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Gonzáles.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O Mal do Século























Ansiedade na visão Neurológica

A ansiedade parece ser inevitável atualmente, e toda essa pressa de ter que correr atrás de muitos objetivos tem causado nas pessoas a impressão que não temos tempo para nada. Acabamos por nos esquecer que a Bíblia diz que "tudo tem seu tempo determinado, há tempo para tudo debaixo do céu. Tempo de plantar e tempo de colher. Tempo de semear e tempo de colher o que se semeou”.

A ansiedade pode ser definida como uma emoção caracterizada por sentimentos de previsão de perigo, tensão, aflição, receio de prejuízos emocionais e pela vigilância do sistema nervoso simpático. Acontece quando um estímulo precede caracteristicamente um estímulo aversivo com um intervalo de tempo suficientemente grande para permitir a observação de mudanças comportamentais. A ansiedade evoca um comportamento que foi condicionado pela redução de ameaças semelhantes e também elicia fortes respostas emocionais.
Trata-se, em geral, de um sentimento um tanto confuso, na medida que o indivíduo não tem muito claro o que é, exatamente, aquilo que tanto teme e lhe causa medo, insegurança e a imprevisibilidade dos acontecimentos vindouros.
É importante salientar a diferença entre o medo e a ansiedade. O objeto do medo é fácil de especificar, ao passo que o objeto da ansiedade amiúde não é claro. A intensidade do medo é proporcional à magnitude do perigo. A intensidade de uma ansiedade tem a probabilidade de ser maior do que o medo objetivo (se for conhecido). Na vida real, a ansiedade e o medo não são fáceis de diferenciar.
Os psicólogos se dividem em suas teorias para a explicação dos detonadores da ansiedade. Freud indica que tanto podem ser os perigos do mundo real que levam ao sofrimento físico, quanto a previsão de punição por expressar impulsos sexuais, agressivos ou outras formas proibidas ou engajar-se em comportamento imoral. Os psicólogos cognitivos realçam conflitos entre expectativas, crenças, atitudes, percepções, informações, concepções e coisas parecidas que conduzem a dissonância cognitiva. Os psicólogos humanísticos enfocam também conflitos mentais, principalmente os que surgem enquanto se escolhe um estilo de vida satisfatórios significativo. Os psicólogos behavioristas acreditam que a maioria das ansiedades é estabelecida por condicionamento, como um “objeto” de algum tipo que é acidentalmente associado a uma experiência desesperadora de ansiedade, muitas vezes um objeto que pode ser perigoso. Logo, tanto os conflitos cognitivos como as situações potencialmente perigosas parecem capazes de excitar ansiedade.
A ansiedade nem sempre é um estado patológico. É até um certo ponto útil, e não nociva. Passa a sê-lo quando, em vez de auxiliar o desempenho (a vida de modo geral) do indivíduo, começa a prejudicá-lo.
Um exemplo de ansiedade normal seria o indivíduo que tenha prestado um vestibular e estar inquieto, preocupado, ansioso por ver as notas e saber se passou. Ou, se uma mulher tem o marido viajando há meses e vai ao aeroporto recebê-lo, ela estará ansiosa por vê-lo, abraçá-lo, contar-lhe as novidades, entrar em contato com ele. Ou um amigo vai levar a amiga para casa à noite e eles se demoram conversando no carro, na porta da casa dela. Cada vez que se aproxima um vulto, ficam ansiosos, sobretudo se alguém atravessa a rua e vai em direção ao carro. É claro, essas manifestações de ansiedade estão dentro do normal, consistindo em estados passageiros.
Mesmo quando intensa ao ponto de prejudicar o desempenho, nem assim a ansiedade configura uma doença, se for episódica e circunscrita. O problema maior é quando, longe de ser apenas um estado transitório, passa a constituir um traço de personalidade da pessoa.
A ansiedade normal tem episódios de intensidade leve ou moderada, não frequentes e com duração limitada no tempo. Ocorre reação adequada a estímulos ou situações que, como regra, provocariam reações semelhantes nas outras pessoas; a sensação subjetiva de sofrimento é limitada e transitória; não compromete, ou compromete de forma apenas discreta, o desempenho profissional, social, amoroso da pessoa.
A ansiedade patológica se caracteriza por episódios moderados a intensos e prolongados no tempo; reação desproporcional ao estímulo ou situação desencadeante; sensação de sofrimento evidente e quase permanente e compromete de forma significativa o desempenho.
As manifestações do estado de ansiedade no indivíduo pode ser divididas em dois grupos: psíquicas e físicas.
Como manifestações psíquicas temos: apreensão, sensação desagradável de alerta e tensão, inquietude e impaciência, sensação de fadiga e desânimo, distração e dificuldade para concentrar-se, dificuldade para memorização e insônia.
As manifestações psíquicas são: agitação e tremores, sudorese, boca seca, palpitações, sensação de “aperto” no peito, vertigens e tonturas, náuseas, constipação intestinal ou diarréia, necessidade frequente de urinar, dor de cabeça, sensação de “bolo” na garganta (com ou sem dificuldade de engolir), sinusites, alta pressão arterial, úlceras e reações alérgicas.
O estresse nada mais é que o componente físico da ansiedade. Ambos preparam o organismo para enfrentar situações sentidas como de perigo, seja ele real ou imaginário; no caso da ansiedade seria mais de um perigo imaginário.
Embora as pessoas mostrem níveis característicos da ansiedade, as respostas a qualquer evento específico dependem até certo ponto dos pensamentos e das percepções do indivíduo. Há evidência de que tanto animais de laboratório como as pessoas sentem menos tensão quando se sentem em controle - quando os estresses são previsíveis e é possível o comportamento agonístico.
O nível de ansiedade está correlacionado à percepção de ser ou não controlável a situação como ameaçadora. Se a percepção for de boa controlabilidade, o nível de ansiedade será baixo; se, ao contrário a perspectiva for de perda do controle, o nível será alto. A ansiedade patológica se explicaria então por um ego enfraquecido e sentindo-se permanentemente ameaçado; pelo desassossego íntimo se defendendo por meio da ansiedade.
Estudos feitos por James Geer e seus colegas (Davidoff, 1983) e muitos outros psicólogos sugere que a percepção de controle, e não o controle real, é de importância crítica. Ajudar as pessoas a pensar que elas têm controle sobre circunstâncias assustadoras é provável que reduza o nível de ansiedade em uma grande quantidade de ambientes. Por exemplo, preparar pacientes para cirurgias antecipadamente, facilita que estes se ajustem melhor as tensões do período pós-operatório do que pacientes despreparados, facilitando assim, a recuperação mais rápida daqueles.
O estudo da ansiedade recorre a estudos laboratoriais feitos com animais onde estes são submetidos a situações ansiogênicas e a drogas ansiolíticas em doses comparadas ao tratamento clínico humano. Um dos modelos experimentais mais utilizados é o teste de conflito ou punição. Este consiste em treinar um animal a pressionar uma barra para obter uma recompensa.
Aprendido este comportamento, passa-se a aplicar um choque nas suas patas após cada pressão da barra. Com a progressiva intensificação do choque, o animal passa a viver uma situação de conflito entre suas expectativas de recompensa e punição e passa a refrear seu comportamento. Porém o choque passa a vir junto com a recompensa. Os animais do grupo experimental recebem injeções de tranquilizantes passando a não tomar mais o choque e apresentando o comportamento punido.
Este modelo experimental é de grande importância para os estudos de farmacologia e principalmente por ser o que melhor permite estabelecer correlações tanto quantitativas quanto qualitativas entre a ação ansiolítica no animal e no homem.
Foi possível relacionar a ligação das emoções (desencadeadas pelo ambiente reforçador ou punidor) com o funcionamento do organismo a partir do conceito do sistema límbico como o de um verdadeiro cérebro emocional visceral incorporando ao hipotálamo.
O hipotálamo é a parte encefálica mais importante para o controle das “funções vegetativas” do corpo, expressão que define o conjunto das funções orgânicas internas subconscientes, incluindo a maioria das funções do sistema nervoso autônomo. É compreendido por dois sistemas: o sistema nervoso parassimpático (inibidor) e o sistema nervoso simpático (estimulador).
O indivíduo em estado de ansiedade se mantém em constante vigilância, tendo uma atuação maior neste, o sistema nervoso simpático.
A toxina atuante na origem da inibição comportamental verificada em situações de perigo. é a serotonina 5-HT (5,7-dihidroxitriptamina), um neurotransmissor importantíssimo no estudo neuroquímico da ansiedade. Tanto o bloqueio de seus receptores quanto o bloqueio de sua síntese, produzem efeitos ansiolíticos. Ela exerce um papel ansiogênico na amígdala e na matéria cinzenta periaquedutal dorsal (MCPD).
A amígdala parece ter a função de avaliar o grau de ameaça para, em seguida, instruir estrutura executivas quanto ao tipo de reação de defesa a ser programado. A MCPD deve ser acionada somente em casos de perigo iminente. Assim sendo, faz sentido que os sistemas neuronais serotonérgicos inibam a MCPD, enquanto facilitam o processamento de informações relativas à defesa na amígdala. Deste ponto de vista o duplo papel da 5-HT pode ser considerado como tendo um valor adaptativo.
O efeito dos agentes anti-depressivos, assim como dos ansiolíticos tipo bupirona (que aliviam a ansiedade generalizada após o uso prolongado), se dá pela diminuição do número e/ou sensibilidade dos receptores 5-HT. O efeito comum a todos esses agentes seria, sobretudo, devido à redução da eficácia da via serotoninérgica que vai do núcleo dorsal da rafe até a amígdala.
Há fortes indícios da participação da 5-HT no mecanismo de ação dos diversos medicamentos anti-depressivos e ansiolíticos e, ainda, na patogênese de certos distúrbios de ansiedade e depressão. Supõe-se que as diferentes vias serotonérgicas e seus vários subtipos de receptores participem de forma seletiva em cada modalidade de distúrbio emocional e na sua resposta farmacológica, o que explica, de certa forma, as peculiaridades das respostas terapêuticas encontradas na clínica.
Outro neurotransmissor importantíssimo envolvido com os processos de ansiedade é o GABA (ácido gama-aminobutírico), o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Ele está presente em quase todas as regiões do cérebro, embora sua concentração varie conforme a região.
A relação entre o GABA e a ansiedade evidencia-se no fato de que todos os ansiolíticos conhecidos, afora o meprobamato, facilitam sua ação. Seu efeito ansiolítico seria fruto de alterações provocadas em diversas estruturas do sistema límbico, inclusive a amígdala e o hipocampo.
Ao se combinar com o receptor, o neurotransmissor GABA altera-lhe a conformação e essa deformação transmite-se ao canal de cloro, abrindo-o. Em conseqüência, íons de cloro penetram na célula, onde sua concentração é menor que no exterior. Com isso ocorre uma hiperpolarização da membrana pós-sináptica que inibe os disparos do neurônio pós-sináptico por dificultar a despolarização de sua membrana, necessária à geração de impulso nervoso.
A ação tranqüilizante dos ansiolíticos parece consistir em reduzir o funcionamento de grupos neuronais do sistema límbico responsáveis pela integração de reações de defesa contra ameaças de dano ou perda, ou ainda, evocadas por situações novas.
De uma maneira geral, admite-se que os estímulos aversivos ou aqueles associados ao prazer podem desencadear dois tipos de processos: 1) disparam eventos que são integrados pelo hipotálamo e resultam em alterações do estado interno que preparam o organismo para ação adequada (ataque, fuga, comportamento sexual, etc.) e não requerem um controle consciente ou 2) acionam mecanismos prosencefálicos que preparam o organismo para as interações com o meio externo modulando o repertório comportamental, a fim de dirigir respostas esqueletomotoras adequadas.
A espécie humana experimenta várias formas de ansiedades diferentes e o nosso conhecimento sobre o cérebro ainda é de certa forma precário, o que dificulta o desenvolvimento de compostos mais eficientes e seguros no combate à ansiedade e à depressão.
No início do século os compostos mais utilizados eram os barbitúricos, sobretudo o Gardenal ( usado no tratamento da epilepsia ). Ele é eficaz como ansiolítico, no entanto produz uma série de efeitos colaterais tais como: sedação, dependência psicológica e fisiológica, em altas doses podendo levar a intoxicações graves e à morte por depressão de certos centros nervosos.
Nos anos 50 o meprobamato ( lepenil ) se tornou muito popular, mas não passou de uma tentativa mal sucedida de substituir o fenobarbital. Ele era mais caro, menos eficaz e quase tão perigoso quanto os barbitúricos, sendo por isso logo abandonado.
Em 1960 foram introduzidos os benzodiazepínicos (diazepan) mais eficazes e menos nocivos que os barbitúricos e vieram praticamente substituí-los no tratamento da ansiedade e da insônia. Embora os benzodiazepínicos produzam efeitos colaterais mais brandos, seus níveis de consumo são preocupantes. Só em 1984, no Brasil, foram consumidos 38 milhões de frascos. Existe uma expectativa quanto ao aumento de casos de ansiedade nos dias de hoje e esse fato é preocupante, ao passo que o tratamento farmacológico desses casos apresenta limites e riscos não totalmente controlados no campo científico.
A ansiedade é um fenômeno normal e necessário da vida, que todos sentem ocasionalmente. Como sintoma, é comum nos estágios iniciais da esquizofrenia, quando o indivíduo está tendo sensações novas e estranhas, e freqüentemente ocorre também nos transtornos do humor. Em outro grupo de distúrbios, entretanto, a ansiedade é o sintoma principal.
O distúrbio de ansiedade generalizada caracteriza-se por inquietação, irritabilidade, tensão, sudorese, palpitação e vários outros sintomas associados à ansiedade. A pessoa se torna apreensiva, impaciente e tem dificuldade para dormir. Para a ansiedade ser considerada um distúrbio, os sintomas devem ser persistentes, continuando por várias semanas.
No distúrbio do pânico, as pessoas sofrem de ataques de pânico espontâneos que acontecem de repente, sem causa aparente. Ficam extremamente amedrontadas e freqüentemente têm a sensação de que vão morrer. Apresentam palpitações, tonturas, dores no peito e uma sensação de perda de contato com a realidade, entre outros sintomas. Este distúrbio pode durar algumas semanas ou meses, porém o mais comum é que volte a ocorrer com o passar do tempo. Apesar de a crise propriamente dita durar geralmente apenas alguns minutos, a antecipação da sensação de desamparo ou da perda de controle que acompanha o ataque de pânico pode deixar a pessoa com medo de ficar sozinha ou sair de casa.
As pessoas, cujos ataques freqüentes de pânico limitam cada vez mais suas atividades normais, são diagnosticadas como tendo agorafobia. Esta é a mais incapacidade de todas as fobias, as quais são também consideradas distúrbios de ansiedade. A pessoa com agorafobia usualmente evita situações nas quais seria difícil ou impossível escapar- multidões, túneis, grandes lojas, pontes, elevadores e transportes públicos. Algumas pessoas com agorafobia ficam tão amedrontadas que às vezes não saem de casa por anos.
Outros tipos de fobia são as fobias simples, que se caracterizam por medo persistente e irracional de um objeto, atividade ou situação específicas, e a fobia social, medo irracional de sentir-se humilhado ou embaraçado em público.
O distúrbio obsessivo-compulsivo (DOC) é um distúrbio de ansiedade que envolve pensamentos e comportamentos repetidos, que são difíceis ou impossíveis de controlar. Os pensamentos intrusivos e obsessivos podem girar em torno do medo de causar mal a outros ou de ser vítima de algum mal. Em resposta a estes pensamentos obsessivos, os pacientes com DOC freqüentemente se sentem compelidos a executar certos rituais ( comportar-se de um modo específico repetidas vezes ) para afugentar o mal temido, mesmo estando conscientes de que seu comportamento é irracional.
Outro distúrbio de ansiedade é o distúrbio de estresse pós traumático, que é uma reação, que ocorre repetidamente, a um evento psicologicamente traumatizante, fora da vivência humana habitual. Combates em guerras, bombardeios, violência sexual, catástrofes ou tortura são exemplos do tipo de experiência que pode produzir este distúrbio. Os sintomas incluem a lembrança do evento, ausência de resposta a estímulos provindos de outras pessoas, pouco interesse por atividades externas, sonolência excessiva, problemas de memória e perda de concentração.
No ser humano existe sempre a possibilidade do vir-a-ser. O homem é sempre um ainda não. Ninguém, em momento algum, pode ser visto como uma possibilidade fechada. Mas, uma pessoa que se desestrutura no presente em função de um vir-a-ser está emocionalmente desorganizada e chega até a sofrer prejuízos orgânicos.
Apesar de algumas correntes organicistas defenderem a idéia de a ansiedade ter origem em causas físicas, as manifestações da ansiedade são conseqüências e não causas. A origem está no emocional e deve ser procurada na história de vida daquela pessoa. Talvez a causa seja fácil de achar. Uma mulher que no início da vida sexual nunca conseguiu atingir o orgasmo, pode levar para todas as relações sexuais, ou para as relações em geral, a angustiante sensação de "não vai conseguir", não vai se sair bem, tornando-se cronicamente ansiosa. Às vezes, as causas são mais difíceis de achar e a auto-reflexão não basta para sair desse caminho.
A psicoterapia ajuda a reconstruir a trajetória de vida até chegar à raiz da ansiedade. Por esse motivo os ansiolíticos receitados para diminuir a ansiedade a curto prazo funcionam e a pessoa se sente melhor. Os distúrbios orgânicos - secura, suores, tremores - desaparecem e ela acha que está bem, porque não se preocupa demais com nada (nem com o presente). Porém, na hora de deixar os comprimidos, tudo voltará, porque a causa da ansiedade não foi atingida.
Achar que a cura da ansiedade depende de ansiolíticos é o mesmo que, quando uma torneira não
pára de pingar, ficar enxugando a água que molha o chão. Se a torneira não for consertada, vai ser preciso passar a vida inteira enxugando.

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