a Arte, a partir da ótica da vida. Nesse sentido, Nietzsche (1992) salienta a idéia de metafísica do artista. Ou seja, o mundo só se justificaria como fenômeno estético. O artista estaria por trás de todo o acontecer, completamente inconsiderado e amoral, desejando construir e desconstruir. O mundo visto como a eterna possibilidade do criar, do vir a ser. do sentir... O mundo, como sendo eterna nova visão do ser mais sofredor, mais antitético, mais contraditório, que só na aparência, na Arte, sabe redimir-se. A metafísica de artista é uma concepção de que apenas a Arte possibilita uma experiência da vida plena, como sendo no fundo das coisas indestrutivelmente poderosa e alegre.

Entretanto, Nietzsche(1992) questiona o que ele mesmo havia dito. Assim, a metafísica do artista poderia ser considerada arbitrária e fantástica. O essencial, contudo, é que ela denuncia uma possibilidade que vai contra a interpretação e a significação morais da existência. Denuncia-se, pois, um pessimismo que vai além do bem e do mal. Abre-se uma visão que desmistifica a moral e a verdade vigentes. Se, por um lado, a metafísica da Arte pode assumir essa postura de subversão da ordem, o que a tornaria, então, arbitrária e fantástica? Talvez, quando, inicialmente, Nietzsche a coloca como única possibilidade de subversão. Porém, no momento em que o autor a vê como uma possibilidade de, uma alternativa, então, nesse caso, já não se corre o risco de cair em radicalidades.

Traçando um paralelo à Psicologia Estética, também esta se propõe a abrir espaços à alteridade, não tendo nenhuma pretensão de buscar a verdade ou a moral. Trata-se de mapeamentos, cartografias, interpretações de movimentos em cada intervenção "Psi". O PsicoArte – intervenção realizada no meu curso de Psicologia - busca conexões entre Psicologia e Arte. Esta surge como dispositivo. Tal ‘fazer’ foge às regras, criando possibilidades outras de subversão, mais sutis, raras, arteiras. Assim, procura-se trabalhar com a auto-gestão e auto-análise do grupo que intervém. Busca-se uma ação diferente:

Intervir nos próprios alunos de Psicologia. Criamos um fazer extremamente singular em cada uma de suas nuances. Muitas foram as conquistas através dessa intervenção. Por múltiplas formas, produzimos desassossegos. Seja em quaisquer umas das intervenções - Oficinas, Esquetes, Sarau - rompemos com uma imagem cristalizada, de um psicólogo individual, neutro, envolto em seu saber solitário. Procuramos, então, um fazer envolvente, um pensar e construir em equipe, longe das utopias de neutralidade. Uma "Psi" que se afeta, possibilitando usinas de criação, questionando seu próprio fazer. Quebramos a imagem da psicanálise intacta, compacta, dona de uma verdade, indo em direção a uma prática nova, híbrida, cheia de possibilidades, em movimentos de transmutação. Saímos da imagem do "Psi médico" para um "Psi Arteiro...” Rompemos, também, com a imagem do estudante de Psicologia puramente racional e técnico. E não se trata de negar o racional, mas sim de poder incorporar a ele aspectos do plano intensivo. Abrimos espaços para o estudante artista, no sentido de se envolver em seu fazer, de sentir, sim, por que não? Vivenciamos como estudante e queremos inventar, compor. Não se trata de abandonar os livros e o computador, mas de acrescentar a sedução, a dança, a poesia, o choro, o riso, a lágrima, a sensibilidade, o afetamento, e o prazer humano.

Nietzsche (1995) problematiza a questão da Arte. Que importância a tem para a vida? Que relação poderia manter com a força e a fraqueza? No que implica a Arte trágica? Para ir a fundo a tais questões, ele faz uma reflexão sobre a Grécia arcaica, já que, em tal civilização, há uma sensibilidade exacerbada para o sofrimento e uma extraordinária sensibilidade artística. O grego é capaz de grande sofrimento, extrema sensibilidade e significativa vulnerabilidade à dor. A Arte e a Filosofia podem ser meios de afirmação da vida que cresce, mas isso pressupõe sofrimento. Há os que sofrem de abundância de vida, que querem uma Arte dionisíaca e uma visão e compreensão trágica da vida. Há, também, os que sofrem de empobrecimento de vida, procurando repouso, quietude, mar liso. Contra a dor, o sofrimento, a morte, diviniza-se a vida criando a beleza. Dessa forma, os gregos criam os deuses olímpicos para tornar a vida possível ou desejável. A criação da Arte apolínea reflete uma necessidade de sobreviver em um mundo tão hostil. A Arte apolínea é a Arte da beleza. Se os deuses olímpicos não são necessariamente bons ou verdadeiros, eles são belos. Nietzsche (1992) nos fala sobre a imagem divina de Apolo, com sua tranqüilidade, beleza, exuberância, dignas da divindade da luz. Através da Arte apolínea, os gregos produzem outras formas de lidar com seus mundos. Trata-se de uma beleza necessária, pois não significa apenas ocultar o sofrimento, encobri-lo, mas uma libertação, a libertação da dor pela aparência, pela beleza, intensificando as forças de vida.

Há, também, outro instinto estético: o dionisíaco. O indivíduo caía no esquecimento de si e perdia completamente a memória dos preceitos apolíneos. A desmesura, a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam de forma intensa. A Arte dionisíaca, em sua embriaguez, expressava todo o seu sofrimento e sua dor. A experiência dionisíaca assinala um sentimento místico de unidade, ao invés de individualidade. Ao invés de autoconsciência, ocorre uma desintegração do eu. Em vez de calma, tranqüilidade, surge um êxtase, um enfeitiçamento, uma extravagância. Em vez de sonho, visão onírica, é embriaguez, experiência orgiástica. Há, também, um pesar, um desgosto pela existência, o sentimento de que tudo é absurdo e impossível, que aparece com a volta ao estado de consciência. Ao invés de escravidão ao sistema, o estado dionisíaco significa homem livre, rompimento das barreiras rígidas e hostis estabelecidas pela sociedade ou pela 'moda':

Apesar das diferenças entre Apolo e Dionísio, ocorre a integração. Mérito este da Arte. Dessa forma, a Arte dionisíaca, a Arte trágica é um jogo com a embriaguez, sem a perda da lucidez. Ou seja, não se trata de alternância embriaguez - lucidez, mas, sim, de simultaneidade, em que se encontra o estado estético apolínio-dionisíaco. A Arte trágica, união entre aparência e essência, possibilita uma experiência trágica da essência do mundo. Isso é estabelecido através de uma integração: o apolíneo e o dionisíaco.

Essa valorização dos instintos sobre a consciência é a afirmação de que a perspectiva da vida é fundamentalmente a perspectiva dos instintos, de um sistema hierarquizado de forças em relação. Mais do que isso: fala-se de um perspectivismo do conhecimento, que nega o caráter objetivo e neutro do conhecer. Conhecer, pois, não seria explicar, e sim, interpretar. Sendo assim, não há, pois, uma única interpretação possível e legítima. Não há uma verdade universal. Portanto, se não há uma única interpretação, se o conhecimento é perspectivo e as perspectivas são variadas, ao conhecimento não cabe atingir uma verdade. Critica-se, pois, a visão positivista, objetiva e neutra da ciência e do conhecimento. O perspectivismo de Nietzsche vai ao encontro de um fazer em Psicologia que não é neutro, mas se implica no processo, buscando espaços ao plano intensivo da diferença. Um fazer que não se limita ao plano racional, mas que busca a produção de novos sentidos às intensidades inconscientes. Um fazer para além do bem e do mal: havendo espaço para afetos, desejos, paixões, vontade. Na base do conhecimento, se encontra a perspectiva da vida definida como vontade de potência. Falar de um conhecimento perspectivo seria, então, falar de um saber que permite o interpretar, o compor, juntamente ao sentir, ao vir a ser. Falamos, pois, de um saber e um fazer plástico, híbrido, múltiplo, que supõe criação. Isso não seria uma possibilidade de um saber estético aliado a um saber racional? Ou, uma tentativa de produzir um conhecimento aliado às sensações de quem o constrói? Referimo-nos a alternativas, e não a uma única saída. Afinal, estamos falando de perspectivas...

Os Signos Da Arte das Impressões


Proust (1994) revela um modo de pensar a Arte enquanto fluxo, abrangendo impressões, percepções e sensações. Ele explicita diferentes signos, a matéria que os constitui, seus efeitos, sua multiplicidade, suas relações com o sentido e com as formas temporais nele implicadas: salienta o tempo enquanto redescoberta, mas não de um tempo passado, e sim do tempo puro, original. Os signos seriam variadas formas de mundos, com suas peculiaridades, seus modos, suas relações com diferentes temporalidades. Eles se organizam em círculos e se cruzam em certos pontos, formando unidade e pluralidade ao mesmo tempo: signos mundanos, signos do amor, signos das impressões e signos da Arte. Os signos mundanos seriam os signos vazios, estereotipados. Eles substituem ação ou pensamento. O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles, pois adquire uma perfeição ritual, um formalismo, que é necessário no convívio social. Por outro lado, são os signos da futilidade e da mesmice. Através deles, somos facilmente "adaptados ao sistema". Os signos do amor, por sua vez, exprimem a intensidade dos afetos, o pluralismo das almas e dos mundos contidos em cada ser amado. Não são signos vazios como os mundanos, mas são mentirosos. Ou seja, não podem dirigir-se a nós senão escondendo o que exprimem, isto é, a origem dos mundos desconhecidos, das ações e dos pensamentos desconhecidos que lhes dão sentido. Tais signos trazem o sofrimento. Os terceiros signos falam das impressões ou das qualidades sensíveis. Trata-se de signos verídicos, que imediatamente nos dão uma sensação de alegria incomum. Após essa alegria inicial, passamos a uma fase de sentimento de obrigação, com o intuito de procurar sentidos no signo. E, finalmente, sentidos podem surgir daí. Por fim, Proust discorre sobre os signos da Arte. Estes seriam imateriais. Os outros signos, por sua vez, são materiais. Os signos da Arte se conectariam às essências. O mundo revelado da Arte reage com todos os outros signos, principalmente com os signos sensíveis. Mais do que isso: o plano estético integra o plano intensivo, dando-lhes o colorido de um sentido estético e penetrando no que eles tinham ainda de opaco. Isso significa dizer que, através da Arte, pode-se dar um espaço expressivo para o plano das intensidades, o plano da diferença.


Proust traz, também, outra questão: o tempo perdido e o tempo redescoberto. O tempo perdido não é apenas o tempo que passa, mas o tempo que se perde. E isso significa dizer que não é um tempo enquanto criação e invenção, mas um tempo que passa, sem maiores produções. Já o tempo redescoberto caracteriza-se por um tempo que redescobrimos no âmago do tempo perdido e que nos revela a imagem da eternidade. É, também, um tempo original e absoluto. E essa eternidade pode se afirmar na obra de Arte. Seria o tempo enquanto criação, enquanto produtor de diferença. A cada signo corresponderia uma temporalidade específica.


Embora cada signo tenha relação com um tempo em particular, isso não ocorre de forma separada. Ou seja, na realidade, os tempos e os signos se entrecruzam, compondo variadas dimensões de tempo e sentido. O tempo que se perde prolonga-se no amor e mesmo nos signos sensíveis. O tempo perdido dos signos mundanos também pode surgir nos signos sensíveis. O tempo que se redescobre reage sobre o tempo que se perde e sobre o tempo perdido. Finalmente, é no tempo absoluto da obra de Arte que todas as outras dimensões se unem. Deleuze e Guattari (1992) argumentam que a memória intervém pouco na Arte. Não se comemora um passado, mas um bloco de sensações presentes que só devem a si mesmas sua própria conservação. Tais autores dizem que a fabulação criadora nada tem a ver com uma lembrança, mesmo ampliada, nem com um fantasma. O artista excede os estados perceptivos e as passagens afetivas do vivido. É um vidente, alguém que se torna. Da mesma forma, pode-se ficar preso a uma subjetividade que se faz de memórias e reminiscências, que seria o "sujeito-escravo" de Nietzsche (1994). Um modo de subjetivação que está sempre "remoendo" o que não se fez o que não se teve, o que não se conquistou. Por outro lado, pode-se compor formas de existência que vão para além da memória e das reminiscências, aproximando-se das formas de criação presentes na Arte. Isso seria o sujeito-nobre de Nietzsche (1994), o tempo redescoberto do qual Proust nos fala. Essa diferença proustiana seria algo da ordem qualitativa da maneira pela qual encaramos o mundo, da mesma forma como Nietzsche nos fala da possibilidade da Arte trágica, como um prazer no desconstruir, como um criar incessante, com sofrimento e gozo, caos e estética, nas intensidades das sensações. A diferença, sem Arte, sem Psicologia, talvez fosse o eterno segredo de cada um de nós.

O tempo redescoberto, enquanto criação rompe com o tempo que passa perdido, sem sentido, contido em reminiscências, como nos diz Nietzsche. Dessa forma, é preciso "esquecer" para criar. O esquecimento que Nietzsche nos fala tem relação com o que Proust argumenta do tempo redescoberto, no sentido de possibilitar o vir a ser, rompendo com a ruminação, criando outros percursos. Psicologia e Arte surgem como possibilidades desse tempo que se redescobre.


Na Arte, fala-se em "ensaios", e não em treinos. Este último implicaria uma repetição mecânica, buscando atingir um objetivo pré-definido. Em esportes, treina-se com o intuito de vencer o jogo. Ao ensaio, por sua vez, cabe a repetição que busca a diferença. O ensaio permite invenção, possibilidade de transmutar o que se repete. Não há uma objetividade da ação, algo se repete e, ao mesmo tempo, de forma diferente. Isso seria o paradoxo entre diferença e repetição na Arte e no fazer "Psi". Numa intervenção em Psicologia, algo pode se repetir em relação a outras, mas, cada fazer é singular. Dessa forma, estamos constantemente "ensaiando" em nosso modo de intervir "Psi". Estamos constantemente "intervindo" e "sendo intervidos"...

O Paradigma Estético-Sexual Na Psicologia - Se Permitir É Preciso


Guattari (1996) discorre sobre o “novo paradigma estético” em nossa contemporaneidade, colocando-o numa posição privilegiada dentro dos agenciamentos coletivos de enunciação de nossa época. Para ele, o termo mais adequado seria o "Paradigma proto-estético", visto que não se pretende falar de uma Arte Institucionalizada. Isto é, não se tem o intuito de discorrer sobre as obras artísticas enquanto tal, mas sim sobre uma dimensão da criação em seu estado nascente, potência que tem a capacidade de emergir às aleatoriedades das intenções de materializar universos imateriais. Ou seja, trata-se de agenciar modos de virtualização, dar espaços à diferença. Isso vem ao encontro do que Nietzsche e também Proust discorrem sobre a possibilidade da via estética dar formas de criação e expressão às multiplicidades.

Nesse sentido, Psicologia e Arte podem ter ressonâncias. A Psicologia estética advém da tentativa de potencializar a diferença, o devir. Trata-se de um intervir que vai se compondo e recompondo, inventando formas de ação micropolíticas, no sentido de subverter as linhas duras de existência. Esse fazer vai sendo construído aos poucos, pelas bordas, visto que precisamos de ensaios para irmos compondo novos territórios: uma "Psi" que possibilite espaços à mutação, a formas de existência jamais vistas, jamais pensadas. Ou seja, esse espaço a novos sentidos, existente na Arte, pode estar presente numa determinada concepção de pensar e agir "Psi". Procurando, pois, escapar às modelizações adaptativas, engendrando-se nas mutações de nossa época, a psicanálise procura abrir seu campo de sentimento e de ação, buscando maior plasticidade em seu fazer. Através de maior maleabilidade, nossas ações "Psi" podem ser capazes de transformações políticas do desejo em nossa contemporaneidade. Como diria Nietzsche, um fazer para além do bem e do mal.

A questão do privilégio dado à palavra, por exemplo, não está só no campo da análise, mas acaba ocorrendo em muitas práticas "Psi". O que se discute, aqui, não é a abolição da palavra. Afinal, somos seres humanos e, portanto, falamos. Entretanto, esse não é o único modo de comunicação, de produção de subjetividade. Precisamos estar abertos a outros jeitos de existência, além da verbal. Nietzsche já nos disse que o homem contemporâneo produz em excesso uma subjetividade extremamente racional, dando importância em demasia às palavras, restando poucos espaços a outras vias de expressão. Proust, por sua vez, argumenta que os signos da Arte seriam primordiais e estariam regidos por impressões, sensações, fluxos intensos. A Psicologia Estética procura acessar não somente o plano racional, mas também o plano intensivo, das sensações, dos fluxos, das impressões, do desejo, do corpo. Isso explicaria por que se pretende uma intervenção polimorfa, múltipla, variada. Portanto, o novo paradigma estético tem implicações ético-políticas, no momento em que a criação remete à responsabilidade da instância criadora com respeito ao criado. Possibilitar, pois, uma expressão de alteridade é, também, transformar as linhas de desejo no campo social.

Poderíamos pensar nas linhas de desejo das quais Rolnik (1989) nos fala. A primeira seria a dos afetos, do desassossego, das intensidades. A segunda linha seria a dos ensaios, experimentações, tentativas. Já a terceira seria a dos territórios. Na Arte, muitos podem ser os afetos agenciados. Falar de perda de território é entrar na questão da intensidade de algo que é, ao mesmo tempo, dor e plenitude - um processo que pode ser potencializante. Quando nos propomos a realizar uma intervenção em Psicologia que saia de um fazer mais tradicional, standard, somos tomados por inúmeras dúvidas, incertezas, não sabendo muitas vezes ao certo onde está o "lugar da psi".

Rolnik (1989) questiona o que fazer, então, com o afetamento. Explicita-se, então, a segunda linha de vida, que seria o campo da experimentação, dos ensaios. Trata-se de um vaivém incessante, inconsciente e ilimitado, que nos possibilita inventar outras formas de ser. O ensaio não é repetir, mas criar, ir a fundo ao campo das intensidades. Possibilitar a expressão dos afetos, ainda que a expressão seja diferente do afeto em si, pode potencializar um engendramento de novas formas. Isso tem relação com o que Proust nos fala da diferença e da repetição, sendo estas a potência da essência. Isto é, através delas, ensaiam-se novas possibilidades, novos sentidos. Da mesma forma, Nietzsche argumenta sobre a Arte trágica como possibilidade de ensaiar a união entre aparência e essência, dando espaços à diferença, ao devir.

A terceira linha seria a dos territórios. Trata-se de uma linha finita e limitada. Uma segmentação dura, com territórios bem discriminados e formas definidas. Rolnik (1989) nos fala que apenas essa poderia ser considerada uma linha, pois é a única visível e mais estável. As outras seriam fluxos intensos, que se movimentam incessantemente.

Assim, a formação do desejo no campo social se dá através do exercício ativo dessas três linhas. Entretanto, isso não ocorreria de forma linear. Elas podem ser emaranhadas, imanentes umas às outras. Por exemplo, podemos estar na linha de um território e, de repente, perdê-la, ficando totalmente desterritorializados.Em nossa contemporaneidade, o que acaba ocorrendo freqüentemente é um salto da primeira linha à terceira: do plano dos afetos pula-se diretamente aos territórios. Onde ficaria a simulação, o ensaio? Nesse caso, podemos nos sentir num 'abismo', 'no vácuo', 'oco de sentidos', como nos diria Fernando Pessoa (1980). O homem contemporâneo parece não se permitir lançar-se aos ensaios, às incertezas, à imprevisibilidade da existência. Ele quer apenas contar com o certo, com o previsível, com o já demarcado. A linha dos ensaios permitiria exatamente esse pensar fora das leis e das certezas, abrindo espaços ao inusitado, às tentativas de produzir diferença.

Proponho pensar uma Psicologia que abre espaços ao plano da simulação. Guattari (1996) fala de uma Psicologia mutante. É preciso, pois, ensaiar, experimentar, até que algo novo se constitui. Podemos traçar um paralelo quando assistimos a ensaios de um movimento artístico e saímos com a impressão de que "cada ensaio foi igual ao anterior, mas, ao mesmo tempo, diferente." Entretanto, não se trata de um fazer de qualquer jeito, como se não fossêmos levar em conta nenhuma concepção teórica, caindo em "achismos". Há concepções teóricas que vão sustentar o fazer, mas a intervenção vai para além do teórico, ensaiando novos passos, de acordo com cada realidade.

Retomo o PsicoArte – intervenção feita em estágio. Dentro deste, nós criamos uma peça teatral que problematizava a própria Psicologia. Nosso grupo estava envolvido nesse fazer, que ia se compondo nos variados momentos em que foi sendo apresentada. Em cada intervenção, a peça nascia e morria. Num outro momento que a apresentássemos, ela já seria outra, já falaria de outras formas, sobre outras coisas. O grupo também já seria outro. Nas primeiras apresentações, os movimentos eram mais rígidos, cada um sabia o caminho a seguir, com o roteiro muito bem ensaiado e pré-estabelecido. Aos poucos, entretanto, fomos discutindo e percebendo que a peça poderia ser mole, Arteira, no sentido de estar em constante mutação. Sendo assim, as apresentações seguintes passaram a ser mais flexíveis, os movimentos mais soltos, imprevisíveis até. O que percebemos daí, é que nossa intervenção passava de um "endurecimento" anterior, para uma possibilidade de criação perante o inusitado. Além disso, passamos a interagir mais um com o outro, diferentemente do início, quando cada um 'dava a sua fala', de forma desconectada. As sensações que se engendravam na equipe eram intensas. O grupo intervinha ao mesmo tempo em que era intervindo. Seguidamente, surgiam discussões: era uma intervenção "Psi", ou simplesmente teatro? Onde ficaria o lugar da Psicologia? O que realmente produzíamos? Dessa forma, partir para uma ação não estereotipada, quase inédita, não é tarefa fácil, já que difere do que se aprende e do que se espera de 'estagiários de Psicologia'. Guattari (1996) argumenta sobre uma política de ética de singularidade, que possa romper com consensos, com 'seguranças infantis' provenientes da subjetividade dominante. Os dogmatismos serviriam apenas para bloquear os pontos de criacionismo que buscam sentido onde aparentemente não há sentido, nas manifestações de curto-circuito entre a complexidade e o caos.

Foucault in Deleuze (1992) discorre sobre a existência como obra de Arte, regras que são éticas e estéticas, constituintes de modos de existência ou estilos de vida. É o que Nietzsche (1992) descobria como a operação artista da vontade de potência, a invenção de novas "possibilidades de vida". Proust nos fala do tempo redescoberto que há na Arte, como possibilidade de transmutação. Do mesmo modo, penso numa "Psicologia estética", no sentido de descobrir outras existências, outras formas de intervir, outros sentidos para o que se estuda e discute.Entretanto, seria a Arte sempre produtora de diferença? Ou, de outro modo, há a possibilidade de ela também ser capturada em nossa época? Quais seriam os rumos desta numa era homogeneizante? E a Psicologia? Como tem se produzido em nosso contexto social?


Nietzsche apud Marton (1983), no início de sua obra, já fazia críticas às instituições teatrais da Europa. De um lado, havia os espectadores, demandando somente prazer e diversão. De outro, os artistas, pretensiosos e preconceituosos. Além disso, aos empresários restava uma preocupação única com lucros. A cultura encontrava-se subjugada pelas exigências do momento, pelos caprichos da moda, pelos ditames da opinião pública. Portanto, a Arte havia se tornado mercadoria de luxo à disponibilidade de uma sociedade de luxo. As salas eram freqüentadas por tolos e fúteis, que nunca se preocupavam com o povo, ou com questões sociais. O que havia de mais puro na Arte havia sido esquecido: seus mitos, melodias e danças. Esse conjunto de fatores compunham a atmosfera morna e nociva dos meios artísticos.


De certa maneira, isso ainda ocorre. O acesso à Arte continua sendo mercadoria de luxo. A uma minoria restrita fica a possibilidade de freqüentar um teatro, cinema, ou atelier. Quem pode se dar ao luxo de freqüentar aulas de dança, poesia ou Artes plásticas? Isso nos diz o quanto a Arte acaba sendo possibilidade de uma minoria. Por outro lado, e a Psicologia? Muitas vezes, também esta se torna artigo de luxo. Quem pode se "beneficiar" de tal intervenção? Também não se trata de uma maioria.


Apesar das dificuldades, encontramos possíveis subversões. Isso significa dizer que, tanto na Arte como na Psicologia, procura-se encontrar formas desses paradigmas não ficarem restritos a um número reduzido de formas de atuação. Se pensarmos na Arte, existem os artistas de rua, o teatro de rua, os programas de ensino vinculados com algum tipo de ensino-aprendizagem ligados à Arte. Em relação à Psicologia, também podemos buscar intervenções que não se produzam apenas na elite, mas em todas as esferas sociais. Pensamos, então, nos programas vinculados com prefeituras e universidades, visando um estudo e um fazer que envolva os membros da comunidade. Apesar dos esforços nesse sentido, tudo ainda se dá de forma reduzida, havendo, pois, a necessidade de se aumentar as possibilidades de produção em Arte e/ou em Psicologia.


Além disso, discute-se a questão das capturas no campo da Arte e da "Psi". Seria a Arte sempre ponto de mutação, de ruptura, ou ela também está sujeita a capturas em nossa sociedade capitalística? Poderíamos pensar, pois, que é difícil de se entrar na discussão do que seria realmente Arte, ou, de outra forma, o que seria mera reprodução de subjetividades já capturadas pelo sistema.


Concebemos, então, a possibilidade de diferentes graus de intensidade produzidos numa obra de Arte. Há produções, por exemplo, que mais parecem imitações, que se tornam muito iguais a outras formas já vigentes. Existem criações artísticas que parecem estar longe de um processo de criação, caindo na mesmice e na futilidade de nosso contexto atual. É como se estas nada dissessem, nada subvertessem. Assim também podemos encontrar fazeres em Psicologia que nada transformam, indo apenas ao encontro dos interesses do sistema, sendo completamente capturados pelas formas vigentes e morais.


Há, porém, as rupturas: um processo artístico que realmente crie, rompa com padrões, num ato micropolítico de transformação. Podemos pensar numa Psicologia que também se propõe micropolítica. Uma intervenção "Psi" que procura abrir espaços às intensidades, possibilitando formas de atualização às virtualidades:mutação de valores e existências já envelhecidas e enrijecidas pelas formas de captura de nossa contemporaneidade. É a isso que a "Psicologia estética" se propõe!

Simulando Uma Saída...


“É esse o vírus que eu sugiro que você contraia: na procura pela cura da loucura”,

Quem tiver cabeça dura vai morrer na praia". (DJAVAN/ GABRIEL 'O PENSADOR', 1998)

Assim, precisamos pensar e discutir sobre um fazer em Psicologia mais ético-estético, abrindo mão do 'politicamente correto', dos cientificismos e tecnicismos, 'para não morrer na praia': não procurar por 'curas', mas sim, por possibilidades de se potencializar a diferença. Optar por uma Psicologia não pronta, híbrida, porosa, fala também de uma forma própria de acreditar na transmutação do mundo e das coisas, de preferir lidar com o inusitado, embora sabendo 'na pele' o quão complicado isso possa ser. Acreditar na multiplicidade da Psicologia significa acreditar na multiplicidade do mundo, das formas de existência, na plasticidade da saúde, na vida trágica. Sair de um dualismo: "Psi" ou "Arte", optando por um fazer em Psicologia plástico. Isso foi um processo que me demandou muitos e muitos ensaios, que ainda me demanda e que continuará em movimento.



Para além de uma leitura das dicotomias, fui construindo vários sentidos que passaram a percorrer meu 'mar' de sensações e conhecimentos. Entre incontáveis simulações, pude ir descobrindo que a dualidade das coisas não passa de uma ilusão de nossa contemporaneidade, de nossa cultura. Ao invés de optar entre o certo e o errado, entre o correto do profissional ou o avesso da Arte, fui descobrindo uma forma de compor no "entre". Em vez de "ruminar o tempo perdido", procurar a potencialidade que pode haver no tempo redescoberto, no tempo da criação de Proust. Ao invés de procurar "regras", buscar a "ética".



Estudar e viver Psicologia como uma Arte, sentindo as intensidades frenéticas no corpo, nas dobras que vão se compondo. Não deixar que o tempo passe, sem sentido, mas produzi-lo como criação, vivendo o trágico de cada intervenção, cada forma de existência. Portanto, lancemo-nos ao intempestivo de uma "Psi' livre. Arrisquemo-nos em problematizar uma intervenção que produza momentos de incubação de novas línguas, de novos modelos de subjetivação. A prática da "Psi" é, também, uma prática política, podendo possibilitar realidades sociais diferentes. Como simular saídas? Difícil de responder. Precisamos, pois, pensar nas múltiplas respostas que pode haver, questionando conhecimentos e formas de intervenções. Simulando ensaios, lancemo-nos ao proibido! E que nos seja permitido cair, para que o novo possa surgir daí...



Ai, ai...

“Talvez pensemos que, no caso de não ser possível confiar em nós mesmos, podemos confiar em conselheiros qualificados. Mas, se não podemos extrair a verdade de dentro do nosso coração, como é que outra pessoa que também tem um coração enganoso poderá discernir a verdade sobre nós, colocando-nos num divã e nos ouvindo?”



Pensem nisso!!!



"Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: O que uma mulher quer?"

Sigmund Freud - Pai da psicanálise



(1856-1939)

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sábado, 7 de novembro de 2009

Pílula da inteligência

















Drogas que melhoram a memória e o desempenho cognitivo

Tim Tully, do Cold Spring Harbor Laboratory e da Helicon Therapeutics, um neurocientista é um dos principais protagonistas na corrida para o desenvolvimento de uma nova classe de drogas que pode melhorar a memória em casos de incapacitação - drogas que surgem de uma compreensão, cada vez mais sofisticada, da parte molecular e mecanicista que faz com que nos lembremos de tudo, desde tempestades de neve há mais de 30 anos, até onde colocamos as chaves do carro meia hora atrás.

Infelizmente, é a natureza da ciência contemporânea (e conseqüentemente o comércio e a bioética) que temos de evocar para projetar o futuro da cognição humana e a sua manipulação farmacológica, enquanto observamos o comportamento de um camundongo dopado vagando dentro de uma caixa com labirintos. Assim, lá estávamos nós, olhando distraidamente para o vídeo que Tully exibia no seu laptop, e observando um pequeno roedor castanho entrar num ambiente fechado e começar a explorar com passinhos rápidos um cenário experimental conhecido como Treinamento de Reconhecimento de Objetos. Um dia antes, explicou Tully, o camundongo havia sido colocado nessa mesma caixa contendo dois objetos estranhos em forma de maçaneta, cada um com uma identificação olfativa, tátil, além de outros sinais sensoriais próprios. Quando deixamos um camundongo explorar um ambiente como esse durante 15 minutos, prossegue Tully, ele se lembrará de tudo tão bem, que, no dia seguinte, perceberá imediatamente qualquer mudança. Mas, um camundongo que explora um ambiente durante apenas três minutos e meio geralmente não tem tempo suficiente para armazenar detalhes da cena na memória de longo prazo.
O camundongo do filme tinha tido somente três minutos e meio de treinamento, mas havia recebido um coadjuvante farmacológico, e era isso que Tully queria me mostrar. Como um locutor narrando um evento esportivo, ele descrevia a cena quando, de repente, o bichinho parou, dando atenção excessiva ao novo objeto. "Veja, lá vai ele", disse Tully. "Ele está rodeando o objeto... Agora está escalando o topo da maçaneta, sem se importar com o outro objeto." De fato, o camundongo farejava, dava voltas e tornava a subir no objeto novo por todos os lados, ignorando o segundo objeto - explorado no dia anterior.
Atualmente, camundongos inteligentes e ratos treinados são chamarizes para novidades farmacêuticas que podem melhorar a cognição humana.
Para mostrar esse grau de curiosidade, o camundongo tinha de se lembrar do que havia na caixa um dia antes, o que exige a formação de uma memória de longo prazo. Embora anos de experimentos comportamentais tenham estabelecido que os ratos normalmente não se lembram das mudanças no ambiente depois de uma exposição prévia tão curta, aquele se lembrou. Isso porque ele havia recebido uma droga estimulante da memória conhecida como Creb (cyclic response element binding), que a Helicon espera testar em humanos, talvez até o fim do ano. "Mostramos que vários compostos poderão aumentar a capacidade de um camundongo normal se lembrar dessa tarefa", disse Tully. "E para fazer disso realidade, e não uma hipótese, precisamos mostrar que também funciona em humanos."
Atualmente, camundongos inteligentes e ratos treinados estão sendo usados como chamariz para uma nova farmacologia: drogas que podem aumentar a cognição humana, melhorar a memória dos portadores de doenças neurodegenerativas ou idosos, e talvez até reestruturar os circuitos formadores da memória em vítimas de acidentes vasculares cerebrais (derrames) ou pessoas mentalmente retardadas. O mercado potencial para estes produtos é vastíssimo. Como Tully e qualquer outro grande executivo da biotecnologia e farmacologia sabem, há 4 milhões de norte-americanos com o mal de Alzheimer, outros 12 milhões numa condição chamada de incapacidade cognitiva leve, geralmente considerada prenúncio de Alzheimer. Além disso, há aproximadamente 76 milhões de pessoas com mais de 50 anos nos Estados Unidos e muitas delas podem preencher os requisitos do que a Food and Drug Administration (FDA) vem chamando mais recentemente de perda de memória associada à idade, uma forma de esquecimento leve. A julgar pelas vendas de produtos fitoterápicos, como o ginkgo biloba, os consumidores não estão querendo esperar a aprovação da droga. As vendas de gingko biloba ultrapassam 1 bilhão de dólares por ano nos Estados Unidos, mesmo sendo controvertidas as evidências científicas de que o suplemento de fato melhore a memória (ver As Controvérsias do Gingko biloba, SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, junho 2003). Na Alemanha, as vendas excedem as de todas as drogas inibidoras da cetilcolinesterase usadas para retardar a perda de memória de pacientes com Alzheimer.
Apesar do incessante alarde da mídia sobre a revolução que está por vir, anunciada como "Viagra para o cérebro", as pílulas da inteligência ainda não estão disponíveis. A Cortex, de Irvine, Califórnia, desenvolveu um tipo de droga para melhorar a memória, chamada ampaquina, que a empresa acredita aumentar a energia do neurotransmissor glutamato. Essas drogas foram aprovadas na fase I dos testes de segurança e no momento estão sendo submetidas aos testes da fase II (testes de pequena escala para comprovar sua eficácia) contra o Alzheimer, incapacidade cognitiva leve e esquizofrenia. Estes testes preliminares estão levando a cabo uma odisséia, iniciada na metade dos anos 80, sem nenhuma perspectiva definida em vista.

Mas as coisas começam a esquentar. A Memory Pharmaceuticals em Montvale, Nova Jersey, que está comercializando a pesquisa do vencedor do Prêmio Nobel, Eric R. Kandel, da Columbia University, fez os testes iniciais de sua primeira droga para melhorar a memória em humanos no início de 2003. Tully acredita que a droga da Helicon, que está na liderança, deve entrar em testes antes de 2004. A Axonyx, de Nova York, tem se concentrado na fenserina (um potente inibidor da acetilcolinesterase) para tratar de pacientes com Alzheimer. A empresa começou a fazer os testes avançados em junho. O neurocientista Joe Z. Tsien, da Princeton University, que causou enorme rebuliço em 1999 com a criação de um camundongo geneticamente modificado para ampliar a inteligência, chamado Doogie, assessorou uma empresa de biotecnologia instalada em San Francisco, Califórnia, a Eureka! Pharmaceuticals, que está colaborando com cientistas de Xangai na busca de drogas capazes de misturar a genética moderna com a medicina fitoterápica milenar da China. Ele ainda tem dúvidas sobre quando essa revolução comercial começará. "Eu me surpreenderia se qualquer uma dessas drogas viesse a ser adotada clinicamente e se tornasse mais uma droga em breve", prediz Tsien, "especialmente uma droga sem efeitos colaterais."

Embora a maior parte dessa nova geração de drogas ainda esteja longe de aprovação para uso clínico, seu impacto social já é sentido. Especialistas em bioética vêm trabalhando na avaliação dos perigos sociais que a melhoria da memória poderá oferecer, particularmente sobre seu uso potencial como drogas da moda. O filósofo Leon R. Kass, chefe do Conselho de Bioética escreveu recentemente: "Nestas áreas da vida humana, onde a excelência tem sido obtida pela disciplina e esforço, a conquista de resultados com uso de drogas, engenharia genética ou implantes parece \\'ardilosa\\'".

Mas o uso de drogas potentes como estimuladores cognitivos tem sempre acompanhado os hábitos humanos, desde que as pessoas começaram a tomar café. Cerca de 50 anos atrás a prática obteve uma aura mais farmacológica quando adultos normais saudáveis descobriram que as anfetaminas poderiam aumentar os períodos de alerta. Se, como prevêem alguns, os novos estimuladores cognitivos se destinarem a replicar o padrão do Viagra e se tornarem drogas da moda, como isso vai acontecer, e como o seu uso irá se difundir? Uma resposta possível pode estar numa geração anterior de drogas já aprovadas, que aumentam a cognição - o metilfenidato (Ritalin) indicado para a atenção, o donepezil para o Alzheimer e o modafinil, prescrito para a narcolepsia. Essas drogas já são consumidas por adultos normais que querem melhorar sua percepção e desempenho mentais. Os usuários acreditam piamente que essas drogas melhorem o desempenho cognitivo, embora praticamente nenhuma pesquisa ateste isso. Algumas sugerem que não superam uma droga encontrada na maioria das mesas do café da manhã.

As Restrições à Cafeína

A melhora cognitiva tem sido alvo de pesquisas militares há muito tempo. No Walter Reed Army Institute of Research, Nancy Jo Wesensten trabalha com produtos farmacêuticos que podem melhorar o estado de alerta (e conseqüentemente o desempenho nos campos de batalha) de soldados que sofrem de intensa privação do sono. Em junho de 1998, enquanto participava de um encontro de pesquisadores do sono, Wesensten parou no estande da Cephalon, uma empresa de biotecnologia sediada em West Chester, Pensilvânia, e iniciou uma conversa com um de seus representantes comerciais.

Nessa época a Cephalon estava para receber a aprovação da FDA de uma droga com o nome genérico de modafinil. Comercializada como Provigil, este produto é usado no tratamento da narcolepsia, a profunda sonolência diurna que aflige cerca de 125 mil norte-americanos. Evidentemente, o modafinil seria um óbvio candidato a ser testado pelo exército norte-americano no tratamento para a privação do sono - de tal forma que Wesensten foi convidada a se reunir com executivos da empresa para discutir detalhes de seu trabalho. Finalmente a Cephalon concordou em fornecer o modafinil para as pesquisas do exército.

Tim Tully, do Cold Spring Harbor Laboratory e da Helicon Therapeutics, mostra um camundongo usado em testes para melhorar a memória.

Isso foi há mais de cinco anos. Em dezembro de 1998 a FDA aprovou a venda do modafinil nos Estados Unidos para o tratamento da narcolepsia, e a Cephalon vende hoje, cerca de US$ 200 milhões da droga por ano. Isso representa uma grande quantidade de medicação para a narcolepsia - mais que a população norte-americana de narcolépticos poderia consumir, suspeitam muitos observadores. "Há uma enorme quantidade usada sem autorização de psiquiatras para melhorar o humor", diz Helene Emsellem, que dirige o Center for Sleep and Wake Disorders, em Chevy Chase, Maryland.

Na verdade, o modafinil é utilizado para tratar a depressão, esclerose múltipla e vários outros distúrbios associados à fadiga. Há relatos de que médicos estão sendo bombardeados por pessoas saudáveis solicitando receitas de modafinil como estimulante cognitivo que os faça dormir menos, trabalhar e se divertir mais. Um acadêmico, pesquisador do sono muito conhecido, me confidenciou: "As pessoas estão me dizendo que conseguem se concentrar mais, incluindo alguns dos meus colegas". A Cephalon vem realizando testes clínicos com o Provigil no tratamento de distúrbios adicionais de sonolência excessiva - resultante, por exemplo, de sono interrompido (causado por apnéia do sono) ou pelo "desalinhamento circadiano" provocado pela jornada noturna de trabalhadores como os operários de fábricas e motoristas de caminhão.
Isso nos remete de volta aos estudos de Wesensten no centro do sono Walter Reed. "Nós estávamos particularmente interessados em saber se o modafinil tem qualquer vantagem sobre a cafeína, muito boa para reverter os efeitos da privação do sono ou desempenho cognitivo. Além de ser amplamente disponível, não precisa de receita e tem poucos efeitos colaterais", disse ela. "Será que haveria então alguma vantagem em usar o modafinil em vez da cafeína?" Wesensten e seus colegas organizaram um estudo aleatório duplo-cego com a administração de placebo, no qual 50 voluntários foram mantidos acordados durante 54 horas consecutivas. Depois de cerca de 40 horas, os indivíduos receberam placebo ou 600 miligramas de cafeína (uma dose forte, equivalente a cerca de seis xícaras de café) ou uma de três possíveis doses de modafinil (100 miligramas, 200 miligramas, ou 400 miligramas). Depois foram submetidos a uma bateria de testes para avaliar as funções cognitivas e os efeitos colaterais.

Qual o resultado? A dose mais alta de modafinil, de 400 miligramas, eliminou a fadiga e restaurou o desempenho cognitivo aos níveis normais - mas a cafeína também. Os efeitos colaterais relatados do modafinil foram muito baixos - bem como os da cafeína. "O que concluímos", disse Wesensten, "foi que não pareceu haver nenhuma vantagem em usar o modafinil no lugar da cafeína. O modafinil não tinha nenhuma vantagem. As duas drogas se comportaram de forma muito similar."
Algumas pesquisas indicam que estimuladores cognitivos atualmente no mercado podem não ser melhores que uma droga encontrada na maior parte das mesas de café da manha.

A Força Aérea norte-americana também tem realizado experimentos com drogas que melhoram o estado de alerta de pessoal militar fatigado, particularmente em relação a pilotos em missão operacional. A Força Aérea permitia que os pilotos utilizassem anfetaminas chamadas de "go pill", já na época da Segunda Guerra Mundial, de acordo com John A. Caldwell, especialista em distúrbios do sono da Força Aérea que conduziu esses experimentos nos últimos 10 anos. "Meu objetivo principal não é aumentar o desempenho cognitivo", disse ele numa entrevista, "mas manter os excelentes níveis de desempenho entre os nossos militares."
Começando em 1993, Caldwell realizou testes aleatórios duplo-cego mostrando que a dextroanfetamina eliminava as quedas de desempenho dos pilotos, homens ou mulheres, sem dormir durante 40 horas consecutivas. Alguns dos estudos foram realizados em simuladores de vôo de helicóptero, mas depois foram replicados em aeronaves reais. Mais recentemente Caldwell testou o modafinil em comparação com a dextroanfetamina em pilotos privados do sono, mostrando que a droga da narcolepsia superou a fatiga e manteve o desempenho cognitivo, embora alguns indivíduos tenham tido náuseas semelhantes ao enjôo do movimento, dentro do simulador. "Em última análise, eu acredito que há lugar para o modafinil", diz Caldwell. "Não me surpreenderia se ele fosse aprovado para consumo dentro de um ano. Mas eu não acredito que ele possa vir a substituir nossa atual \\'go pill\\'. Temos 50 anos de experiência operacional e toneladas de pesquisas de laboratório com a dextroanfetamina. Ainda não chegamos lá com o modafinil."

Um halo de pó
Mesmo assim, a pesquisa com o modafinil destaca um paradoxo no debate ético sobre a melhoria cognitiva. A Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) tem financiado várias pesquisas, básica e aplicada, buscando caminhos para melhorar o desempenho cognitivo do seu pessoal. O programa de Desempenho Assistido Contínuo da Darpa vem financiando pesquisas pré-clínicas com a droga ampaquina da Cortex, por exemplo. Assim, enquanto membros de uma parte do governo, o painel de bioética do Presidente George W. Bush, apóiam o uso de drogas por pessoas saudáveis para melhorar o desempenho cognitivo de forma velada, outro ramo, os militares, têm explorado agressivamente a capacidade de novos agentes farmacológicos para aumentar a vigília e o desempenho cognitivo em indivíduos fatigados mas essencialmente normais - de um pequeno pulo a um salto para a melhoria cognitiva de civis.
O modafinil é o mais novo estimulante cognitivo capaz de criar adeptos entre pessoas saudáveis. Há uma literatura mínima, para não dizer até um certo mito, em torno do uso do Ritalin como um coadjuvante nos estudos para alunos dos cursos médio e universitário. O Ritalin, produzido pela Novartis, normalmente é indicado para crianças com transtornos de hiperatividade com déficit de atenção. Mas relatos evidenciam que entre estudantes e homens de negócios há adeptos do Ritalin. Vários alunos de uma famosa escola preparatória da Costa Leste norte-americana disseram que o Ritalin, utilizado como facilitador dos estudos, era tão comum que os alunos de vez em quando ostentavam um círculo de pó em torno das narinas depois de aspirar a droga. O hábito se espalhou entre os alunos. "Ele está diante de nós", confirmou Eric Heiligenstein, diretor clínico de psiquiatria da University of Wisconsin Health Services. "Está acessível, se você quiser usá-lo." Embora a quantidade de Ritalin consumido pelos estudantes universitários seja quase impossível de quantificar, Heiligenstein afirma que o número de usuários pesados é "muito pequeno", embora supere os que utilizam modafinil, porque o Ritalin está "disponível, é relativamente barato e tem um perfil bastante seguro".
Entre os esparsos resultados sobre os efeitos dessas drogas na saúde das pessoas, pelo menos um estudo sugere que um tratamento de demência de longa duração melhore as funções cognitivas em pessoas normais. Em julho de 2002, Jerome A. Yesavage da Stanford University, Peter J. Whitehouse da Case Western Reserve University e seus colegas publicaram um estudo na revista Neurology avaliando o impacto do donepezil no desempenho de pilotos. O donepezil, comercializado como Aricept, é uma das muitas drogas aprovadas pela FDA para diminuir a perda progressiva de memória que atinge pacientes com a doença de Alzheimer. Os pesquisadores treinaram dois grupos de pilotos num simulador de vôo do Cessna 172. Um grupo recebeu placebo enquanto outro tomou cinco miligramas de donepezil, menos que as doses convencionais para portadores de Alzheimer, durante 30 dias. Depois disso, eles testaram os dois grupos novamente no simulador.

Yesavage e seus colegas solicitaram que os pilotos fizessem várias curvas - pediram que executassem algumas manobras complicadas de tráfego aéreo e eles deveriam reagir a diversas emergências durante o vôo, incluindo uma queda na pressão do óleo indicada pelos instrumentos do painel. Um mês depois do início do treinamento, os pilotos que receberam donepezil tiveram um desempenho significativamente melhor que o grupo de controle, com uma performance superior nas tarefas de aproximação de pouso e na operacionalização das emergências. Yesavage, que espera realizar um amplo estudo brevemente, observou, no artigo da revista Neurology, que "se for possível melhorar cognitivamente indivíduos intelectualmente normais, fatalmente surgirão algumas questões relevantes de ordem legal, regulatória e ética".

Se estas questões surgirem de fato para o donepezil, modafinil e outras drogas existentes, elas também serão necessárias para a nova geração de drogas da inteligência, principalmente porque elas se baseiam na abordagem mecanicista da memória, que poderia ser particularmente poderosa - ao contrário das descobertas casuais que conseguimos até agora. Embora todos os executivos da área de biotecnologia critiquem a idéia da droga da moda, todos têm conhecimento do que vem acontecendo. "A indústria pretendeu evitar as drogas estimulantes nos anos 90", disse um neurocientista. "Mas eu acho que o Viagra acabou mudando um pouco a opinião das pessoas."

Melhorando a Memória

À medida que ele me acompanhava pelas instalações da Memory Pharmaceuticals ao norte de Nova Jersey, Axel Unterbeck enfatizava cada parada do passeio com a frase: "muito sofisticado". Alto, charmoso, bem vestido, Unterbeck, presidente e diretor científico da empresa, invocava as mesmas palavras repetidamente - no laboratório de eletrofisiologia onde meia dúzia de biólogos anotava o efeito de potenciais drogas estimuladoras da memória em neurônios isolados e fatias de cérebro de animais. "Eles trabalham enquanto conversamos", disse Unterbeck orgulhosamente, apontando para uma máquina de US$ 250 mil que determina rapidamente a concentração de metabólitos do sangue. "Muito sofisticado". Tudo na Memory Pharmaceuticals revela o estado-da-arte da ciência e uma ambição levada ao extremo - seus padrinhos intelectuais e fundadores (Eric R. Kandel, da Columbia University e Walter Gilbert, de Harvard, ambos agraciados com o Prêmio Nobel), a linda paisagem dos jardins da empresa com bétulas e jacintos ladeando a entrada, até a opulência de seus vizinhos, a matriz da Mercedes Benz logo adiante. Fundada em 1998, a empresa está apostando muito dinheiro - US$ 41,5 milhões de uma recente captação de financiamentos, além de um negócio desenvolvido em colaboração com a Roche, a gigante suíça de produtos farmacêuticos, que RITALIN, normalmente prescrito para crianças com transtornos de hiperatividade com déficit de atenção, tem sido usado por estudantes para aumentar a perspicácia mental.

pode chegar a US$ 150 milhões - que lhe permitirão navegar tranqüilamente pelas águas das descobertas das drogas com maior eficiência, desde o início do processo, através da identificação de problemas toxicológicos e farmacocinéticos (metabolismo das drogas) nas drogas que melhoram a cognição. "Aí está o futuro", disse Unterbeck, "e estamos em posição privilegiada para transferir a ciência para as drogas da inteligência."
No início de 2003, a Memory Pharmaceuticals iniciou testes de segurança da sua primeira droga da inteligência, um composto chamado MEM 1003, em voluntários saudáveis em Londres. O composto regula o fluxo de íons de cálcio nos neurônios e se destina a restabelecer o equilíbrio desse elemento nas células do cérebro que foram rompidas pelo Alzheimer, por incapacidade cognitiva branda ou por uma condição conhecida como demência vascular. "Até aqui, este programa parece excepcionalmente bom em termos da farmacocinética e da toxicologia", disse Unterbeck. "O composto parece ser muito seguro." Mas talvez as drogas potenciais da inteligência mais visadas pela Memory sejam um composto chamado MEM 1414, porque esta droga poderia controlar a cadeia molecular, identificada pelos laboratórios de Kandel e Tully como crucial para a conversão das experiências de curto prazo, em aprendizado na memória de longo prazo. Esse processo envolve uma proteína muito poderosa conhecida como Creb (ver box na pág. 53).

Em meados dos anos 90, Tully e Jerry Yin do Cold Spring Harbor Laboratory modificaram geneticamente uma mosca-das-frutas que tem, entre os insetos, o equivalente da memória fotográfica dos humanos. Essas moscas aprendem a memorizar uma tarefa depois de realizar somente um exercício de treinamento, enquanto as moscas comuns precisam de 10 sessões práticas. Elas conseguem este fantástico aumento de memória permitindo a saída de um único gene chamado Creb. Tanto o laboratório de Tully quanto o de Kandel mostraram que mesmo animais simples aprendem uma tarefa e a retêm na memória. As sinapses utilizadas para formar a memória são remodeladas e intensificadas num processo que exige a ativação de genes. Na verdade, a formação da memória libera uma molécula mensageira dentro da célula conhecida como AMP cíclica.

Essa molécula dispara a formação de uma proteína que se liga ao DNA da célula nervosa, ativando assim uma seqüência inteira de genes - juntando a massa aos tijolos - para construir as sinapses que consolidam a formação da memória. Esta proteína fantástica é chamada de proteína de ligação AMP cíclica com elemento de resposta ou Creb. Quanto mais Creb houver circulando em torno de um neurônio, mais rapidamente a memória de longo prazo vai se consolidar. Este, pelo menos, foi o caso que se verificou com moluscos, com a mosca-das-frutas e com camundongos. A questão, agora, é saber se vai funcionar também com humanos.

Normalmente, outro composto químico - fosfodiesterase (PDE) - rompe a AMP cíclica na célula. Farmacologicamente inibidora, a fosfodiesterase torna disponível mais Creb por períodos maiores - em teoria, intensificando e acelerando o processo de formação da memória. No entanto, os inibidores à base de fosfodiesterase têm reputação duvidosa no meio farmacológico: uma versão foi aprovada no Japão para o tratamento de depressão, mas as moléculas têm um histórico de náuseas. Por outro lado, os inibidores PDE têm se saído muito bem nos testes pré-clínicos para melhorar a memória, de acordo com pesquisadores da área, porque eles permitem que mais Creb permaneça na célula durante o aprendizado, o que promove a consolidação da memória. Por isso, tanto a Memory Pharmaceuticals quanto a Helicon Therapeutics estão desenvolvendo drogas com base em um tipo de molécula conhecida como PDE-4. A Helicon também está trabalhando com uma droga que elimina lembranças, um composto que poderá bloquear ou apagar acontecimentos perturbadores. "Temos evidências pré-clínicas sugerindo que essa molécula pode bloquear seletivamente lembranças traumáticas" afirma Tully.

A Memory Pharmaceuticals está particularmente em destaque, por causa da molécula MEM 1414 - um fascínio ratificado em julho de 2002, quando a Roche concordou em se associar para o seu desenvolvimento. "O que é interessante é que você encontra, em macacos e roedores, os mesmos tipos de incapacidade de memória associadas ao envelhecimento dos humanos", avalia Unterbeck. Cerca de 50% de animais idosos são incapazes de formar novas memórias, embora a MEM 1414 tenha restaurado os déficits relacionados ao envelhecimento nas lembranças de animais a níveis próximos dos normais. A empresa iniciou a fase I de testes (de segurança) no começo deste ano.
Mesmo que os testes clínicos progridam da forma prevista, chegando à aprovação pela FDA, o processo pode ser lento e arriscado. "A MEM 1003 poderia estar no mercado em 2008", diz Tony Scullion, diretor-executivo da Memory "e o 1414 não estaria muito atrás." Mas como Unterbeck já sabe, pela sua própria experiência na Bayer, a promessa de uma nova droga não surge de uma hora para outra, mesmo quando o grande número de pacientes envolvidos nos testes da fase III possa revelar não somente eficácia não muito satisfatória e efeitos colaterais maiores que os esperados. "As empresas no ramo das drogas investiram US$ 500 milhões" , diz ele "e você acaba falhando na fase III." Larry Squire, pesquisador renomado nas pesquisas da memória, da University of California em San Diego acrescenta: "Na verdade, você poderia dizer que toda a história deste campo de pesquisa tem se concentrado no controle dos efeitos colaterais".
Além disso, são poucos os pesquisadores que acreditam que a Creb seja a melhor ou a única via para chegar a uma droga de impacto para a memória. "Não há uma forte conotação biológica nas seqüências da Creb, principalmente em mamíferos", evidencia um neurocientista que prefere não ser identificado. "Os alvos não foram bem estabelecidos e se começou a falar da Creb por todo lado, muito antes do que se deveria." Outro cientista respeitado me disse que até um consultor científico da Memory Pharmaceuticals expressou, em particular, sua opinião de que as novas drogas não têm se mostrado mais eficientes que a cafeína. A Creb não é o único portal para as terapias da memória. Tsien, o responsável pela criação do camundongo inteligente de Princeton, está procurando um caminho diferente para a memória envolvendo o receptor do neurotransmissor NMDA que está limitado à parte anterior do cérebro. A tecnologia da ampaquina da Cortex está voltada para um sistema neurotransmissor diferente. "Falando francamente, ainda sabemos muito pouco", diz Tsien. "Não conhecemos os princípios nem os códigos de funcionamento da memória. Conhecemos muitos genes, mas não temos um quadro coerente e eu acho que esse é o problema que afeta todo o campo de pesquisa e do desenvolvimento terapêutico."
Os pesquisadores estão resignados a continuar o debate bioético sobre as drogas, não importando se a ciência é prematura ou se o futuro é incerto. "Nós já comemoramos por ter mostrado que as drogas vão funcionar", admite Tully, que tem estado muito atento às implicações sociais da pesquisa científica. "Depois de dizer isso, será que eu acredito que a droga vá ser utilizada indiscriminadamente, se funcionar clinicamente? Acredito que sim. Em princípio, esses compostos poderão melhorar as habilidades motoras necessárias para tocar piano, para aprender um segundo idioma. O uso de drogas sem autorização aconteceu com o Viagra e não parou com o Viagra, não parou com o Ritalin e não parou com as anfetaminas. O fato é que a prescrição de drogas sem autorização é perigosa por causa dos efeitos colaterais não previstos. Você pode desenvolver problemas psicológicos desconhecidos. Realmente, nem vale a pena falar disso, a menos que seja como ficção científica. Precisamos esperar até aplicar essas drogas nas pessoas e ver o que acontece."
Embora os executivos de empresas biotecnológicas refutem o conceito de droga da moda para as pílulas da inteligência, o precedento aberto pelo viagra reforça a idéia de essa tendência repetir-se.

Considerando que provavelmente precisaremos de uns cinco ou dez anos até "ver o que acontece", certamente estamos fadados a ler muito mais sobre drogas da inteligência antes de termos qualquer pílula nas mãos. Mas um alerta deve ser feito, lembrando de um caso que aconteceu quando eu estava visitando Tsien em Princeton. Ele estava me levando para o abrigo de animais, onde vivia o seu camundongo "inteligente" modificado geneticamente, quando um dos técnicos do laboratório passou por nós carregando uma ratoeira com dois ocupantes infelizes. Tsien olhou para os dois roedores cognitivamente melhorados na ratoeira, meneou a cabeça e disse: "Não tão inteligentes".

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